
Essa é para quem gosta de histórias de roubadas.
Cansada do crowd de Oahu, a galera resolveu armar uma barca para a mística ilha havaiana de Molokai e seus secret spots.A costa dessa ilha é basicamente recortada por penhascos e o acesso aos picos só é feito por barcos.
Eu já havia feito duas barcas para lá, e em uma delas surfei altas ondas em um secret na companhia de Danylo Grillo, Romeo Bruno e os donos do barco Guardian, Átila e Capitão Sombra – o pai.
Eu, Romeo Bruno, Carlos Burle, Eraldo Gueiros, Garret Mcnamara, João Mauricio, Saulo Ramos e o fotógrafo-Patrick Mcfelley dividimos essa nova barca em duas turmas. Uma iria de avião, e a outra tocando três jet-skis para atravessar o canal mais perigoso do Pacífico, de acordo com experts.

Burle, Eraldo e eu fomos de avião uma noite antes. A galera com os brinquedos partiu na manhã seguinte, num dia de previsão perfeita para atravessar o canal – com muito sol e mar flat.
Chegamos em Molokai e tratamos de arrumar um local para todos pelos três dias seguintes. A previsão era de um grande swell com ventos perfeitos para o local.
Acordei com o telefonema de Patrick. Ele dizia ao Eraldo que não conseguiriam atravessar o canal porque os jet-skis tombaram na estrada durante o rush’que liga o litoral à cidade de onde partiria a segunda barca.
Resumindo, a galera colocou dois jet-skis 1.200cc em uma carreta para dois 700cc. Em uma curva a carreta não agüentou e os jets foram parar no meio da estrada, gerando um baita engarrafamento, com direito a flashs na TV e rádios locais.
Ficamos sem saber o que fazer, mas decidimos ficar pelo menos mais um dia no local, para fazer valer ao menos o investimento com um passeio caseiro.
No final de tarde, recebemos outro telefonema de Patrick, dizendo que substituíram um jet impossibilitado de navegar e que partiriam na manhã seguinte.
Acordamos e fomos para a praia, onde ficou acertado um encontro por volta de 12 horas.
Chegamos à praia meia hora antes e presenciamos a chegada da segunda turma.
A praia tinha algumas pedras e a entrada com os skis na praia necessitava de uma certa habilidade. Agora, prestem atenção à chegada.
O primeiro jet a subir na praia foi o pilotado por Patrick. Ele entrou muito bem, mas esqueceu de desligar o aparelho quando estacionou, fazendo o motor sugar muita areia, causando uma certa fúria para nós que assistíamos à péssima performance do gringo.
Na seqüência, João Mauricio tomou distância e acelerou o máximo que pôde o jet-ski 1.200 e entrou a milhão na praia. Porém, esqueceu de calcular a distância de uma grande pedra no trajeto.
Ele bateu com tudo na rocha, sendo atirado a alguns metros. Ele poderia ter se machucado seriamente, mas nada aconteceu. Mas o ski não teve a mesma sorte e ganhou uma bela rachadura no casco.
O terceiro ski, pilotado por Garret, foi o único a chegar ileso. Na seqüência, demos alguns passeios na ilha antes de uma boa noite de sono, não sem antes escutar a previsão das ondas e vento.
Então, a esperança de surfar ondas boas caíram por água a baixo. Um forte vento maral entraria no dia seguinte junto com a grande ondulação. Decidimos acordar e partir de volta para Oahu.
Na manhã seguinte, a primeira pergunta na cabeça de todos era sobre quem pilotaria skis de volta? Garret prontificou-se a tocar o dele. Os outros dois ninguém queria. Afinal, as condições seriam bem diferentes da ida, no meio de uma tempestade e ondas grandes.
Como era o mais novo, sabia que sobraria para mim e falei que levaria um e João Mauricio disse que me acompanharia, isto se ele dirigisse o melhor ski. Concordei sem problemas.
A rachadura no casco do jet batido pelo João era o nosso empecilho, porém ”Jegueraldo”, com a melhor das intenções, sacou de sua bolsa um quick repair e esvaziou a bisnaga no buraco. Enquanto esperavámos secar, a tempestade se aproximava.
O fotográfo Mcfelley já havia feito o trajeto Oahu-Molokai algumas vezes e me explicou que o melhor trajeto era subir o litoral de Molokai e traçar uma reta ao chegar na última ponta para dar em Oahu.
Na real, a galera era muito amadora, pois qualquer maluco que pretende atravessar esse canal com 50 e poucos quilômetros leva consigo um GPS e um celular. Mas, este não era o nosso caso e partimos com a cara e a coragem.
Os thunders storms, como são chamadas as tempestades que atingem o canal com sua fúria máxima, já estava a caminho. Eraldo tinha um rádio de previsão do tempo que não parava de informar que o canal que divide Oahu e Molokai sofreria uma tempestade daquelas.
Porém, já estávamos determinados e saímos. Já nos primeiros 30 minutos, o jet do Garret começa a pipocar e afundar. Ele foi rebocado de volta à praia e eu e João disparamos na direção do final da costa de Molokai.
O que me preocupava era como Garret levaria seu ski de volta a Oahu, pois é proibido andar de jet em Molokai. Isso acarretaria um possível problema com as autoridades locais.
Como meu jet era menos potente que o do João, e ainda contava com um buraco no casco, eu constantemente ficava para trás, e isso começou a me preocupar no meio do nada com uma ondulação e tempo nada agradável.
Dei então um toque para ele, para irmos lado a lado.
Naquele momento, não avistávamos mais nem Molokai e Oahu, devido à forte névoa. E começamos a questionar se era correto o caminho traçado. E, no meio daquela tempestade, eu afirmava que o caminho estava certo o caminho explicado pelo gringo, enquanto João afirmava que não – e que, na dúvida, era melhor voltar.
Como qualquer garoto, cheio de vontade e com medo de ficar sem jet para brincar em Oahu, eu fazia questão de chegar em Oahu a qualquer custo.
Quando estávamos com um pouco menos de meio tanque percebi que meu jet começou a falhar e afundar.
Depois de afundar mais da metade e parar de funcionar, abandonei a embarcação e pulei para o jet de João, enquanto eu dizia que deveríamos continuar até Oahu em dois em um jet mesmo, assim diminuiria um pouco o prejuízo.
Nessa, começamos a discutir o trajeto correto e, como ele estava dirigindo decidiu voltar – e eu acatei.
Cerca de 2 quilômetros de nossa origem, o jet começa a pipocar com falta de gasolina. Era só o que faltava. Mas, felizmente, conseguimos chegar são e salvos na praia onde a galera, depois de passar quatro horas, ainda fazia esforços para tirar o jet de Garret da praia com a ajuda de uma pick-up de um local.
Imaginem a cara de espanto da galera quando avistaram só um ski voltando…
Aí, Garret lembrou de um amigo de sua esposa que morava na ilha e que poderia dar uma força. A familia do cara era gente boa e deixamos os dois skis na casa deles, pois os brinquedos partiriam de volta para casa de navio.
E todos pegamos o primeiro avião de volta para casa.
Em Oahu, olhando o mapa, percebi que o caminho que o era errado o caminho descrito pelo gringo. Daquele modo, a terra mais próxima seria o Japão. Nunca ouça somente uma fonte. Ainda mais em uma situação dessas.
Certa vez, li uma entrevista de Laird Hamilton sobre um dos maiores perrengues de sua vida, quando o jet quebrou no meio do canal e ele teve que dormir em cima do ski até ser resgatado no dia seguinte.
Segundo ele, houve tempo de sobra para pensar na vida. Ele tinha um localizador GPS e o acionou para o resgate. Fiquei imaginando se ficássemos naquele canal na roubada e sem ter como se comunicar. Só Deus mesmo…
Depois de dois dias em Oahu, recebo telefonema de Romeo Bruno, que acabou não indo na barca de sua idealização, pois sua mulher tinha acabado de dar a luz ao primeiro filho -Tito.
Na ligação, aos prantos, Romeo diz para eu ir a casa dele a milhão, pois o jet-ski que afundou por causa da rachadura, fora visto em uma praia na costa East de Oahu.
Ao dar de cara com o bichinho, a única coisa que passou na cabeça era que aquela cena era um milagre. Acho que Deus percebeu minha intensa vontade de trazer os brinquedos de volta, e o colocou em nossas vidas de novo.
A causa do naufrágio foi o grande buraco no casco, causado pela batida de João na pedra. Ele aumentou, e muito, devido aos saltos nas ondas no meio do storm em direção a Oahu.
É, a vida não é feita só de alegrias. Roubadas fazem parte do nosso aprendizado. E essa, bateu recorde.
Aloha