
Stacy Peralta é skatista, dos bons, desses que fizeram história desde a primeira vez que subiu no carrinho.
Isso todo mundo já sabe, ou não ?
Em 2001, o maior festival de cinema independente do mundo laureou Peralta, um skatista, com o troféu de melhor diretor de documentários e ainda mordeu o prêmio especial do público!- com o filme Dogtown and Z Boys, fundamental, um filme de skatista pra skatista.
Corta para tres anos mais tarde.

Pela primeira vez o Sundance, ou melhor dizendo, Robert Redford, decide abrir o Festival com um documentário ao invés do tradicional filme de ficção, Riding Giants, a história do surfe em ondas grandes, dirigido pelo surfista Stacy Peralta.
Olhos arregalam-se!
Vejam bem: a noite mais esperada, imprensa acotovelando-se, estrelas com suas roupinhas estudadas para as fotos na Variety, aspirantes à espreita de reconhecimento instantâneo e o filme da premiere é um autêntico filme de surfe.
No ano passado pouquíssimos cinemas (lá fora)

se deram ao trabalho de exibir o filme de Dana Brown, filho de Bruce Brown ( um desavisado e desinformado jornalista da Folha disse que Dana Brown era “filha” – pano rápido!), sim, aquele mesmo, do Endless Summer.
Step into the Liquid teve resenhas entusiasmadíssimas na grande imprensa, inclusive uma, enorme, no New York Times, elevando o ego da surfistada ao topo de uma onda em Jaws.
Aqui no Rio de janeiro tivemos a sorte de assistir Step into the Liquid no Festival do cinema do Rio, dia 3 de Outubro de 2003 no Cinema Odeon, um senhor cinema, com o título ingrato de “Na onda certa”.
Muito bonito, com as tais câmeras espetaculares, ângulos inusitados, edição certinha e tal, mas faltou, na minha bondosa opinião, algo menos profundo e mais contundente. A mesma ladainha de como o Surfe é isso e aquilo, enche a paciência, parece que a gente precisa, todo tempo, da aprovação do “grande público”.
Filme desses, cinemão mesmo de Óliúdi, que não pode faltar na vida de um surfista é o Big Wednesday do John Millius, tambem surfeiro e roteirista do filme que tem a cena mais famosa que envolve o homem e sua prancha, Apocalipse Now, mas isso vale outro texto.
De volta para 2004 e o rompimento da cultura surfe dos cineminhas para os cinemões.
Ainda não é desta vez, estamos ainda muito bem acompanhados do cinema independente no Sundance, mas a notícia, em manchete, da compra do Riding Giants pela Sony pela bagatela de duas milhas de verdinhas, logo ao lado do novo filme do nosso patrício Walter Salles, que vendeu seu “Diários da motocicleta” (por 4 milhas para a Focus Films), um filme sobre a mítica viagem do revolucionário argentino Che Guevara com um amigo em 1953, alguns anos antes dele encarar a guerrilha cubana e tornar-se o ícone mais popular da rebeldia ocidental - fica o Mao do outro lado.
Riding Giants não agradou a todos e o crítico do saite Reuters, Kirk Honeycutt, achou-o pelo menos 15 minutos longo demais e um verdadeiro disparate o fato do filme apontar Laird Hamilton como o melhor surfista do mundo, logo ele, que aparece nos créditos como produtor, Kirk diz que foi ingenuidade, pois Laird ainda não se provou em campeonatos (sic).
Sam George, editor da revista Surfer e auto-proclamado guru, escreveu o roteiro.
A cidade de Park City, em Utah, sede do Sundance, aparentemente recebeu friamente Riding Giants.
Nenhum prêmio desta vez.
Bob Redford, justificou a escolha da abertura do Festival dizendo que “o filme é sobre pessoas que fazem o que fazem só pela emoção, como nós, os cineastas”.
O que não está dito nas resenhas é que a Quiksilver investiu uma nota preta nesse filme e já devem estar sorrindo de orelha a orelha com a venda!
Uma pequena história sobre a produção do filme sobresaí dentre todas divergentes opiniões.
Durante o tempo de pesquisa, quase dois anos, Peralta descobriu que Shaun Tomsom tinha filmado, em Super 8, o mais famoso e mitológico dia de ondas grandes de todos tempos, 4 de Dezembro de 1969, o dia que ficou conhecido pela façanha de Greg Noll, que surfando Makaha gigante desceu a maior onda que frequenta o imaginário coletivo das cabeças cheias de água salgada.
Shaun, então com 14 anos, registrou tudo, assombrado, naquele fatídico dia.
Peralta, analisando com toda atenção do mundo as imagens, percebeu que tinha
um corte brusco entre uma série fechando em Waimea e uma onda varrendo a
praia de MakahaSLigou imediatamente para o campeão mundial de 77 e perguntou
intrigado: Shaun, você filmou a onda do Greg Noll?
A resposta foi evasiva, Shaun nem disse que sim, nem que não, mas que “talvez tivesse filmado”.
Recordando a façanha de Noll, o maior bombeiro da época, Makaha quebrou sem medidas exatas naquele 4 de dezembro.de 1969.
Como Matt Warshaw observa no seu livro “Maverick’s, The story of big wave surfing (Chronicle Books 2000)”, essa ondulação sem precendentes continua sendo o patamar para quantificar qualquer ressaca ainda hoje em dia, da mesma maneira que a quebra da bolsa de 29 permanece para o mercado financeiro.
Noll, então com 32 anos, num momento de extrema coragem, virou sua onze pés
na maior onda jamais vista e desceu com o coração na mão.
A emoção foi tanta que o homem que tinha dropado ondas de 20, 25 pés por
toda sua vida resolveu que era hora de parar.
Mudou-se para o Alaska, viveu durante anos num “motor-home” e ficou 20 anos
trabalhando em pescaria comercial.
Nunca mais surfou.
Riding Giants recupera todas lendas e fábulas de ondas grandes e aproveita para contar a própria história do surfe. Mostra o pioneirismo de Noll e cia no North shore de Oahu, a descoberta e desabravamento de Maverick’s por Jeff Clark e as novas fronteiras de Laird Hamilton.
Aguardemos os bons ventos que trarão esse novo documentário para os cinemas,
com poucas esperanças que tenha exibição em circuito comercial aqui no Brasil, mas com certeza no Festival do Rio e SP.
Se querem saber, não vejo a hora de assistir o novo projeto do Jack MacCoy, “Blue Horizon”, onde o mestre faz uma leitura entre a carreira do free-surfer mais bem sucedido do mundo, David Rastivich, e Andy Irons, o melhor competidor.
Podemos esperar mais uma obra prima, segmentada, sem maiores aspirações de
mercadões, feita de surfista pra surfista – e só.
Diz o Sarge no seu saite que o filme vai quebrar com algumas barreiras que a
imprensa se auto-impôs para preservar a “boa imagem” dos surfeiros e que a
película se trata de vencedores e vencidos.
Mal posso esperar.