Piu Pereira

Retorno às ilhas Mentawai

Há mais de 14 anos não realizava uma boat trip pelas ilhas Mentawai. Desta vez, recebi um convite de última hora do meu primo Neto. Ele disse que estava sobrando uma vaga no barco. Não pensei duas vezes; apenas confirmei as férias no trampo e cai para dentro da barca.

 

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Além de Neto e seus dois irmãos mais novos, Pitchú e Sushin, seguiram para a trip os amigos Felipe, Heitor e Bino. Como meu primo e o Felipe são médicos, a galera pôde ficar despreocupada com eventuais emergências.

 

As semanas que antecederam a viagem foram de pilha total. Natação, pilates e aproveitando ao máximo as quedas no fim de semana para chegar no rip. 

 

Analisando as previsões, alguns dias antes do embarque, tudo indicava que teríamos um bom swell já no primeiro dia e a direção parecia ser boa para Greenbush. Não tinha conhecido esse pico nas minhas outras duas viagens ao arquipélago, mas, desde o filme Young Guns 2, fiquei com essa onda na cabeça.

 

Ao embarcar no Tengirri, fomos apresentado ao capitão Luke, local do País de Gales que, apesar de estar há apenas três anos navegando pelas ilhas, mostrou bastante conhecimento dos ventos e opções de picos. 

 

A ideia inicial dele era nos levar a um pico mais tranquilo no primeiro dia, mas, como todos concordaram, optamos por checar primeiro Greenbush. Destino traçado e a garantia de estar no pico logo cedo deixaram todos empolgados.

 

A navegação foi tranquila durante a noite. Com o dia clareando e já próximos do destino, dava para ver e sentir as grandes ondulações. De longe avistamos apenas um barco no pico, mas poucos surfistas estavam na água. 

 

As séries estavam pesadas e a onda de Greenbush dobra quando atinge a bancada. Rolam duas seções de tubo seguidas e a galera precisava ficar ligada para não parar no reef.

 

Na minha primeira onda, fui muito confiante e acabei embicando no bottom, quando estava me posicionado para o tubo. A segunda também não foi boa, mas a terceira onda foi a minha melhor da trip. Dois barrels seguidos e ainda tendo que direcionar o bico pra cima umas duas ou três vezes. Fiquei amarradão com esta onda e no apetite para pegar mais. Todos do barco pegaram suas ondas, uns mais atirados, outros mais tímidos. 

 

A onda realmente intimidava e, ao longo do dia, a maré secou e ficou ainda mais rasa para a segunda sessão. . 

 

O dia já tinha rendido bastante adrenalina, e como o vento e a maré não estavam bons à tarde, resolvemos checar a tal onda mais tranquila. Hora de içar âncora. Me deram a missão de “diretor de prova” para definir os próximos picos com o capitão, mas sempre consultei a galera para ver se todos estavam de acordo.

 

No segundo dia, fomos à ilha de Rags, uma pequena ilha com esquerdas de um lado e direitas do outro. Já sabia do potencial da esquerda por ter surfado numa outra trip. Uma onda bem longa com algumas seções de tubos e manobras. Logo cedo caímos lá e foi muita diversão até o vento começar a atrapalhar um pouco. 

 

Colei no capitão e sugeri checarmos à direita. Estava um espelho, com água cristalina e as ondas quebrando perfeitas numa rasa bancada. Como o pessoal do barco que estava lá já tinha saído da água, demorou um pouco até encontrarmos o pico certo do drop. A onda é bem rápida e impressionante pela sua perfeição. Surfamos por quase duas horas e o vento virou de novo. Toca de volta pra esquerda.

 

O swell ainda estava consistente e decidimos voltar pra Greenbush no terceiro dia. Demos muita sorte de não ter nenhum barco pela manhã e pudemos surfar à vontade. Estava um pouco menor que o primeiro dia, mas as ondas da série vinham dobrando do mesmo jeito. Após muitos tubos, o vento entrou e prejudicou a formação. 

 

Retornamos para o sul e, como em Rags, o vento também não estava bom nem na esquerda e nem na direita, fomos à ilha ao lado. Thunders é uma esquerda bem longa e forte. Pegamos boas ondas, mas a quantidade de barcos foi aumentando à medida que o swell foi baixando e também por ser um dos picos mais constantes do arquipélago. Como a previsão indicava baixar mais ainda no dia seguinte, dormimos por ali mesmo.

 

Pensamos em checar logo cedo o outro lado de Thunders para fugir do crowd, mas o vento não estaria bom e acabamos caindo ali mesmo, só que numa seção um pouco mais atrás. 

 

Na primeira onda de Heitor, depois de ficar dentro de um tubo, o bico de sua prancha acabou atingindo sua cara, um pouco abaixo do olho, um corte fundo que chegou até o osso. Doutor Neto entrou em ação e já foram direto ao barco para o pronto atendimento. Depois da limpeza e da anestesia, hora de costurar. Foram dois pontos internos, mais sete externos. Foi só aí que me dei conta da importância de ter um médico a bordo nestas viagens. Vai saber até onde teríamos que viajar para este atendimento. E posso garantir que foi muito mais rápido e eficiente do que se estivesse em qualquer cidade grande. E o melhor é que ele já estava surfando no dia seguinte.

 

Na segunda parte da trip, ficamos na região de Lances Lefts e Hollow Trees. Altas ondas nos primeiros dias com a entrada de outro swell e destaque para a perfeição da bancada de Hollow Trees, com direitas bem tubulares. Com o mar baixando, acabamos surfando outras ondas por ali, como Cobra, Bintangs e até uma laje que não sabíamos o nome e nem se dava para surfar. 

 

A bordo do bote não dava para checar direito a onda, fomos remando para conferir de perto. Era uma direita que tinha um tubo logo no drop e antes dela fechar tinha que sair, pois a laje ficava toda para fora. Valeu a pilha do capitão de cairmos lá.

 

No fim, todos estavam muito felizes com o desfecho da viagem. O tratamento oferecido pela tripulação foi nota 10. O capitão Oscar era muito astral, o cozinheiro Donald mandava muito bem com seu cardápio variado, e os ajudantes Beni e Eni sempre à disposição. Os dez dias em Mentawai fizeram muito a cabeça, mas, uns 15 dias a mais, não seriam nada mau (risos).

Foto de capa Arquivo Pessoal

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