
Depois do ingresso de Raoni Monteiro e Eric Rebiere (brasileiro radicado na França) na elite do surfe ao fim de 2003 e o bom início de temporada de vários de nossos novos talentos na divisão de acesso este ano, surgiu a expectativa de que, enfim, a nata dos brasileiros com idades entre 20 e 25 anos conseguiria realizar a difícil tarefa de ingressar no ?Olimpo do surfe competitivo?.
Enquadram-se nessa geração diversos surfistas de alto calibre que, em comum, apresentam linhas de surfe absolutamente universais, desprovidas de vícios observáveis na grande porção dos atletas brasileiros das gerações anteriores, como, por exemplo, a utilização freqüente do fundo da prancha em detrimento das bordas e a falta de linha nas curvas.

Essas características regionais típicas do estilo de quem amadurece o surfe em beachbreaks, dificultam o desenvolvimento de uma carreira promissora no exterior.
A globalização do estilo, provavelmente promovida pela massificação dos filmes de surfe e pela divulgação do esporte na televisão e nas mídias que veiculam imagem, é um dos caracteres marcantes do surf moderno.
Nas décadas passadas podíamos observar a existência de diferentes escolas de surfe, como a australiana e a americana. Os australianos eram adeptos do ?power surfing?, enquanto os americanos apresentavam mais velocidade, leveza e ?truques? que os ozzies.
Esses estigmas foram desaparecendo e, hoje, é possível dizer que, ao menos entre os surfistas jovens, eles nem mais existem, pois em todo o globo há garotos que, com uma linha impecável, mesclam truques e manobras potentes.
Aliás, esse surfe híbrido é o que mais rende dividendos ao surfista nos critérios atuais de julgamento.
Fechadas as listas do WQS e do WCT de 2004, constata-se uma ligeira queda de representatividade dos surfistas brasileiros no circuito mundial da primeira divisão. Essa situação, embora preocupe, não me parece ser definitiva, dada a qualidade e o amadurecimento dos nossos jovens atletas – refiro-me aos surfistas na faixa 20 a 25 anos.
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Nosso país já revelou gerações muito expressivas, como, por exemplo, a do Mundial Amador de 1990, que contava, entre outros, com Peterson Rosa, Joca Júnior e Vitor Ribas.
Penso, porém, que a nata dos atletas de até 25 anos é o melhor grupo de surfistas já surgido no Brasil.
Muitos se consagraram cedo no surfe profissional, tanto por atuações nos campeonatos nacionais quanto em eventos no exterior.
Vale destacar a excelência de performances no Hawaii, onde vários deles vêm se consagrando.

Não são poucos os atletas dessa faixa etária com potencial para ingressar no World Championship Tour: Léo Neves, Bernardo Pigmeu, Renato Galvão, Pedro Henrique, Marcelo Trekinho, Odirlei Coutinho, Marco Polo, Danilo Grillo, Bruno Santos, Jihad Kodr, dentre outros ? nesse grupo não incluo Adriano de Souza, Pablo Paulino, Jean da Silva, Hizunome Bettêro, Jeferson Silva etc porque, apesar de eles já estarem colhendo frutos no surfe profissional, compõem uma geração ainda mais nova, que ainda não entrou definitivamente na maratona do WQS.
É possível que os mais céticos, entretanto, munidos dos números do WQS nos últimos anos, venham a questionar o talento desses garotos, na medida em que a Austrália sistematicamente conta com o ingresso de jovens profissionais no WCT (em relação à geração a que me refiro já estão na elite Mick Fanning, Darren O?Rafferty, Nathan Hedge, Tom Witaker, Dean Morrison, Troy Brooks, Luke Stedman, Bede Durbidge e Kirk Flintoff).
É verdade que em termos de revelação de talentos nenhum país se assemelha à Austrália, uma fábrica de campeões. No entanto, é preciso ressaltar a situação absolutamente peculiar dos ozzies.
À exceção da terra de Mark Richards e Occy, todos os demais países com representatividade no WCT têm enfrentado adversidades para renovar os seus valores na elite e, em geral, essa dificuldade decorre da falta de bom material humano.
Depois de emplacar Greg Emslie e Paul Canning no fim dos anos 90, a África do Sul amargou um breve período de estagnação, mas parece ter trabalhado bem nas categorias de base e em 2005 conta com um grande surfista na primeira divisão: Travis Loggie.
Na cola dele, existe pelo menos uma meia dúzia de atletas bastante competitivos disputando a divisão de acesso: David Weare, Warwick Wright, Ricky Basnett, Royden Bryson etc.
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Nas décadas passadas os EUA disputaram com a Austrália a supremacia do surfe em termos mundiais. Entretanto, como sinaliza o declínio dos times americanos nos jogos da ISA e no mundial Pro Junior, descuidaram do esporte amador e isso teve conseqüência no surfe profissional.
Depois de alguns anos sem apresentar nenhuma novidade na elite, na temporada que vem os yankes contam com o novato Tim Reyes.
O Hawaii, após o ingresso de Andy Irons, também demorou a emplacar outro surfista no WCT e o jejum de renovação só foi quebrado em 2003 com a classificação de Bruce Irons.

Em 2005 será a vez de Fred Patachia operar alguma renovação no time havaiano da primeira divisão. Cabe ainda destacar que o Hawaii, a exemplo de Brasil e Austrália, está formando uma excepcional novíssima geração, que em breve buscará estar representada na elite: Kekoa Bacalso, TJ Barron, Dustin Cuizon, Sean Moody…
Também salta aos olhos a dificuldade que os países sem representação no WCT têm para emplacar seus jovens atletas na elite. Só para citar um exemplo, há anos o talentoso português Tiago Pires busca sem sucesso uma vaga entre os melhores.
Diferentemente do que ocorre em outros países, onde a falta de renovação costuma estar vinculada à inexistência de surfistas competitivos, o Brasil não carece de talentos emergentes.
O que reduz significativamente a possibilidade de renovação do grupo de brasileiros no WCT é a dificuldade econômica.
Enquanto sul-africanos, havaianos, europeus e australianos têm a oportunidade de correr o circuito WQS na íntegra, nossos novos profissionais, justamente por carência financeira, precisam escolher as etapas do circuito, o que infelizmente torna mais difícil a classificação para a primeira divisão.
Afinal, quem compete menos provas evidentemente tem menos chances matemáticas. Chega a ser uma disputa desigual.
Vamos então torcer para o talento dessa nova safra superar as dificuldades econômicas para, já em 2006, Raoni Monteiro ter a companhia de alguns estreantes no WCT.