Por trás das notas

Questão de educação

Nós brasileiros temos uma maneira toda especial de ser, uma cultura peculiar, ainda em formação, conseqüência de uma composição multirracial de uma colonização única e heterogênea.

 

Infelizmente sabemos que o nosso povo não é dos mais educados, ainda mais depois que levar vantagem em tudo passou a ser a ideologia dos “espertos”.

 

Temos que mudar esta mentalidade pelo menos dentro da água.

 

No Brasil, o negócio é ir pelo acostamento, furar fila, enfim, se dar bem em cima dos otários que respeitam as normas e leis do convívio público. E em nosso esporte não poderia ser diferente e dentro da água a divisão das ondas nem sempre é democrática, sendo resolvida por vários fatores, onde a lei do mais forte decide.

 

Quanto melhor a onda, mais intensa é a disputa e maior o localismo, e a falta de educação acaba criando mais problemas.

 

No mundo do surfe, nós brasileiros construímos uma imagem nada boa em relação ao comportamento dentro da água. Não quero nem me referir ao volume das vozes, porque aí é uma questão que extrapola o surfe, mas principalmente ao posicionamento para disputa, sempre cercando e ciscando o inside dos outros, ou melhor, indo pelo acostamento.

 

O ritmo das disputas dentro da água no Brasil é impressionante. Qualquer  beachbreak tem clima de disputa de um Trestles ou Burleigh Heads. Sempre que viajamos e encontramos brasileiros dentro da água, dá para reconhecer um brazuca por seu comportamento e posicionamento.

 

Muitas vezes não respeitam os locais e acabam deteriorando nossa imagem.

 

Nesta minha última viagem à Nova Zelândia, fiz algumas observações que podem nos ajudar a entender a natureza de nossas atitudes. Sempre que vinha uma série, todos os brasileiros remavam para um posicionamento mais para dentro da onda.

 

Como era um point break, quem estivesse mais inside teria a prioridade. Só que os neozelandeses ficavam parados, respeitando a fila natural do posicionamento.

 

A galera continuava remando pra dentro, e, depois da terceira série, eles (os locais) começaram a reagir e a remar também, imprimindo um outro ritmo dentro da água.

 

É o ritmo Brasil, nervoso, estressado, que não pode dar mole. Se cochilar, malandrinho tá remando inside, refletindo perfeitamente um principio básico da educação que anda meio esquecido nestas bandas, o respeito.

 

Depois, fui ver um evento em Raglan, esquerda perfeita onde rolava um campeonato amador. Vinha uma série e os quatro garotos na água esperavam pacientemente sem se mexer ou alterar o posicionamento diante das eminentes ondas.

 

Ali eu entendi o que é ser educado sob o critério do point break. Nós brasileiros, vivemos sobre a ótica do beach break, onde qualquer um pode ficar no inside, depende de sua rapidez, avidez ou da tão famosa “esperteza”.

 

O curioso é que um dos membros do grupo fez interferência no evento porque confundiu estes dois critérios  – subi primeiro na prancha, ele justificava, pela lógica do mais rápido, só que estávamos em um point de direita.

 

Ao mesmo tempo em que eu estava no evento amador local, nosso grupo foi chamado de “snake-boys” por um local em Whale Bay. Aí, lembrei-me do Fred D’orey em Uluwatu, reclamando do comportamento do Roberto Casquinha.

 

De uma maneira geral, os brasileiros melhoraram a atitude dentro da água. Hoje nós rabeamos menos. Agora temos que corrigir essa mania de andar pelo acostamento do surfe, passando à frente dos outros que esperam na fila.

 

Não quero tirar meu corpo fora, também faço parte time dos fominhas,  também sei rabear, também remo para o inside, é inconsciente, mas fico me policiando o tempo todo, principalmente quando estou na casa dos outros, seja na Joaquina, em Serrambi ou no Hawaii. Vamos respeitar e boas ondas. 

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