
Dia 2 de setembro de 2005. A chegada de um ciclone na costa gaúcha deixa o aeroporto de Porto Alegre um caos. Espero por mais de sete horas para embarcar rumo a Itacaré e nada feito.
O aeroporto fecha. Volto para casa e retorno às 6 horas do outro dia, assim como todos os outros passageiros que tiveram vôos cancelados.
A maratona estava só começando. A Bahia é longe para quem mora no extremo sul do Brasil. Eram várias conexões e naquela confusão consegui perder todas. Mas, após 13 horas de viagem, cheguei a Itacaré, uma verdadeira surf city brasileira.

Minha missão nesta viagem: fotografar e noticiar os acontecimentos na segunda etapa do Circuito Petrobras Feminino para revista Fluir Girls.
Estava um dia atrasada para o meu trabalho. Só restavam mais dois e não tinho tempo a perder. Cheguei cedo à praia e fiz o reconhecimento do local.
A praia da Tiririca é linda! Uma enseada bem fechada e pequena com muitas pedras e coqueiros nas duas pontas. Algumas pousadas estão encravadas na encosta do morro à direita.

Mas é muito sutil, não chega a agredir o visual e tudo se integra. As baterias rolam desde o dia anterior e, como sempre, a infraestrutura do Petrobras faz com que as meninas permaneçam na praia o dia inteiro.
Na área das competidoras, a água de coco e a maravilhosa tapioca da Sandra (“O Restaurante”), deixa todo mundo feliz e segura a onda até a hora do jantar.
Começo a andar e observar essa gente que vive e se dedica ao artesanato do lugar. O dia passa e todas as pessoas com quem falo transmitem a mesma alegria por viverem o evento em sua cidade.

Seja nos restaurantes, baladas, lojas ou numa simples informação ao turista, a receptividade e o carinho é o mesmo. Sinto que estão todos orgulhosos de receber um campeonato de surf deste porte.
Pode-se perceber que em todos os tipos de estabelecimentos comerciais, há sempre uma referência ao esporte, até em algumas pichações de rua. Uma verdadeira surf city, como declararam algumas competidoras:
“Em Itacaré tudo gira em torno do surf. Tem muitas escolinhas e a maioria dos estrangeiros quer aprender a surfar. Pode-se ver que o surf está imbutido na vida de todo mundo que mora aqui. O povo é muito alegre, adoram o pessoal de fora e são muito hospitaleiros. Eles ensinam onde são os picos e não tem aquela coisa de localismo. Eles querem mais é mostrar como é a onda ali. Isso é muito legal pra quem vem conhecer e tem tudo a ver com o surf”, comenta a longboarder Karina Abras.
A surfista Brigitte Mayer também destaca a receptividade dos locais. “Você passa pela avenida principal e as pessoas te chamam pelo nome, sabem quem você é, te chamam pra sentar e apresentar às outras pessoas. É a cidade que eu sou mais bem recebida. Eu amo este lugar e acho isso aqui um visual, paradisíaco”.
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Pouco antes de pegar este depoimento com a Brigitte, falei: “Brigitte, você que já está na final…”.
E ela logo interrompeu: “Que final nada, ainda falta a semi. Mas isso é um bom presságio. É uma coisa boa!”.
E não deu outra, minha entrevistada foi a campeã. E posso dizer que até esta vitória da Brigitte fez jus ao astral do lugar e do campeonato. Ao termino da final, a alegria tomou conta das competidoras.

Muitas meninas correram ao seu encontro e a carregaram nos ombros numa demonstração de carinho e admiração. Mais do que uma grande surfista, ela é uma embaixadora do surf feminino.
Há anos batalha com dedicação e amor pelo crescimento da categoria. Brigitte é parte desta história e isso faz dela a surfista mais experiente, respeitada e querida por todas no
circuito.
Com 37 anos, ela é a atleta mais velha a conquistar uma etapa do Petrobras na categoria Profissional. Parabéns!

As veteranas continuaram em alta com a vitória da Karina “Kika”Abras, no Longboard, categoria que vem crescendo muito, principalmente por possibilitar que meninas com poucos anos de surf consigam desfrutar com mais facilidade do prazer de surfar.
Diana Cristina continua arrebentando e participando de várias categorias. Faturou a Mirim, ficou em terceiro na Open e quinto na Pro. É mole? Esperem para ver! Ela está chegando.
Na Open, a potiguar Krisna de Souza foi a campeã. Surfou muito bem. Ela vem apresentando um surf maduro, forte e promissor.

E na Grommets, nosso futuro vai de vento em popa. As baixinhas têm bons exemplos a seguir e estão cada vez melhores.
Kaena Brandi levou o troféu de campeã. Todas estão bem, Isabela Lima, Julia Torsani. Vitória e tantas outras que mesmo tão jovens, já amam e se dedicam ao surf.
Sinto o surf feminino como uma grande família, onde todas se integram e contribuem com harmonia para o crescimento desta categoria. Há poucos anos, ainda engatinhávamos e vivíamos à sombra dos eventos masculinos.
Até que surgiu a Laila “Mamuxca” Werneck, uma mulher que idealizou e realizou um campeonato com cara de mulher. Afinal, nós somos iguais a eles!
E assim nos libertamos e iniciamos o crescimento fortalecendo as categorias de base, o que considero o mais importante para o futuro do surf feminino. Itacaré integrou-se a esse espírito de família, coisa de alma feminina que abraça, dá colo e recebe bem quem chega. Foi uma maravilhosa experiência conhecer esta surf city! Até breve!
Roberta Borges aluga casas na praia da Barra, em Garopaba (SC), ao lado da Ferrugem. Para obter mais informações, visite o site www.casasborges.com.br .