Raoni Monteiro se garante no WCT

Com a brilhante vitória no WQS 6 estrelas do Japão, quando conquistou 2.500 pontos no ranking e faturou US$ 15 mil, mais do que um excelente resultado, Raoni Monteiro carimbou definitivamente seu passaporte no WCT 2004.
 
Após uma série de campeonatos decisivos, começando na Califórnia, onde obteve mais uma vez nota 10 unânime, ficando com a 17ª colocação em Huntington Beach, passando pela perna francesa, com uma etapa cancelada por falta de ondas, e obtendo a 5ª colocação no Rip Curl em Hossegor, finalmente em Irago Beach, no Japão, veio a redenção do nosso samurai brasileiro, que alcançou a tão sonhada vaga para disputar o mundial ao lado dos melhores surfistas do planeta.
  
Segundo Al Hunt, Tour Manager da ASP, e Roberto Perdigão, Diretor Regional da ASP South America, devido ao cancelamento de algumas etapas este ano e com apenas mais dois eventos 6 estrelas pela frente, a média de pontos para ingresso no WCT de 2004 ficará em 8.000 pontos, ao invés dos 8.500 habituais.
Assim, Neco Padaratz, atual líder do WQS, Paulo Moura, o franco-brasileiro Eric Rebiere e Raoni Monteiro já estão com suas vagas garantidas para a próxima temporada do WCT.  

 

Em entrevista exclusiva à @lfabarrels Sports Management, já em sua casa em Saquarema (RJ), Raoni contou um pouco das glórias e dificuldades enfrentadas em sua longa trajetória.

 

Qual foi a emoção da conquista no Japão?

 

Essa vitória veio na hora certa, já estava cansado de viajar, pois tinha ido para a Califórnia, Europa e a última no Japão. Foi muito legal, eu me concentrei bastante, pois estava longe de casa e de tudo e consegui ficar à vontade no campeonato, apesar do mar pequeno, mas com boas marolas de meio metro. Estou me sentindo bem, veio na hora certa, WCT ano que vem se Deus quiser, estou super feliz!

 

Quais são suas expectativas de disputar um circuito em lugares lindos e com altas ondas?

Agora é que começou a correria, o negócio vai ficar mais sério e mais difícil, pois vou ter que conciliar o WCT e o WQS ano que vem, e vai ser só onda boa e perfeita. O pessoal diz que é alucinante, tem umas ondas grandes, tenho que treinar bastante, me concentrar bastante e soltar meu surf, levando as pranchas certas para os lugares certos, e aprender. Primeiro ano de WCT vai ser difícil, mas vamos correr atrás com garra, pois entrar é difícil e ficar lá dentro é mais ainda.

 

Conte como foi a saga de praticamente dar a volta ao mundo desde a etapa da Califórnia até o Japão, as dificuldades, o aprendizado e o final triunfante?

 

Saí do Brasil para a Califórnia, passei umas baterias e fiquei em 17°, foi legal, pois troquei um resultado fraco que eu tinha e ainda tirei um 10 passando por debaixo do pier. Depois fomos para a Europa, perdi de cara no primeiro evento, o segundo foi adiado, no último me dei bem fazendo semifinal e ficando em 5°, o que já foi um incentivo para ir pro Japão, pois tinha subido mais no ranking e estava a fim de trocar mais um resultado e me garantir.

 

Ao chegar no Japão, estava longe de casa e de tudo, cansado de passar perrengue, só havia sobrado duas pranchas, pois as demais tive que vender para pagar o motor-home na Europa, mas graças a Deus fui passando as baterias desde o round dos 96, me sentindo bem no campeonato, fui soltando meu surf nas marolas, a 5’11” do Ricardo Martins estava mágica, passei para a final e vi que estava com chances de vencer, meu surf estava no pé. A galera estava dando a maior força e consegui vencer, foi show!

 

Como foi fazer a final com Bruce Irons, Nathan Webster e Marcelo Nunes?

 

Entrei na final com o Marcelo Nunes, ficamos nos concentrando juntos e nos aquecendo antes, dizendo um para o outro que um de nós dois iria ganhar, não vamos deixar os gringos vencerem de novo. A galera sempre compete, dá a maior dura e quando chega aqui no Brasil ainda tem que ouvir que “deixaram os gringos ganhar”. Ficar em quarto ou em segundo para o brasileiro não é nada, para nós o que vale é ser campeão, já estava de saco cheio de escutar isso. Assim, entramos na bateria com vontade de vencer os dois, o Bruce e o Nathan estavam surfando bem, mas entramos com uma energia boa, o Nunes pegou a liderança e eu comecei em quarto, mas tive a tranqüilidade de esperar duas ondas boas, já estava na final mesmo e qualquer resultado já seria ótimo, mas sabia que se eu vencesse aquele campeonato já estaria com 99% garantido para o WCT, assim entrei com muita vontade de vencer.

 

Depois peguei uma onda boa e pulei para segundo. Faltando quatro minutos para o término tirei um 7,5 e fui para primeiro, com o Nunes precisando de 8,33 para virar, o Bruce em terceiro e o Nathan com uma interferência ficou em quarto. Aquele momento para mim foi mágico, foi uma glória, olhei para o céu agradeci a Deus, e soltei um berro muito alto que estava engasgado, estava precisando!

 

Não agüentava mais ouvir as pessoas dizendo que já estava passando a minha hora e consegui provar para todo mundo que não tem essa de estar passando da hora, o cara pode chegar a qualquer momento e conseguir… Entrar no WCT é um sonho muito grande de todos e só quem está tentando ingressar e tendo que viajar o mundo todo é que sabe o que é passar perrengue e competir debaixo de sol e chuva. Para muitos é um sonho, mas para nós é um sonho e um trabalho ao mesmo tempo, então isso serve para mostrar que a nova geração está aí com vontade de entrar no WCT, e se  Deus quiser vou poder representá-la e ajudar o Brasil.

 

Parece que você está se habituando a tirar notas 10, como foi a onda de Huntington?

 

Foi uma onda da série, no começo da bateria, vi que estava dando uma esquerda mais para o lado do pier que dava para fazer umas três manobras fortes e rápidas de high score, pois o mar estava meio difícil e fechando. A onda veio, os caras estavam muito para fora e sobrou mais ao lado para mim, formando um double up, já dropei dando uma passada e um floater, voltando já dei uma batida bem do lado do pier, formou mais uma sessão e consegui dar outra batida embaixo do pier, passando a mil por ele e conseguindo dar uma batida na junção do outro lado, daí virei para a direita e dei outra batida na espuma, essa foi a onda do dez, a galera ficou gritando, fiquei amarradão a onda foi demais!

 

E as saudades do Brasil e da família?

 

Estava havia um mês e tal viajando longe de casa, já não agüentava mais de saudades da minha mulher Natália, a cabeça a mil por hora, querendo chegar em casa para dar um beijo e um abraço e comemorar a vitória com os amigos, com o Vitor Alves, meu empresário, que me deu a maior força e organizou tudo. Meus patrocinadores também, acho que essa é a hora importante e a gente não pode esquecer da Rip Curl, Reef, Oakley, Ricardo Martins e Larbtur. É isso aí galera, estou amarradão, muito obrigado por tudo!

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