Soul Surf

Reggae on The River

Cartaz do Reggae on The River. Foto: Reprodução.

Hawaii 33 anos depois ? mas, primeiro, reagge na Califórnia 

 

Voltar ao Hawaii depois de passar por aqui pela primeira vez em 1975 imprimiu uma nova e complexa sensação nesse corpinho viajado.

 

Surreal pode ser a palavra para tentar definí-la. Mas, na verdade, nem este, nem nenhum outro sentimento contêm tradução. Portanto, não perdi mais tempo buscando novas palavras como estou fazendo agora.

 

O fato é que a mágica das ilhas, incensada pelo cheiro do ?Lei? (colar havaiano de flores trazido pela minha amiga Helena já na chegada ao aeroporto), encampou meu coração logo de cara.

 

O casal Helena e Dodô ? um dos melhores surfistas paulistas de todos os tempos, morando e surfando há 17 anos em Oahu – estão entre os meus melhores amigos por mais de 35 anos.

 

Visitá-los foi um dos principais motivos dessa pequena epopéia que começou em Nova Iorque, passou por uma estada num mosteiro zen perto de São Francisco e por um acampamento numa reserva de sequóias e redwoods (árvores gigantes) a 300 quilômetros ao norte da ponte Golden Gate.

 

Ao lado do rio que corta a floresta rola o maior festival de reggae dos Estados Unidos, o agora famoso ?Reggae on the River? ou ?Reggae Rising?, como querem os novos produtores – mudança mais que semântica, política, mas que ainda não pegou nas mentes fortemente ?cannabizadas? dos 10 mil fiéis presentes. Os herdeiros de Bob Marley faziam jus ao mestre.

 

O isolado distrito de Humbold County, no meio da chamada ?Lost Coast? – a porção mais desabitada do continente norte-americano – recebe nessa época e é invadido pelo que resta da pureza dos sobreviventes de Woodstock e seus adeptos. Ou se quisermos ir ainda mais fundo, dos portadores legítimos de um dos poucos momentos na história da humanidade em que as pessoas concordavam e praticavam algo extremamente positivo ao mesmo tempo: paz e amor.

 

A Atenas de Péricles, do século V A.C., é uma comparação medíocre. Mas, se quisermos ser leves na crítica e complacentes com esse escriba, pertinente.

 

Não vou dizer que os atenienses fumavam maconha ou levavam exemplares da ?Erva do Diabo?, de Carlos Castañeda por debaixo das túnicas. Mas com certeza, ninguém era crucificado no Monte Olimpo por dizer o que pensava.

 

E as artes e ciências floresceram como nunca. Aí veio Alexandre, o Grande, da Macedônia, tipo um jogador de rúgbi desgovernado, e acabou com o que considerava ?viadagem?. Neanderthal style. Mas aí já é outra história.

 

Defendo que a filosofia dos anos 1960, logo em seguida, tornou-se um deturpado sinônimo de ingenuidade. O sistema quis impingir o rótulo de ?alienação? ao movimento, a fim de descartá-lo. Em troca do quê? O que foi colocado no lugar foi violência, sacanagem, falta de fé na intrínseca bondade humana (sim, sou um saudosista ingênuo), materialismo a toda velocidade e sarcasmo. Culminando nos Bushs nossos de cada onze de setembro.

 

O sistema engoliu os pés descalços e despetalou as flores de dentro dos canos das espingardas. Algo daquele espírito, no entanto, sobrevive ao norte da Califórnia ? e não são só nuvens de fumaça. As pessoas vivem isso, milhares delas, talvez milhões.

 

O interessante é que as gerações posteriores ainda curtem a ressaca daqueles anos. Sentem saudade do sonho que não tiveram, só ouviram falar, entre acordes de Hendrix e solos de bateria do Deep Purple.

 

O aguçado instinto juvenil sente o cheiro da autenticidade de longe. E o fedor da hipocrisia. Sim, a ironia é que sentem também a nostalgia de algo que não viveram. Mas deixa para lá. Ou pra cá.

 

Um arco-íris de bandas decorou o céu da California, com seus sons puxados ora para o alho forte do reggae puro, ora para o pepperoni temperado de um mix de tendências. Julian Marley, um dos “347” filhos do ativo Bob, mandou bem, honrando o DNA cannabis criativo.

 

Don Carlos foi um dos mais aplaudidos, com um mixto de reggae tradicional e improvisações tão espalhafatosas quanto certeiras. A voz de Tanya Stevens ecoou na Montanhas Rochosas, milhares de milhas dali, com a autoridade de uma diva não-só bela na figura, mas exímia na emissão vocal e na presença magnética. UB 40 deu o tom nostálgico de um reggae que quase não existe mais.

 

A maioria do público, surpreendentemente, apesar da idade, conhecia todas as canções e vi nego cantando e nega assobiando as melodias no meio da multidão de pé, balançando os dreads e roçando as bundas cheias de uma ginga caribenha/cosmopolita.

 

Gentleman, que eu não conhecia, executou um dos melhores shows do Festival, com uma qualidade inesperada nos riffs espertos e na coesão da banda, melodiosa, na sua fôrça inesperada. Medicine Drum, Blue King Brown, Natural Vibrations, Jade Steel, Black Judah, mostraram que mereciam, a qualquer hora e lugar, o palco principal. Foi bom, demais até. Fiquei com saudades antes de acabar.

 

O Reggae on The River é a cara do movimento hippie. O som, o visual, a atitude e o aroma. Onde mais você  encontra crianças loiras, negras, asiáticas e até indígenas, descalças, com a cara suja, cheias de dreadlocks e, se bobear, alguma tatuagem de golfinho nos pés ou de asas de anjo nas costas?

 

Confira a parte II desta coluna em breve

 

Sidão Tenucci, surfista, escritor e diretor de marketing da OP – Ocean Pacific, autor do livro “O Surfista Peregrino”. Pode ser encontrado na Livraria Cultura e na Livraria da Vila.

 

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