Sonhos, sentimentos
Vagando em pensamentos
Aspirando, almejando
O que se deseja ser
Inocência e jovialidade andam livres
Como o vento em suas curvas
Sem percepção de mundo
Inconsciente, espera por oportunidade
Para que não hajam marcas de desigualdade
Que emergem sem defesa
Atrofiam os sentimentos
Revoltam os sentidos
Causando dor, ódio e terror
Infelizmente uma sentença
Uma silhueta, uma guilhotina
Rompe e exala fluidos de alma pelo ar
Vida incompreendida
Vida bandida
Como uma rocha
Embrutece, semeia o mal
Sem consciência, sem esperança
Medo, desespero, agonia
Inferno!
                                              

Este é o triste infortúnio dos miseráveis, dos que moram mal, dormem mal, comem mal…Uma realidade que não cansa de ferir nossos olhos, amolar nossas mentes, macular nossas almas. A responsabilidade é sempre do sistema e por isso permanecemos de braços cruzados, é verdade, nada podemos fazer.

 

Será? Quando vejo pessoas como Guilherme Tâmega, acordando para o trabalho social, me encho de alegria e esperança. É como ele mesmo escreveu em um artigo aqui no Waves bodyboard:

 

“Eu não entendia quando lia, que muitas pessoas que tem condições de ajudar, imploravam para outras pessoas participarem. O meu tempo sempre foi curto, mas agora, vejo que poderia ter entrado há muito tempo nesse trabalho. A satisfação de ter uma criança pegando onda do seu lado, sendo que essa mesma criança poderia estar no morro, nas favelas, com uma arma na mão… Só quem faz um trabalho social tem consciência do que estou falando.  Nessa hora a gente esquece que é hexa-campeão mundial. Nessa hora é que vemos nossas vitórias. Já dei muita prancha, muita roupa, mas pela primeira vez sinto que estou educando e ajudando alguns de verdade. E a recompensa disso é melhor do que qualquer título mundial”.

É difícil não sermos egoístas e não pensarmos somente em nossos próprios problemas. É um ato de defesa, natural até. Há toda uma tendência em ignorar a miséria, não temos tempo para ela, uma terrível influência que sofremos ao vivermos num sistema Neoliberalista. Isso, sem falar daqueles que realmente acreditam ser a pobreza, uma conseqüência da preguiça, da falta de disposição para o trabalho, ou mesmo, da incompetência. Já ouvi muitas frases do gênero, “Venci, pois trabalhei muito e não vou dividir o que conquistei com proletário algum”.

 

Acho oportuno citar algumas palavras do meu pai, que para mim, é um grande homem, em represália a pensamentos como esse:

 

“Será que as pessoas que detem os modos de produção lembram quantos empregados trabalharam para eles, para que conseguissem se tornar grandes empresários, industriários, etc? Sozinhos, sem ninguém para fazer por eles tantas atividades, o que teriam conquistado? Com todo dinheiro do mundo estático, colocado no solo, o que seria produzido? Mesmo as atividades especulativas, financeiras, baseiam-se na produção.

 

Como produzir sem o trabalho de milhões de pessoas? Realmente, pessoas assim não sabem nada da realidade, estão alienadas e aprisionadas em seu próprio mundo”.

O sistema não é justo, muitos dos que são classificados como pobres, não o são por motivos banais e infundados, mas pela conseqüência de um legado herdado do que foi o caos da colônia brasileira.

Analisando o esporte brasileiro sobre a ótica da política social, penso, é muito difícil ser brasileiro. Assistir a tanta miséria e ao mesmo instante, tanto tempo e dinheiro desperdiçados por razões fúteis. Dá para entender as leis de mercado que fazem o futebol extrapolar os limites do que é ser um esporte? A discrepância entre os salários dos seus atletas e a realidade nacional? Jogos Olímpicos e competições internacionais que custam milhões de dólares, acontecendo somente pela continuidade do ciclo do marketing esportivo em torno dos investidores e da mídia, onde a participação de atletas pobres dos países de terceiro mundo, fica a cada dia mais restrita e difícil.

 

Sem falar do circo da Copa do Mundo… Posso até entender, mas nunca vou compreender. Gostaríamos, como Bodyboarders, de estar no lugar do futebol? Os salários, a representatividade, a imagem… Não é o que estamos buscando para o nosso esporte? Melhor estrutura, melhores condições para os atletas, para os profissionais ligados direta e indiretamente, será que saberemos o limite quando chegar a nossa vez?

 

São essas incógnitas que me fazem refletir sobre a importância da responsabilidade social. A ambição em ver os donos dos modos de produção, enxergando o valor do proletariado e daqueles que nem isso podem ser, entendendo, portanto, o que precisam fazer para devolver-lhes o que é de direito, aliás, direito esse, que lhes é negado constitucionalmente.

 

 Nada contra o crescimento do nosso esporte, também luto por isso, sou contra a má distribuição de renda, e esta é a questão principal deste artigo. Entendo o trabalho social como uma forma de oportunizar uma classe esquecida da nossa sociedade, para que não aconteça como no desfecho do poema acima citado. E para isso, é necessário bons projetos, a captação de recursos destinados para esse fim.

 

Profissionais em todas as áreas, com interesse em atuar e prestar serviços a esse campo, além da responsabilidade social das grandes empresas em dar prioridade a esse modelo de projeto. É necessário o interesse de pessoas de grande imagem, como o Guilherme Tâmega, Raí, Leonardo, Ayrton Senna, para ajudar o esporte social a gerar mídia. Infelizmente, só por esse caminho a mídia se interessa.

A grande verdade, é que depende de nós, está em nossa consciência como devemos atuar no resgate de antigas dívidas impostas pela história. Atuar garantindo que todas as pessoas tenham os mesmos direitos e oportunidades, de comer, morar, estudar e por que não, surfar? É bem verdade que nosso esporte é elitizado, praticado por uma privilegiadíssima população. Que triste, quando são justamente os mais pobres que mais carecem desse envolvimento com a natureza e as intermináveis citações de prazer as quais o Bodyboarding está relacionado.

 

 A responsabilidade social é um bem próprio, individual e particular, parabéns aos que a possuem, e aos que se sentem incomodados por ela. Essa inquietação é uma grande prova de sensibilidade, é uma demonstração de insatisfação com o quadro social que vemos no nosso dia-a-dia. Vamos usá-la para nos fortalecer e como no conto do beija-flor, vamos fazer a nossa parte!

 

 

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