
“Tudo começou por causa do surf que me levou para o Hawaii. Comecei a colecionar reggae e acabei criando o Zion Train. A partir de então resolvi viver… reggae”. Assim pode ser definida a trajetória do surfista-músico André Felipe Derizans, atualmente em São Francisco, Califórnia, onde faz neste domingo um tributo a Bob Marley.
Apenas um olhar de relance na história do reggae no Rio de Janeiro e Hawaii é suficiente para achar fatos que mostram a importância de Zion Train – um programa de radio que passou pela Imprensa FM (RJ), Fluminense FM (RJ), Napa Valley FM (Califórnia, EUA), Atlântida FM (Florianópolis) e Radio Free Hawaii (Hawaii – EUA).
Trata-se de um programa que com certeza contribuiu bastante para o estabelecimento do reggae como parte da cultura desses lugares paradisíacos no período entre 1989 e 1994.
André Derizans, produtor e apresentador do Zion Train, começou a partir de 1994 a traçar uma nova trajetória na sua carreira musical quando gravou com Pato Banton a música “Tudo de Bom”, um dos maiores sucessos do reggae no Brasil e passaporte de Derizans para o cenário do reggae mundial levando a dupla André e Pato a fazer centenas de shows pelo Brasil, Europa e EUA.
Em 1996, André Derizans & Zion Band lançam seu primeiro CD “Reggae Trem”, álbum que conta com participações especialíssimas, superestrelas do reggae como Yellowman, Black Uhuru, The Wailers e Pato Banton.
O lançamento no Brasil do clip de musica “Ipanema” foi exibido na MTV e Multishow e André Derizans passou a freqüentar as melhores casas noturnas das capitais e interior, viajando o Brasil com a Zion Band.
Em 1999, o surfista colecionador de reggae volta ao Hawaii e lança seu primeiro CD, conquistando o coração da galera havaiana definitivamente com as músicas “Tudo de Bom”, “Play the Music” e “Save Hawaiian Land”, quando assina contrato de cinco anos com a tradicional gravadora Hula Records.
Assim, Derizans abriu caminho para produzir trilhas-sonoras de vários programas de surf para a TV havaiana e filmes lançados até no Japão. É comum ouvir músicas dele na praia durante campeonatos de surf ou estourando os graves dos alto-falantes de um carro passando.
Não por acaso o destino uniu André Derizans, Gabriel OP, Lazão, Bino e Pato Banton em uma série de quatro shows nas ilhas de Maui e Oahu para mais de cinco mil locais.
Agora, Derizans lança “Peace Warriors”, rico em mistura e fusões de ritmos com base roots, apresentando um leque de alternativas de reggae. Como de costume, André aparece com ilustres convidados, como velhos amigos de Lazão e Bino, do Cidade Negra – que foram ao Hawaii para as gravações – bem como o ídolo Pato Banton.
Este novo trabalho tem lançamento previsto em dezembro simultaneamente no Brasil e nos EUA. Um dos destaques é a faixa “Roots Rock Reggae”, de Bob Marley, produzida em conjunto com Marty Dread, a partir de gravações originais cedidas pela família Marley.
Nesta semana, a Zion Band está em São Francisco, Califórnia, onde hoje faz um tributo a Bob Marley. No final do ano, Derizans faz um show na festa de abertura da Tríplice Coroa Havaiana.
Acompanhe nas próximas páginas entrevista exclusiva de Derizans concedida por email ao nosso correspondente Bruno Lemos.
Clique aqui para ver a galeria de fotos de André Derizans.
##

Quais os melhores momentos na sua carreira esportiva?
No surf foi ter participado num campeonato no Quebra-Mar. Acho que foi o primeiro campeonato da OSP (Organização dos Surfistas Profissionais do Rio de Janeiro). Cheguei a ficar entre os oito finalistas. Mas o melhor de tudo é que tinha altas ondas, um Quebra-Mar clássico da vida. Quem tava lá se lembra…
Depois, em 88, aqui no Hawaii participei do circuito havaiano (HPAC). Cheguei até às oitavas-de-finais. Nada demais, mas foi legal para mim. Eu nunca fui um grande competidor, mas sempre gostei muito do surf. Na época, eu tinha patrocínio da K & K, e o Klecio e o Kleber não faziam questão de que eu competisse.
Então, o free-surf era algo bem confortável para mim. Às vezes, entrava num campeonato ou outro, principalmente em Ipanema ou no Arpoador, o quintal de casa. Eu sempre surfava com Royler e com o Rickson Gracie. Eles sempre me levavam para a Prainha, Recreio, Meio da Barra. Inclusive pegamos um Grumari inacreditável .
E eles sempre me chamavam pra treinar jiu-jitsu. Mas como eu estava totalmente envolvido com o surf, nunca aparecia no tatame. Já joguei basquete pelo Flamengo. Mas, depois de começar a surfar, parei com tudo.
Só comecei a praticar jiu- jitsu quando tinha 20 anos. Cheguei também a competir até conseguir alguns títulos como campeão brasileiro na faixa roxa em 95, vice-campeão estadual em 97 e participei do primeiro campeonato de jiu-jitsu no Hawaii em 92, quando eu e você fizemos a final numa luta muito polemica (risos).
Você acha que o surf e o Hawaii têm algum tipo de influência no seu estilo de música?
Com certeza. As atividades e o ambiente em que vivo sempre me influenciaram e fazem parte de um estilo de vida que se reflete em tudo que faço. Mas, ao mesmo tempo por um outro lado considero mais forte a influência do meu ser como pessoa, independente do que faço ou do lugar onde estou.
Essa influência do meu ser vem totalmente do meu lado espiritual, onde eu encontro inspiração para compor minhas músicas e tentar transmitir uma mensagem positiva. E acho que quando faço isso ao vivo, em shows por exemplo, é que sinto uma grande realização, vendo os corpos dançando e os olhos brilhando.
Como você descreve o seu som?
Gosto muito de misturar e experimentar combinações de ritmos, com grande influência do reggae, mas com pitadas de outros estilos que sempre pintam na hora, principalmente música popular brasileira. Adoro Cidade Negra, Bob Marley, Twinkle Brothers e música havaiana entre outras.
##

Você pratica surf e jiu-jitsu, que mal ou bem é considerado um esporte violento para algumas pessoas. Teoricamente, é uma atividade bem distante da música. Como você vê e descreve seu envolvimento com essas situações extremas? Existe alguma relação entre elas?
A prática do jiu-jitsu é milenar. É um privilégio daqueles que desfrutam desse estilo de vida, conseqüência da conquista de três objetivos: disciplina, concentração e atividade física.
Tudo isso ajuda o auto-conhecimento de cada indivíduo, preparando para qualquer situação. Na minha vida, poderia dizer que o jiu-jitsu é o principal alicerce. Acho que o instinto de sobrevivência dentro do tatame serve como uma inspiração também para sobreviver no meu dia-a-dia.
Acho que existem alguns elos entre o surf, música e jiu-jitsu sim. No surf, por exemplo, é mais um encontro entre o seu “eu” e a natureza, lidando com o inesperado, às vezes o imprevisível, pois cada onda é diferente. Você precisa estar em harmonia e pronto para fazer sua “assinatura” na onda.
Esse convívio com o oceano proporciona uma relação com a natureza que sem dúvida é projetada na minha música. Os ritmos estão sempre presentes em nossas vidas, desde o início no ventre de nossas mães, onde aprendemos a gostar das batidas do coração dela.
O ritmo está nas marés, na lua, nas ondas, no tatame. O ritmo é a engrenagem da vida. É difícil falar sobre o relacionamento das três atividades – surf, jiu-jitsu e música. Estou escrevendo uma música em inglês intitulada “Soldado da Paz”, que vai passar um pouco de tudo isso.
Muitas faixas do seu repertório musical têm participação especial de vários artistas. Quais nomes destaca e como você faz para harmonizar os ingredientes de sua atividade musical?
Cidade Negra, Black Uhuru, Pato Banton, The Wailers foram alguns dos artistas com os quais já tive oportunidade de trabalhar. Pra te falar a verdade, nunca planejei nada, nunca nem imaginei que um dia os conheceria. Imagina, gravar músicas com eles. Mas acho que tudo começou na época em que eu era DJ de rádio.
Eu fazia um programa de reggae na radio Fluminense (de Niterói), chamado “Zion Train”. Então, eu sempre cobria shows internacionais e acabava conhecendo os caras. Pedia para gravarem umas vinhetas ou uma entrevista para o programa. E acabava que com uns e outros me entendia melhor.
O Yellow Man, por exemplo. Fomos juntos para uma entrevista na rádio Cidade e saímos de lá direto para um estúdio, onde gravamos uma música. O Pato Banton, conheci aqui no Hawaii. Eu estava fazendo uma cobertura para a rádio Free Hawaii, onde o conheci e agitei a ida dele ao Brasil, onde o acompanhei como intérprete.
No meio dessa história, fizemos a musica “Tudo de Bom”, era um tema que ele queria fazer pois todo mundo falava isso para ele. Também acho que foi uma das primeiras palavras que ele aprendeu em português.
Então, gravamos a música que acabou ficando show, o maior sucesso. Foi aí que praticamente iniciei minha carreira. Inclusive as pessoas ouviam a música e me perguntavam sobre minhas outras composições, perguntavam sobre a minha carreira e eu ficava até sem graça, pois não tinha carreira, eu não tinha outra música (risos). Só aquela mesmo. O pessoal nem acreditava, falavam que eu estava escondendo o jogo.
##

Você grava em português e em inglês. Qual seu público-alvo e onde você se considera mais conhecido, no Hawaii ou no Brasil?
Eu até hoje acho que não sei fazer música. Pode até parecer estranho, mas as músicas geralmente “vêm” para mim já prontas. Elas simplesmente aparecem na minha mente. Às vezes começo a cantarolar, pego um gravador, gravo as letras, enfim, tudo muito rápido.
Quem compõe ou escreve música pode de repente se relacionar um pouco com o que estou tentando passar.
Eu gostaria que meu público-alvo fosse aqueles que gostam de reggae raiz. mas minhas musicas são misturadas com muitas outras coisas. Essa é uma pergunta muito difícil de responder. Se você me perguntar qual o público para o qual eu gosto mais de cantar, talvez seja mais fácil responder.
Aqui no Hawaii ou no Brasil, sei lá. Acho que aqui no Hawaii muita gente me conhece. Tenho uma gravadora que trabalha comigo já há alguns anos. Se formos levar em concideração a proporção da população, acho que sou mas conhecido aqui.
Mas no Rio muita gente também sabe quem eu sou. Como eu tenho ficado mais aqui do que lá, sei lá, agora embolou tudo.
Eu fiquei espantado na última vez em que estive em Ubatuba. Fiz um show para seis mil pessoas junto com o Pato Banton. Claro que a maior parte delas estava lá por causa do Pato. Mas eu vi garotos de 15 anos cantando minhas músicas e fiquei pensando como é que pode, pois eu não ia ao Brasil havia quase cinco anos. Realmente foi um sentimento muito legal.
O mercado musical no Brasil é um dos setores que relativamente movimenta muita grana, principalmente se você for cantor de pagode ou de samba. Na sua opinião, o que está realmente faltando para que músicos ou bandas do mesmo estilo teu despontem?
Eu acho que tudo tem o seu tempo. Tudo tem sua hora e o seu destino. Eu particularmente faço música porque gosto. Talvez se tivesse apenas uma pessoa me ouvindo, ou até mesmo ninguém me ouvindo, continuaria fazendo, pois tenho prazer nisso.
Aonde minha música vai me levar, isso eu ainda não sei. Talvez eu pudesse ter ido mais longe do que estou no momento, mas acho que isso só o tempo vai dizer. De uma maneira geral, acho que o que realmente falta para o nosso segmento musical despontar é que falta os “cartolas” da música, os caras das gravadoras, os caras que têm o poder de fazer a carreira de uma banda ou das pessoas, entenderem que o reggae é parte da cultura brasileira, não é uma música alternativa.
O litoral inteiro escuta reggae, em muitas outras partes do Brasil se escuta reggae, muito mais do que a mídia relata ou que se escuta nas rádios. Mas talvez realmente deva ser mais fácil fazer músicas sobre violência ou de sacanagem, ou engraçada para ridicularizar alguma situação, sei lá.
Eu não faço música para agradar ninguém. As músicas geralmente vêm para mim, elas simplesmente aparecem na minha cabeça. Já ouvi produtores falarem que minhas músicas são muito espirituais, que deveriam ser um pouco mais comerciais. Mas eu não sei se consigo ser assim. Como falei, acredito em destino. Acho que um dia ainda vou me dar bem, mas não vou mudar meu estilo de música por causa disso.
##

Você foi praticamente nascido e criado em Ipanema, onde aprendeu a surfar. Como descreveria as ondas que quebravam lá? Quais eram os melhores surfistas da área? E o que acha que mudou em relação à atualidade, ainda sobre a onda de Ipanema?
Foi muito bom para aprender a surfar em Ipanema, pois me deu uma excelente base para depois poder surfar a melhor onda do Brasil, que é Saquarema. Pois Ipanema é uma onda buraco e curta.
Você tem que ter reflexos rápidos. Como comparação, é como jogar futebol de salão e depois jogar ir para o futebol de campo. Ipanema é assim, uma ondinha curta, oca, rápida, tubular e com força, me deu muita experiência para surfar os fundos de pedra do Nordeste, Saquarema e até o Hawaii.
Quando comecei a pegar em Ipanema tive muita inspiração dos caras que surfavam na região. Alguns surfistas eram muito bons mesmo, como Valdir Vargas, Fred d’Orey, sem falar no Maurinho Pacheco, minha maior inspiração, pois ele é regular como eu. Ele talvez tenha sido um dos melhores surfistas que eu já vi. Ele surfa muito, inclusive aqui no Hawaii.
Também tem a galera do Arpoador, que se eu começar a falar, vou ficar aqui até amanhã. Tinha também o Daniel Friedman, Jefferson, Lipe, Pepe, muita gente daquela época que servia de inspiração para a galera.
Em relação à qualidade das ondas, acho que eu ainda sou novo para falar nisso, pois não dá para comparar com dezenas de anos de um fundo de areia. Acho que antigamente dava mais ondas sim, mas não sei te dizer o porquê.
Antigamente, dava uns 6 pés de onda tubular, tubos para pegar em pé. Hoje em dia, o fundo está um pouco diferente. Mas, no Arpoador acho que continua dando muita onda, com tamanho lá atrás da laje, perfeito.
Uma de suas primeiras músicas que ouvi foi “Ipanema”. Como surgiu essa inspiração e qual a repercussão no bairro, famoso pelas composições de Tom Jobim e Vinicius de Morais?
Pra te falar a verdade, eu nunca pretendi fazer uma música para Ipanema, apesar de todo o meu amor pelo local. Confesso que quando a música veio, antes mesmo de gravar fiquei meio inseguro. Pensava ‘quem sou eu, um artista totalmente desconhecido, gravar uma musica sobre Ipanema’, mas era uma coisa que tinha que registrar, pois era um sentimento pelo lugar.
Mas, foi engraçado o jeito que essa música veio de repente na minha cabeça. Foi por volta de 1995. Eu estava na praia e morava a três quarteirões de lá. Um dia, fiz a música a caminho de volta da praia. Eu estava ouvindo muito “Israel Vibrations”.
Na época, eu estava com um ritmo de uma música deles na cabeça me perturbando. Então, comecei a encaixar uns versos de Ipanema com um ritmo parecido com que estava na mente. E quando cheguei em casa a música estava pronta.
Cheguei até a achar ‘poxa, tinha sido simples demais’, mas, sei lá, foi o que veio e foi sem dúvida uma das músicas que me projetou muito no mercado. Na época, uma gravadora inglesa estava chegando ao Brasil e gostou. Fizeram inclusive um vídeo-clip dirigido por Jodelle Lacher, então um bom diretor da Rede Globo. E para minha surpresa o vídeo tocava cerca de oito vezes por dia na MTV brasileira, sucesso total.
Muitas bandas de reggae se auto-denominam rastafari, ou pelo menos cantam músicas em adoração ao imperador da Etiópia Hailé Selassié, considerado “Deus” por eles. Você acha que para tocar reggae o cara tem que ser rastafari? Quais as suas impressõe sobre o rastafarianismo?
Eu acho que música e religião podem ou não ter um relacionamento forte. Eu toco reggae e sou católico, não acredito que você tem que ser rasta para tocar reggae. Para te falar a verdade, não conheço muito essa religião.
Então, não me sinto confortável para falar sobre eles. Não acredito que Haile Selassie tenha sido a reencarnação de Jesus Cristo, como eles acreditam. Mas acho que ele foi um homem muito bom e importante na África, pois conseguiu libertar o povo da Etiópia de algumas opressões através de uma boa diplomacia com a ONU. Mas como não sei muito disso, prefiro nem falar. só sei que no Hawaii e em vários lugares do mundo existem muitas bandas que tocam reggae e não são rastafaris, assim como eu.
Fale um pouco do seu último álbum e o que podemos esperar de sua carreira no futuro?
Esse meu último trabalho está mais maduro, mais calmo, em um certo aspecto mais romântico, mais raiz , mais raiz brasileira.
Neste caso, não vejo minha música totalmente reggae. Seria uma fusão de vários ritmos, com influência de ritmos jamaicanos, rock, jazz, música brasileira, são muitas misturas. Mais uma vez tive a oportunidade te trabalhar algumas faixas com pessoas incríveis, como o pessoal do Cidade Negra, Matty Dread – um dos pioneiros do reggae aqui no Hawaii.
Gravamos juntos uma faixa incrível, uma música do Bob Marley com o track original do The Wailers. Conseguimos isso como Santa Davis, baterista que possui as gravações originais e que foram liberadas pelo Ziggy e Rita Marley, responsáveis pelo destino das músicas do Bob Marley.
E a música tem versos que eu traduzi em português. Isso foi muito emocionante, pois Bob Marley sempre foi um grande ídolo. Acho que é a minha faixa favorita e tenho certeza que vai estorar no Brasil.
Quando você pretende voltar para o Brasil e quais são seus planos?
Estou no momento em São Francisco, onde irei fazer alguns shows com Martty Dread aqui na Califórnia. Pretendo voltar para o Hawaii para o show de abertura da Triple Crown e depois ir para o Brasil, onde espero conseguir fechar com alguma gravadora e fazer alguns shows para divulgar um pouco mais o meu trabalho.
Para sabe mais sobre o trabalho de André Derizans acesse o site Brazildeluxe.com.br .