
Mesmo depois de sofrer um acidente que o deixou paraplégico, Robson Jerônimo de Souza, mais conhecido como ?Careca?, 36 anos, não desistiu de fazer o que mais gosta na vida.
Confira entrevista concedida pelo surfista Careca, que após seis anos conta um pouco desse seu amor em viver e ser feliz fazendo o que mais gosta: surfando!
Nome completo: Róbson Jerônimo de Souza
Data de nascimento: 24/12/68
Tempo de surf: 27 anos
Data do acidente: 10/10/98
Ídolos: Jesus Cristo e Deus
Patrocínios: Bennet Foam, Oakley, Red Nose, Cannon, Town Country, Maresia e G-Shock

Conte um pouco sobre o seu acidente. O que aconteceu ?
Foi uma colisão frontal. Eu estava no banco de trás e fui arremessado contra o pára- brisa. Tive uma lesão alta c6 c7 cervical, fiquei internado 65 dias no Hospital das Clínicas e mais 45 dias no Sara Kubistchek, em Brasília. Na época trabalhava como salva-vidas no projeto Salva Surf, e logo que aconteceu o acidente tive consciência que minhas pernas não mexiam e que eu estava paraplégico. Porém, minha realidade tinha sido ainda pior, pois a lesão havia atingido a região cervical e me deixado tetraplégico.

O surf é um esporte que você já praticava quando aconteceu a tragédia. O que passou por sua cabeça? Você se imaginava na vida que hoje está (continua praticando e vivendo numa boa)?
No dia do acidente vinha de uma sessão de surf das boas. Havia surfado praticamente o dia todo, desde as 7 da manhã, e infelizmente o acidente aconteceu à noite, umas 19 horas. Eu já praticava o surf há um tempo e era segurança de água nos campeonatos realizados na praia do Maluf, Guarujá. Depois da tragédia pensei que não fosse mais surfar, mas dei a volta por cima e hoje surfo deitado. Levo a vida numa boa… Preparo-me para mais viagens e bola pra frente! Tem muita gente que gosta do jeito que sou e isso que importa.

A galera que surfa já ouviu muito falar do surfista Careca, devido as campanhas SOS Careca. Conte um pouco de como é o Careca, como é o dia-a-dia do Róbson Careca?
Uma pessoa de paz, carismática, que procura no dia-a-dia fazer as coisas com muita cautela, amor e paciência. Respeito a vida, pois após tudo que me aconteceu, aprendi a dar muito mais valor.
Já entramos no novo milênio. Como você enxerga a mentalidade das pessoas em relação aos deficientes físicos? É difícil hoje viver numa normalidade em um país onde ainda existem os preconceitos?
Sim, é difícil. Ainda estamos atrasados num país onde tudo é preconceito, tem que ter muita calma e paciência. Desde que nasci isso existe. No mundo inteiro encontramos pessoas que sofrem preconceito, mas aqui no Brasil acredito que pela miséria e pobreza a coisa é demais. Em pé (quando andava) já era difícil, sentado em uma cadeira piorou ainda mais. Porém, não me importo, sou um cara pra frente, luto pelos meus ideais, acredito em um país melhor…
Você já viajou pelo mundo atrás das ondas. Em quais lugares já esteve?
Nossa, é difícil dizer, pois me apaixono fácil palas coisas. Todas as viagens foram marcantes. A Europa é um lugar bárbaro, a gente aprende muito por lá. O Hawaii nem preciso falar. Surfei Velzyland, Venice Beach, Hossegor e Brighton.
O esporte ajuda o deficiente? Fale um pouco sobre seus projetos.
Ajuda muito na qualidade de vida, na auto estima e na reabilitação. Por isso vou montar uma projeto para colocar cadeirantes de diferentes tipos de lesões a remarem e surfarem junto conosco em harmonia constante, fazendo assim uma progressão das atividades adaptadas no país.
O que o Careca mudou com o acidente?
Muita coisa mudou. Acredito que quem sofre um acidente aprende a dar mais valor a vida, a vê-la com mais carinho e atenção. Afinal, a vida é bela!
Como você enxerga o incentivo do governo perante as ações sociais ligadas ao esporte adaptado?
No momento eles estão engatinhando, têm muito o que aprender conosco, que somos portadores de verdade.
O Brasil tem hoje um time muito forte que briga por medalhas nas paraolimpíadas. Além do surf, quais outros esportes você costuma praticar nos dias flat?
Natação, remada e frescobol.
Em quais lugares costuma surfar ?
Adoro o Litoral Norte, me identifico muito com o Camburi. A praia da Baleia também é boa, ainda mais pra mim, pois a areia fica perto do mar.
Quais são hoje as pessoas na sua opinião que são referência para o esporte adaptado no país?
Uma pessoa é o Pauê, outra é o Pirata. Os dois são feras no surf adaptado.
Deixe uma mensagem de incentivo para a galera.
Muita paz, amor, dedicação, esperança e fé muita fé. Não desanimem, bola pra frente! Não reclamem da vida, apenas caminhem em frente porque atrás pode existir gente muito pior! Abraços a todos e fé em Deus!