O guerreiro baiano Danilo Couto durante a missão de pegar as bombas de Jaws na remada. Foto: Tronolone.com.

A temporada havaiana está quase acabando e o maior swell do inverno no Hemisfério Norte chegou bem atrasado, mas com pressão e tamanho suficientes para produzir histórias e episódios que certamente serão lembrados por muito tempo.

 

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Uma dessas histórias envolveu três baianos fissurados por ondas grandes e a temida bancada de Jaws, na ilha de Maui.

 

No último dia 13, Danilo Couto e outros brasileiros surfaram ondas incríveis no North Shore de Oahu (conforme noticiado em várias matérias no Waves).

 

Yuri Soledade dropa Jaws no peito, ou melhor, no braço e na raça. Foto: Zep.

Enquanto o dia seguinte já foi bem menor em Oahu e não proporcionou nada de especial, em Maui, mais ao Sul, o swell ainda bombaria e poderia render uma boa session em Jaws, normalmente um palco de tow-in nos maiores dias.

 

No entanto, Couto tinha outros planos em mente: ele queria surfar Jaws na remada, sem auxílio do jet-ski para entrar na onda.

 

Depois de fazer contato com os conterrâneos Yuri Soledade e Marcio Freire, residentes de Maui, Danilo partiu para uma verdadeira missão.

 

Confira a íntegra do relato do atleta, em forma de diário de bordo, sobre cada momento dessa experiência que entra para a história de Jaws e do surf brasileiro.

 

13 de março

 

19:49 hs: “O dia foi intenso. De flat pela manhã, o mar subiu para 25 pés no fim de tarde. Surfei Pipeline no meio do dia, depois fiz tow-in de tarde em outside Backyards. Tinha altas bombas, Waimea quebrou, outside Log Cabins também, foi um daqueles dias que você quer estar em três lugares ao mesmo tempo. Muitas histórias e lendas ficarão para sempre. Como o swell entrou depois das 17 horas, ficou a adrenalina do surf misturada com a fissura de um pegar mais umas morras, de preferência na remada.”

 

21:03 hs: “Da minha casa, no alto de Pupukea, ouço o barulho das ondas durante o ápice do swell, vindo do vale de Waimea. Checo as bóias e vejo que no dia seguinte o swell abaixaria em Oahu. Porém, nas ilhas mais ou Sul, como Maui, o swell chega algumas horas depois. Presumi que de manhã Jaws teria algumas bombas. Como o swell entrou perfeito, com vento terral, era chegada a hora da tão esperada sessão de remada em Jaws, com um swell sólido e condições ideais.”

 

22:09 hs: “Acerto com Yuri para chegar no primeiro vôo, que sai de Oahu às 5:15 horas e chega em Maui antes das 6. Ele gostou da idéia e acrescentou que de manha cedo poderia ter ainda umas bombas para tow-in. Ligo pro Márcio para formar o time. Vou para cama, chove com tempo fechado. Coloco o despertador para 3:30 horas. Nova missão na área.”

 

14 de março

 

3:12 hs: “Acordo, meio na dúvida, principalmente pela dificuldade em sair de baixo do cobertor e pular da cama. Faz frio, minha mulher e filha me aquecem. Mas a missão é maior. Pego a mochila, jogo umas bermudas, parafina, cordinha, a gunzeira no topo do carro, e vazo no calar da madrugada e na fissura da remada.”

 

6:01 hs: “No aeroporto de Maui vejo o havaiano Myles Padaca, que veio no mesmo vôo. A diferença é que ele tinha uma capa pequena, indicando que trazia pranchas de tow-in. Minha gunzeira monoquilha veio nua, crua e sem capa. Do lado de fora sinto o terral soprando fraquinho. Ligo pro Yuri e ele já está a caminho. Márcio e Patrick também estão a caminho de Maliko, porto de onde saem os jets. De lá o time se dividiria em dois.”

 

7:33 hs: “Márcio e eu chegamos no cliff de Jaws com duas gunzeiras, uma 10’6 e uma
10’2. O olhar perplexo de todos é clássico e significa: ?quem são e o que pretendem esses malucos??. O visual é perfeito. Poucos jets, as esquerdas lindas e perfeitas pediam para serem surfadas. Enquanto Freire limpava a parafina da prancha, que não ia para água havia tempos, eu analisava o tempo entre as séries e as condições em geral. Descemos a ribanceira para entrar por entre as pedras. A entrada é sinistra, porém esperamos uma calmaria e logo estamos remando no canal.”

 

7:59 hs: “Começa a session. Eu e Márcio remamos e Yuri no jet faz a segurança. O crowd de tow-in não botou fé no que via. Dropávamos as da série por trás deles. Lá do pico o drop era demais, um paredão azul e um sentimento que só rola na remada mesmo, não tem tow-in que supere. Às vezes usávamos a ondinha que o jet das duplas fazia para entrar na onda. As duplas não pararam de fazer o tow, mas quando viam que íamos, eles aliviavam e gritavam comemorando a conquista das esquerdas no braço.”

 

9:48 hs: “Passo para o jet e Yuri vai para água. Começa a ação. Neste momento Márcio Freire vem numa bomba e não passa a seção. Resgate. Prancha enorme, cordinha maior ainda, show de horror. Cordinha quebrada, prancha nas pedras, dois caldinhos e tudo bem. Yuri fica sozinho no outside, enquanto Márcio descansa no jet. O vento começa a apertar, dificultando mas não impossibilitando o drop. Márcio pega a prancha reserva, uma 10 pés do Jeff Clark, e se junta a Yuri mais uma vez. Outro resgate de Márcio, dessa vez ele segura no sled, a prancha sendo arrastada, a cordinha esticando, até que ele tem que soltar o sled, senão o braço ia sair fora. Volto e o pego antes da próxima onda.”

 

10:10 hs: “Vem a série. Yuri se joga na primeira, a onda arma o paredão e fecha na frente dele. Resgate. Márcio vem na de trás, mesma situação. Pego Yuri e vejo que Márcio conseguiu voltar para o canal no limite, beirando as pedras. Mas a cordinha de Yuri partiu também, ou seja, outra prancha nas pedras. Deixo Yuri nas pedras. O vento aperta e uma tempestade se aproxima. Vou no outside pegar Márcio e também o deixo nas pedras. Enquanto eles voltavam ribanceira acima com as pranchas, o crowd delirava com aquela cena atípica lá de cima, de camarote. Vou embora de jet para encontrá-los na rampa.”

 

11:00 hs: “A tempestade chega com tudo. Trovoadas, raios, chuva. Pura manifestação dos Deuses havaianos. A bênção vinha dos céus lavando a alma dos guerreiros. Surf na remada, do jeito que os ancestrais inventaram, finalizando com chave-de-ouro o maior e mais especial swell da temporada.”

 

 

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