
Aconteceu de novo.
Confesso, fraquejei mais uma vez e cedi aos meus mais violentos instintos animais.
Fui surfar bem longe, nem tão longe, atrás de uma memória insistente, dum tempo sem documento nem testemunha.
Dessa vez não iria só, levava junto meu coração que tinha deixado pra trás na outra oportunidade e agora tinha a chance de viver tudo de novo, acompanhado.
Verdade seja dita, surfista tem essa mania irrecuperável de resolver de uma hora pra outra se endividar até o pescoço, desestabilizar uma rotina tediosa e quase sempre produtiva, escolhendo as piores datas – em cima da hora! – e sacudindo a vida como se a vida sempre precisasse desses solavancos.
A viagem começa na rodoviária Novo Rio, desde que todos os vôos saem de São Paulo e o malandro aqui não dispõe do erário para ponte-aérea, tempo de sobra pra ler e tentar dormir enquanto o amigo da poltrona da frente ronca?
Se o companheiro procura ansiosamente por uma notícia, informação útil, resultado de campeonato ou coisa que o valha, pare imediatamente: essa coluna não atende suas exigências.
Sou um dos poucos sujeitos que ganham pouco mas escrevem o que querem.
O tema aqui tanto pode ser o título do Andy Irons quanto um show do Mundo Livre no Teatro Rival – sem conclusão óbvia.
Por isso o título ‘colunista’, com minúscula, mil perdões, ainda que preferisse cronista, ao invés de ‘jornalista’, também com caixa baixa, pois em caixa alta sobram poucos.
A rodoviária do Tietê não mudou nada, 5:40 da matina e logo sai o primeiro ônibus para Guarulhos, nunca seis pranchas pesaram tanto.
Perdi a conta de quantas vezes cheguei nessa mesma rodoviária, com tantos sonhos, quebrando a viagem de 18 horas pra Floripa ou indo pra Curitiba parando em São Paulo porque economizava 4 Reais e poderia, na parada, esticar as pernas, comprar jornal e tomar um belo café da manhã.
Na época de amador, eram umas duas dessas por mês por quase dez meses.
Circuito 30 Pés, circuito Catarinense, Mormaii Pro, Abrasp e Gaúcho.
Passou?
Mais 12 horas de espera e estarei mais longe do que jamais estive de todas essas memórias.
Tocando no CD – Paulinho da Viola diz suave: “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o Mar?”
Mais seis horas de ônibus em terra estranha, mais três e meia de van, mais 25 minutos de bote e pronto! Passou tão rápido que nem percebi?
Foram três dias viajando e descansando.

Já experimentei as luxúrias de uma viagem de barco 5 estrelas quando estive no Timor em 2001.
O Mahalo II foi a melhor coisa que inventaram para quem quer surfar ondas perfeitas (e cá entre nós, tem a mufunfa pra queimar?).
Um tremendo catamarã de 64 pés, com todas comodidades dos melhores hotéis: ar-refrigerado, TV, DVD, micro-ondas, cozinha espetacular 24 horas, dois botes à disposição, cerveja gelada.
Pena que fui pra trabalhar e as melhores ondas eu vi do monitor da câmera digital, mas deu pro gasto, só assim conheci a Indonésia.
Isso foi em 2001, estamos agora em 2003, caminhando pra 2004, dia 26 de Dezembro?
Estou de volta pra minha ilhazinha, um pontinho no mapa, como sempre descrevem, os cheiros e as cores são as mesmas. Curioso, como o passar do tempo (e o tempo, por mais incrível que possa parecer, vem pra todo mundo, inclusive pro internauta que se intitula Weirdest, que desconfio ser o Fabinho, colega de saite e colunista, pelo jeito de escrever, jovial e rebuscado.), mas dizia como é surpreendente esse redescobrir de cheiros e cores e me dispersei?
Certa vez escrevi alguma coisa que falava sobre a notória irresponsabilidade do surfista.
Perdão.
Do surfista, não. De determinados surfistas?
Talvez parte da essência dum grupo de surfistas que me orgulho pertencer tem na irresponsabilidade uma das suas características mais contundentes.
Me aponte um camarada que se diz surfista e que nunca deixou de comparecer numa reunião, atrasou-se para aula, deixou um parente sentado mais do que deveria, ou perdeu um grande almoço de dia das mães (maio é época de onda boa, pelamordedeus!) por ficar esperando uma ‘última onda’.
Perca seu tempo explicando que a maré estava baixa e o vento tinha parado, condições perfeitas, ondulação de sul, água quente, pouca gente? tente explicar para seu patrão, professor, irmã ou avó que quando tudo isso acontece junto, algo acontece no seu metabolismo e você não consegue de maneira nenhuma conter-se, perde totalmente o controle do seu tempo.
“Só mais uma ondinha” é um mantra da irresponsabilidade.
O Verão me aborrece um bocado, por isso tento, quando dá, fugir daqui. Durante a viagem procuro recarregar as baterias de felicidade para poder suportar toda merda que vem pela frente sem tantos levantar de sombrancelhas.
Da fuga não resta muita coisa senão lembranças e a volta, isso sim, é o que interessa.
Disse que cedi aos meus impulsos mais selvagens ao deixar todos à mesa da ceia de ano novo mais uma vez, confesso, sou fraco por praias desertas, falta de dinheiro e uma boa companhia.
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Lista de primeiros-socorros indispensáveis numa viagem
Livros (leves e finos para não ocupar muito espaço nem pesar muito, porém com conseqüências sérias?)
– Cada Homem é uma Raça – Mia Couto (Nova Fronteira 1998)
– Confissões de um Ignorante – Millôr Fernandes (Paz e terra 1977)
– O Diário de Antônio Maria – Apresentação por Joaquim Ferreira dos Santos (Civilização Brasileira 2002)
CDs (de tudo um pouco, do café ao jantar, passando pelo pôr do sol atrás das árvores)
– Bebadosamba – Paulinho da Viola
– Sambajazz – Meirelles e os Copa 5
– Goodbye Jumbo – World Party
– Miúcha e Tom Jobim
– Tira Poeira
– P.H. Test/two – Le Peuple de L’Herbe
– Do Cócix ao Pescoço – Elza Soares
– Amor Ordem e Progresso – Jards Macalé
– Balançando – Milton Banana Trio
– Copenhagen – Galaxy 500
– The Three Eps – The Beta Band