
O que fazer quando você está longe de casa, até mesmo em outro país, e não tem dinheiro para se hospedar ou locomover?
Esse tipo de roubada é comum nas surf trips da galera. Na maioria das vezes, com a grana curta para viajar para os campeonatos, o pessoal tem que se virar como pode para enfrentar a viagem.
Mas, mesmo que você se organize e deixe tudo reservado, antes mesmo de sair de casa as roubadinhas começam a aparecer.
O assunto surgiu durante o campeonato Petrobras no Rio de Janeiro e acabou revelando várias histórias. As situações difíceis tornam-se muito engraçadas depois de solucionadas.

Fomos para o Rio de Janeiro. Além de mim, estavam na barca Yries Pereira, Taís de Almeida, Larissa Barbieri e o técnico Felipe Braun.
Estava tudo organizado para nos hospedarmos na Barra, em frente ao pico onde supostamente estaria o palanque do circuito Petrobras.
Com a chegada de um forte swell de sul, com ondas que ultrapassavam 1,5 metros e fechavam a praia da Barra inteira, o campeonato foi deslocado para o Recreio dos Bandeirantes.
E agora? Estávamos longe do Recreio, não tínhamos carro nem dinheiro para pegar um táxi. Para ir de ônibus era muito demorado e, para dificultar mais um pouquinho, chovia e fazia muito frio.
Por sorte, o pessoal do caminhão que transportava o palanque estava hospedado no mesmo lugar que a gente e conseguimos carona para o campeonato todos os dias.
Foi uma excelente opção.
O caminhão era enorme, com colchão e cadeiras, e se transformou no QG móvel da galera, que aproveitava para descansar e se aquecer entre uma bateria e outra. No entanto, isso não é nada comparado a algumas situações que a galera já enfrentou no Brasil ou mundo afora.
A Taís de Almeida, campeã do circuito Petrobras 2004, passou por outra situação ainda mais complicada durante a perna européia do WQS neste ano. Ela, a Silvana Lima e o técnico Pedro Robalinho chegaram em Biarritz, na França, e não tinham lugar para ficar e nem carro para alugar.
Em Biarritz, ter um carro é fundamental, pois os hotéis ficam longe do pico onda rola o campeonato. Por sorte encontraram o atleta Felipe Freitas, que havia alugado um. então, os quatro saíram juntos do aeroporto e foram atrás de um hotel para se hospedar, mas a cidade estava lotada, fazendo com que rodassem até 3 horas da manhã sem encontrar nada.
O jeito foi dormir na rua. Quer dizer, a Taís e a Silvana dormiram dentro do carro e o Robalo e o Felipe tiveram que dormir na calçada. No dia seguinte, eles encontraram um hotel às 21 horas. Mas, nada estava resolvido, pois o hotel também estava lotado e eles tinham que sair no dia seguinte pela manhã. Pelo menos deu para tomar banho e dormir numa caminha.
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Energia mais ou menos recuperada, no terceiro dia de viagem eles finalmente conseguiram achar um hotel para se hospedar. Só que a aventura não parou aqui.
Esse hotel era muito caro e eles não tinham condições de ficar ali por mais 10 dias, sendo que ainda precisavam alugar um carro. O jeito foi juntar dois em um: eles alugaram uma van.
Taís afirma que foi a melhor solução, pois eles estacionaram a van na frente do campeonato e ali ficaram.
“Tinha uma padaria ali perto, onde eu comprava pão para o café da manhã. Isso era bom. Mas, o maior problema foi encontrar um banheiro

decente e enfrentar o calor e a bagunça na van”, revela Taís.
Juliana Quint também já passou por algumas, acompanhada pelo namorado e técnico Fernando. Uma delas foi em um campeonato amador há alguns anos na praia de São Francisco do Sul.
“Fomos para o campeonato sem grana e não tínhamos como pagar a hospedagem. O jeito foi armar a barraca no calçadão”.
Mas, não durou muito. Logo apareceram policiais que expulsaram eles dali e informaram que era proibido armar barraca no calçadão, na praia ou em qualquer outro lugar na região.
O único jeito era montar a barraca num camping, mas realmente eles não tinham dinheiro. Sem ter o que fazer, dormiram em cima do caminhão do palanque. O problema é que era verão e o calçadão, onde estava estacionado o caminhão, era onde rolava todo o agito.
Muito barulho e a claridade da lua cheia não deixava eles dormirem de jeito nenhum. Durante a madrugada, quando a movimentação na rua parou, montaram a barraca na praia e só assim conseguiram descansar um pouco.
A catarinense Michaela Fragonese é conhecida como a rainha das roubadas e tem muitas histórias para contar. Durante os seis meses que morou na Europa em 2003, uma situação em especial ficou gravada em sua memória.
Sem grana em Hossegor, durante o WQS, pediu para o Jean da Silva e para o Pedro Henrique deixarem ela dormir onde estavam hospedados uma noite antes de começar o campeonato. Os três saíram para jantar e Michaela acabou se perdendo no meio da muvuca.
Cansada de tanto procurá-los, começou a se preocupar, pois não tinha como entrar no apartamento caso não reencontrasse os meninos. Foi ficando tarde e, morta de sono, trombou com o Fábio Silva, que a deixou passar a noite em seu apartamento.
Porém, sua mala e também a prancha estavam presas no apartamento de Jean e Pedrinho. No dia seguinte, sua bateria era uma das primeiras do dia e o jeito foi acordar bem cedo para buscar suas coisas e correr para a praia. “Mesmo assim cheguei atrasada e acabei perdendo a bateria”.
Yries Pereira também já passou por uma situação crítica em um campeonato brasileiro amador na praia do Arpoador em 2001. “Fui para o campeonato só com o dinheiro da passagem e inscrição, pois na época estava sem patrocínio”.
Sem dinheiro para se hospedar, pediu ajuda para as colegas e instalou-se escondida no quarto das amigas. “Dormia no chão, dentro da capa de prancha”. Fora o desconforto de não ter onde se hospedar, Yries não tinha dinheiro para comer e pedia um biscoito todas as vezes que alguém abria um pacote.
Mesmo enfrentando algumas roubadas, o povo brasileiro não foge da luta. Para essas meninas, e para todas as outras que também põem a cara pra bater, o mais importante é a experiência de vida acumulada sempre que se ganha cada vez que uma situação difícil é superada. Imprevistos sempre ocorrem, principalmente quando a grana está curta. Mas, o que vale é participar.