
Fui convidado para escrever sobre este assunto devido a uma matéria publicada no site da revista Surfing durante a etapa do WCT no Tahiti, em que um colaborador tenta retratar uma rivalidade entre os brasileiros e o resto do tour. Porém, ele o fez de forma parcial, e ouvindo somente um lado.
Antes de mais nada, não quero gerar aqui uma plataforma anti-gringos. Muito pelo contrário. Mas, é bom o pessoal saber o que rola no tour e os possíveis motivos desta rivalidade.
A rivalidade existe em todo os esportes. Até no time de futebol amador que participo, o BFC, rola atrito entre meus amigos durante os rachas nas quintas-feiras, mas quando o jogo termina, vamos todos tomar cerveja e jogar truco no bar da quadra. E no surf também há rivalidade, que deveria ficar somente na água durante as baterias, com batidas, aéreos e notas 10 para todos os lados.
Realmente, existe rivalidade no circuito mundial. Mas é dos surfistas gringos do tour para com os brasileiros, e isso já faz tempo que existe. Posso até entender o sentimento dos gringos, pois há 15 anos o Circuito Mundial era composto principamente por representantes de dois países: Australia e EUA.
Havia representantes em menor número da África do Sul, Inglaterra e Hawaii, mas a colonia inglesa continuava. Hoje, a elite possui nove brasileiros – entre os 45 melhores do mundo – ganhando baterias dos heróis australianos, americanos e havaianos.
Depois do Teco, Fabinho, Tatuí e companhia conquistarem espaço, ganhando baterias do Kelly Slater e de outros gringos na Europa, eles começaram a nos taxar de merrequeiros. Então, vem o Resende e ganha o primeiro campeonato mundial de ondas grandes em que um brasileiro é convidado, sem contar o respeito que eles têm pelo Burle depois daquela morra em Maverick’s, que lhe deu até prêmio entre os maiores big riders do mundo.

A maioria destes heróis nacionais são pagos por empresas brasileiras. Mudaram o circuito dividindo entre WQS e WCT, onde as etapas do circuito Brasileiro valiam para o ranking do WQS. Resultado: o Brasil tinha a perna mais bem paga (US$) do WQS e, consequentemente a mais bem pontuada, fazendo com que aumentassem nossas chances de entrar para o WCT.
Mudaram as regras novamente, e as etapas do circuito Brasileiro não mais valiam pontos para o WQS. Não adiantou nada, pois continuamos com as etapas do WQS muito bem pagas e pontuadas e, de quebra, o circuito nacional mais bem pago e organizado do mundo.
Isso tudo incomoda muita gente porque no surf profissional rola muito dinheiro. Deixou de ser somente esporte e virou “big business”. Sem falar nas marcas brasileiras que competem de igual para igual em qualidade, não deixando as marcas gringas serem líderes neste nosso imenso mercado.
Nunca um gringo foi hostilizado ou ameaçado no Brasil, nem mesmo quando o Todd Holand sacaneou o Vitinho, utilizando-se da regra para evitar que o Ribas pegasse uma onda e virasse a bateria em sua própria casa. Ele foi vaiado, mas à noite andou pelas ruas sem problemas.
Isto jamais aconteceria se fosse o inverso, com alguém do Hawaii em pleno Pipe. Sei de várias histórias que aconteceram no Hawaii e em outros lugares que mostram agressividade contra os brasileiros. Eu poderia escrever um livro sobre isto.
Lembro quando o Neco foi patrocinado por uma empresa internacional, com filial e negócios no Brasil, mas quem pagava a conta era o

patrocinador lá de fora. Durante a perna européia, esta empresa alugou uma casa na França (aliás, uma bela casa ) para seus patrocinados do circuito mundial.
O Neco, na ocasião, era o segundo melhor classificado na ASP entre os patrocinados desta empresa, e foi para a etapa da França crente e avisado que havia esta casa para ele ficar com sua esposa. Bem, chegando lá não havia lugar para ele, e como estava tudo lotado teve que dormir e se virar no chão da sala do apartamento onde o Teco estava com mais três pessoas.
Hoje, alguns atletas brasileiros são patrocinados por empresas internacionais, mas duvido que tenha mudado muita coisa neste aspecto com os atletas nacionais. Exemplo: Por que o Danilo não está na foto da equipe da Billabong para as campanhas publicitárias?
Aqui no Brasil ele aparece, mas fizeram uma montagem para que ele aparecesse. Hoje ele esta aí dando trabalho aos caras daquela foto em pleno Tahiti, e ainda vem gente da mídia internacional diminuir sua vitória. Isto é um absurdo. Quem escreveu isto já pediu desculpas para o Danilo pessoalmente, mas deveria se desculpar em público.
Com relação às reclamações dos brasileiros para os juízes da ASP, há um grande engano por parte dos gringos. Todos reclamam do julgamento, brasileiros e gringos, mas quando erram para os gringos a frase é: “sorry it was a mistake”. E, quando o erro beneficia o brasileiro, aconteceu porque fazemos pressão.
O erro existe porque é um esporte de avaliação subjetiva. Lógico que a pressão agora está maior para os brasileiros, pois os gringos desconfiam com um brasileiro no comando técnico da ASP. Mas o que os gringos não sabem é que os mesmos brasileiros também reclamam para o Renato Hickel sobre as mesmas coisas. Hoje, a ASP está tomando algumas atitudes, como multar os atletas que ofendem com palavras ou gestos os membros da comissão técnica ou organizadores do evento.

Além disso, criaram o “Shadow Judging”, em que um atleta é convidado para julgar uma bateria extra-oficialmente com o objetivo de comparar os resultados.
Alguém já julgou uma bateria? Eu já e muitas. É fácil, como aconteceu comigo, quando você tem um Rob Machado ou um Taylor Knox surfando na NSSA contra alguns surfistas medianos. É nota 9 e 10 para eles e pronto. Agora, quando você tem 48 de mesmo nível, a coisa muda.
Toda ação leva a uma reação e estas são algumas coisas que foram acumulando ao longo dos anos e geraram o sentimento que rola hoje. Todos sabem que há brasileiros no tour que possuem diferentes personalidades, fazendo com que isso gere diferentes reações.
Tem quem compre a briga na base da diplomacia, mas alguns não. Tudo isso explica, mas não justifica a atitude dos gringos. Claro, não vamos generalizar. Um exemplo de cara no tour, com excelente relacionamento com brasileiros, é o Taylor Knox.
Os brasileiros tentaram por muito tempo fazer do tour um ambiente, no mínimo, de cordialidade fora d’água, mas não é fácil. Alguns gringos, inclusive da mídia (Paul Sargent é um bom exemplo), são superamigos dos brasileiros e tentam mostrar ao outros surfistas que somos um povo maravilhoso e de uma hospitalidade e receptividade incomparáveis.
Não tenho dúvidas de que se o tratamento com os brasileiros melhorasse, nossos surfistas, ou pelo menos a maioria deles, passaria uma borracha em cima de tudo isso.
Acreditem, vamos ter nosso sonhado campeão mundial em breve. Eles estão 15 anos à nossa frente, mas já estamos incomodando muita gente aí fora.
Grande abraço a todos e boas ondas neste inverno.