
Em rápida passagem pelo Hawaii, o lendário Ricardo Bocão foi escalado por Bruno Lemos para uma entrevista exclusiva.
Entre outros assuntos, Bocão contou o que viu nas etapas australianas do WQS, falou das atuações arrasadoras de Neco Padaratz e Kelly Slater, ondas grandes, e comentou até mesmo a situação política do Brasil.
Para ele, algumas pessoas que ocupam cargos públicos, como a governadora Rosinha e seu excelentíssimo marido, o ex-governador Garotinho, poderiam tentar a carreira política no “Afeganistão”.
Confira abaixo a integra da entrevista exclusiva concedida por Ricardo Bocão ao fotógrafo Bruno Lemos.
Você estava na Austrália filmando as etapas do WQS para o canal Sportv. Qual a sua opinião sobre os eventos?
Não deu pra ver o Snickers Australian Open, em Maroubra Beach, Sidney, mas pude prestigiar as etapas disputadas em Newcastle Beach e Margaret River, que sempre carregam uma carga enorme de prestígio e este ano não foi diferente.
Em Newcastle, além da tradição criada em virtude dos nomes que já venceram o evento, os organizadores sempre idealizam alguma história para valorizar a etapa. Nesta edição, ao invés da famosa bateria de exibição dos campeões mundiais, eles conseguiram ter o Kelly Slater e o Andy Irons competindo para valer.
Promoveram também uma tal de “batalha dos sexos”, colocando na mesma bateria o Andy, bicampeão mundial, e a Layne Beachley, seis vezes campeã do mundo.
Logicamente o confronto deu a maior mídia, mas quem se deu bem foi o Bernardo Pigmeu, que venceu a bateria e avançou junto com um australiano, eliminando o Andy e a Layne, última colocada. Já em Margaret River, o status que o campeonato carrega vem da qualidade das ondas e do astral “selvagem” do lugar, com possibilidades de ondas grandes e fortes quebrando em cima de bancadas de coral, etc.

O que achou das atuações de Kelly Slater e Neco Padaratz?
Ter o Kelly Slater competindo num WQS foi demais, principalmente porque ele surfou relaxado, sem pressão nenhuma. Ele estava focado em não fazer besteira e em não boiar, mas querendo quebrar todas as ondas que pegava. Ganhou várias notas acima de 9, puxando o nível de toda a etapa. Era o cara a ser batido, mas não deu chance para ninguém.
Em Margaret River, não só vi a vitória do Neco, como mais uma vez “vivi” a vitória dele nestes quase vinte anos cobrindo eventos, pois estava gravando e fazendo a cobertura para o Sportv. Numa hora estava com ele fechado no quadro do visor da minha câmera e em outra hora estava entrevistando o Neco quando saía da água.
Neco está numa fase exuberante e já poderia ter alcançado essa fase há uns três anos atrás, mas fico feliz de ver que ele superou os problemas de saúde e atravessa uma ótima fase pessoal. O resultado disso é que ele está quebrando, jogando muita água pra fora da onda com um surf power e ao mesmo tempo com uma linha moderna.
Depois da segunda nota boa do Neco na final, os australianos já estavam batendo palmas e se divertindo com a performance dele, mesmo com um dos ídolos locais, o australiano Jake Paterson, disputando o título na mesma bateria. No pódio, Neco fez um dos melhores discursos que eu já ouvi num evento tão importante como este.
Os brasileiros têm um bom recorde no WQS, inclusive alguns deles já foram campeões da divisão de acesso do circuito mundial. Na sua opinião, por que isto não acontece no WCT?
É uma pergunta difícil de ser respondida. Acho que é um pouquinho de cada coisa. O
WQS é uma arena mais rústica, mais agressiva. Pouco tempo de bateria e muita correria com quatro atletas disputando o pico. O tipo de agressividade que nos favorece, inclusive porque a nossa escola de competição é muito forte desde as categorias amadoras, passando por todos os estágios com grande quantidade de surfistas bons.
Já o WCT é uma arena mais refinada, onde outras “nuances” entram em jogo. Ainda não temos a “herança genética” dos americanos, havaianos e australianos. Eles já estão na terceira ou quarta geração de ícones e nós ainda estamos na primeira. Isto pesa de alguma maneira. Tem também a questão da mídia internacional, que ainda não nos valoriza e acaba influenciando negativamente em relação ao julgamento na hora de uma bateria muito apertada.
Outro aspecto importante é a questão das ondas boas, fortes e de linha, que passaram a ser maioria nas etapas do WCT. Já aprendemos a surfar essas ondas e estamos melhorando, mas todo o nosso aprendizado e a maior parte das nossas “horas de vôo” são em ondas de qualidade inferior a essas outras três regiões. Imagine você, com 21 anos, surfando desde os cinco ou oito anos de idade no arquipélago do Hawaii ou nos 180 picos clássicos da Austrália…

Mudando de assunto, como você observa o desempenho dos brasileiros nas ondas grandes, principalmente no Billabong XXL?
Tem uns cinco a oito brasileiros que estão no nível dos melhores do mundo em ondas gigantes. Acho até que nos últimos anos alguns desses brasileiros “puxaram a fila”, empurraram os limites e deram uma acelerada no processo. É importante deixar claro que, na minha opinião, tem um “freak” que está acima de todo mundo e tem sido assim desde que o tow in começou, em 92/93.
Eu morei um ano aqui no Hawaii justamente quando Laird Hamilton, Buzzy Kerbox e Darrick Doerner começaram a fazer tow in no North Shore usando aqueles botes infláveis (zodiacs) para puxar e o Laird sempre foi muito melhor que todos e continua a ser até hoje. Mas, tirando ele, os melhores brasileiros estão de igual para igual com os melhores do mundo.
Também é importante dizer que, sob todos os aspectos, é muito mais difícil para os brasileiros se destacarem no tow in, mas mesmo assim eles se destacam. Todas as ondas gigantes ficam longe do Brasil, os atletas ganham em real e correm atrás delas gastando em dólar. Mas esses caras têm uma fome enorme, são psicopatas apaixonados, em maior ou menor grau.

Nos anos 70, época do Pier de Ipanema e das primeiras trips para Saquarema, o que significava surfar ondas grandes para vocês daquela geração?
O desafio de surfar ondas grandes sempre esteve presente em qualquer época. Para constatar isso, basta lembrar do “Mar Raivoso”, aquele filme feito em Hollywood na época do pranchão (década de 60), que tinha o Greg Noll, Mickey Dora e o Mike Doyle de dublês. O fio condutor do filme era uma disputa entre dois ou três surfistas.
No ambiente da praia, era o dia de ondas grandes que iria mostrar quem era o bam-bam-bam do grupo. Lembro-me que, antes mesmo de começar a surfar, quando eu tinha 12 anos, já rolava o desafio e a adrenalina de entrar num marzão com pé de pato para surfar de peito em Copacabana com mais de três metros de onda.
Então, na época do Pier e das trips para Saquarema, mar grande tinha o mesmo significado que hoje em dia. Ele separava os surfistas: os que gostavam e os que não gostavam; os que gostavam e eram muito bons e os que gostavam e sobreviviam. Só não tinha a mídia em volta.
A concepção de “big waves” mudou muito com o surgimento do tow in?
Lógico que mudou. Ondas que eram consideradas impossíveis agora podem ser surfadas. Mas, ao mesmo tempo, com tanta gente fazendo tow in, acho que
as pessoas que gostam de ondas grandes e uma parte da mídia estão se
tocando da real dificuldade e necessidade de extremo talento para sobreviver e surfar bem ondas de 15, 20, 25 e até 30 pés na remada.
Existem outros caras como Ken Bradshaw, Titus Kinimaka, Dan Moore, entre outros, que devem ter mais ou menos a sua idade e parecem estar bem à vontade no tow in. Você tem planos ou vontade de surfar Jaws?
Essa questão da idade em ondas grandes é engraçada. Na minha opinião funciona ao contrário do que as pessoas imaginam. Se o cara era bom em ondas grandes com 25 anos, quando ele está com 40, 45, ele será melhor ainda nas maiores. É só manter a condição física em dia.
Em relação a surfar Jaws, eu adoraria. Não só pelo desafio, como pela adrenalina e prazer. Mas não tenho planos, pois é preciso investir tempo e dinheiro para surfar seguro lá e fazer bonito. E estou sem tempo para isso. É uma questão de opção. Optei por levar uma vida totalmente livre de responsabilidades até os 40 anos de idade. Por conta desse estilo de vida, não fiz um grande patrimônio e quando meu primeiro filho nasceu, resolvi priorizar o trabalho e ganhar dinheiro.
Estou casado, feliz, com dois filhos e num momento profissional muito importante. Um dos quatro programas de TV que faço com o Antonio Ricardo e uma ótima equipe está fazendo 10 anos em novembro agora. O Rip é o segundo programa mais antigo da TV por assinatura no Brasil. Estamos alcançando a maioridade na TV, completando 21 anos ininterruptos na televisão brasileira no dia 23 de abril de 2004.
Também estamos lançando, junto com a Hang Loose, o Pepê Cézar e um grupo fantástico de pessoas, o filme sobre a vida do Fábio Gouveia. Como ficou muito bom, pode abrir portas para qualquer um de nós no cinema nacional, o que, pelo menos para mim, é um sonho antigo. Eu teria que interromper tudo isso pelo menos uns três a quatro meses para formar uma dupla com algum psicopata responsável e treinar no Brasil, mas eu não tenho esse tempo agora. Mas, o meu dia vai chegar. É sempre bom para o espírito ter um objetivo importante a cumprir.
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O North Shore está muito diferente da primeira vez que você veio para cá?
Sim e Não. Pisei aqui pela primeira vez em dezembro de 1973 e, de uma maneira geral, parece que não mudou muita coisa em 30 anos. Até que conseguiram segurar, durante um período de 30 anos, o apetite dos empreendedores imobiliários. Quando me lembro da primeira temporada que morei aqui, entre 73 e 75, sinto aquela sensação de nostalgia e saudade. Vários quarteirões em frente a muitas praias e principalmente do outro lado da Kam Highway, eram mato puro.
Não havia pequenos condomínios, só casas antigas espalhadas. Os núcleos dos principais bairros, se é que podemos chamá-los assim, como Laniakea, Waimea, Rocky Point, Sunset Beach, Sunset Point e Velzyland, já existiam, mas ao longo dos anos, alguns quarteirões desses lugares perderam a vegetação para dar lugar a várias casas e alguns pequenos condomínios.
Resumindo, houve um desenvolvimento em volta desses lugares, mas como a arquitetura e o aspecto geral dessas construções seguiram os padrões das que já existiam e esse desenvolvimento levou uns 20 anos para acontecer, não foi aquele choque repentino de urbanização, o que incomoda muito menos. Agora, o grande impacto que na minha opinião mudou o astral do North Shore foi a construção das “freeways”, principalmente da H2, no início dos anos 80.
Lembro-me perfeitamente que, na década de 70, andando pela Kam Hwy, a “rua da praia”, única passagem do North Shore, a gente podia contar no relógio uns dois a três minutos entre um carro e outro passando na pista. Escutávamos o barulho do carro vindo lá de longe, passava e vrrumm…, o barulho ia sumindo lentamente até ficar o maior silêncio novamente.
Quem morava aqui ou trabalhava no Hotel Kuilima (hoje Turtle Bay), ou na pequena cidade de Haleiwa, vivia de “unemployment check” (cheque-desemprego) e “food stamps” (tickets de comida), além, é claro dos “bicos” nos vários estágios da fabricação de pranchas de surf. Ninguém morava aqui no North Shore e trabalhava em Honolulu ou outra cidade perto, pois sem “freeway” tudo era muito longe e demorado. O North Shore, ou Country Side – como é conhecido até hoje – era considerado uma verdadeira roça. É lógico que isso refletia no crowd, que era bem menor. Já existia o respeito em relação aos locais, por auto-consciência de uns ou por meio de intimidação dos xerifes da época.
Acho que os primeiros xerifes apareceram exatamente no início da década de 70, quando os australianos passaram um pouco dos limites considerados aceitáveis pela comunidade local do surf. Mas era muito tranquilo, pois ainda não existia essa hiper-valorização de Pipeline, Backdoor e Rocky Point por conta das fotos, pois não haviam patrocínios, não se surfava em Off The Wall e, principalmente, não existia nenhuma previsão de ondas e de swell chegando. Então, quem morava em Wahiawa, Ewa Beach ou Honolulu, pensava três vezes antes de arriscar uma viagem ao North Shore.

Você e o Antônio Ricardo foram, provavelmente, uns dos maiores responsáveis pela entrada do surf na televisão brasileira. Quais as principais dificuldades que vocês enfrentaram no início?
O que vou dizer não tem nem um pouco de prepotência, é a pura e simples realidade. Eu e o Antônio não fomos um dos maiores responsáveis pela entrada do surf na TV brasileira. Nós fomos os “únicos” responsáveis não só pelo surf, mas pelos outros principais esportes de ação, como o skate, bodyboard, windsurf, vôo livre…
Tenho que dizer isso dessa forma, porque o brasileiro, ou o ser humano em geral, tem memória curta. Foram uns doze a treze anos antes que qualquer iniciativa do gênero tivesse um mínimo de continuidade e consistência. Os programas Realce, Vibração, Ombak e Rip somaram mais de dois mil episódios inéditos, isso até 95/96. A única exceção que teve algum impacto foi o excelente “Grito da Rua”, que falava de skate, mas infelizmente não durou muito.
Tivemos muitas dificuldades na época (década de 80). A principal era não ter o grosso do mercado da surfwear nos apoiando e anunciando em nossos programas. As marcas de surf de São Paulo já estavam fortes na segunda metade da década de 80, mas acho que a TV assustava um pouco os empresários. Junto com isso, ainda contávamos com uma forte miopia, beirando a cegueira, na maioria das agências de publicidade do Rio e de São Paulo. O Realce dava 2, 3, às vezes 4 pontos de audiência, ficava em segundo lugar, à frente do SBT e da Bandeirantes, mas, mesmo assim, a maior parte dos “craques” de RTV das agências não dava a mínima para o programa.
Como o nosso acordo na época da TV aberta era dividir a publicidade ou qualquer outro tipo de comercialização com a emissora, tínhamos que vender publicidade (anúncios) para nos remunerar e poder pagar todas as contas. No início, também não tínhamos equipamento próprio. Tínhamos que alugar tudo, era uma conta animal todos os meses. Câmera grande para fazer as apresentações, entrevistas e reportagens, ilha de edição, finalização, tudo era alugado. Uma fortuna por semana, por mês. Não sei como conseguimos sobreviver e chegar até a TV por assinatura, em 94/95/96.
Você é um cara relativamente bem viajado, conhece várias culturas e países. O que acha do atual estado do Brasil?
Muito ruim. Não conseguimos produzir riquezas à altura das nossas necessidades, e o pouco que conseguimos é muito mal distribuído. Existe, em praticamente todas as esferas da administração federal, estadual e municipal, uma corrupção vergonhosa
que sangra o país muito mais do que qualquer pesquisa consegue detectar. O voto obrigatório faz a massa iletrada levar para o poder uma quantidade enorme de vereadores, deputados e senadores de baixíssimo nível.
Além destes políticos, uma boa parte das pessoas que ocupam os cargos de primeiro, segundo e terceiro escalão das administrações federais, estaduais e municipais, passa a maior parte do tempo imaginando, arquitetando e tomando conta das engrenagens de corrupção que beneficiam somente quem está em volta da sujeira. Como sobra pouco tempo para planejar ações inteligentes e o nível da maioria no governo não é lá essas coisas, o país vai apenas sobrevivendo. As nossas leis e a engrenagem da justiça brasileira também são muito ruins.
Estamos tomando conhecimento que temos muito mais juízes corruptos do que imaginávamos. Como pode o Jáder Barbalho estar solto e ainda com cacife político para dar apoio ao governo Lula ? E o Luís Estevão, Sérgio Naya, Eurico Miranda, todos pegos se lambuzando com as irregularidades mais descaradas?
Para mudar, precisamos de um choque de ética em todas as esferas dos governos e que sejam criados grupos de profissionais competentes, sem políticos, para cuidar das áreas estratégicas do governo. Um movimento nacional e espontâneo de cobrança sem trégua aos maus políticos, aos maus prefeitos e governadores, aos maus administradores e aos maus juízes. Cobrança por mais competência e lisura total!
Por último, uma sugestão. Pessoas públicas, como a governadora Rosinha e seu ?excelentíssimo? marido, o ex-governador Garotinho, poderiam tentar a carreira política no Afeganistão.

Como é o seu dia-a-dia no Rio de Janeiro? O que você gostaria mudar em seu estilo de vida?
Com a absurda falta de segurança no Rio, fiz um escritório em minha casa na Barra e tento fazer todos os meus trabalhos de lá, como a coluna para a revista Fluir, as propostas de patrocínio para os atletas que trabalham comigo e muito do meu envolvimento com os programas de TV.
Como moro em frente à praia, ao lado do Barramares, surfo sempre em frente de casa quando os fundos estão bons, ou então vou para a Prainha e Grumari, que ficam a 15, 20 minutos de carro. Jogo futebol todas as segundas e quartas à noite. Gosto de curtir um cinema e jantar fora com a minha mulher e amigos, além de alguns programas no fim de semana com meus dois filhos e a Luciana. Adoro o meu estilo de vida, mas não consigo afastar a vontade de levar a minha família para morar num lugar mais calmo e seguro durante um tempo.
Confira galeria de fotos do surfista Ricardo Bocão.
