Tem tanta coisa engasgada no surf brasileiro que a cada degrau que subimos a repercussão e as consequências são enormes.
Chamou muito a atenção a quantidade de mensagens negativas dos estrangeiros torcendo contra e literalmente xingando os brasileiros nas redes sociais.
Já ganhamos praticamente tudo em termos de títulos de surf, desde as categorias de base até as maiores ondas do mundo. Só que na primeira divisão, o WCT, muita gente ainda nos tira de coadjuvante. Ainda somos como o Corinthians era na Libertadores e na disputa do título mundial, sempre teve potencial, mas sempre tropeçava quando não podia. Era motivo das maiores chacotas, tabus e risadeiras dos torcedores adversários.
Só que o processo realmente vem mudando a cada marretada de Mineiro e companhia, e, ao invés de cascalho, sai ouro. E isso tem incomodado cada vez mais. Não é de hoje e mesmo ainda com algumas oscilações de performances semi-desastrosas, como na primeira etapa na Gold Coast, temos chegado junto mais forte.
Afinal, se o Corinthians chegou lá, por que um corintiano não pode?
Quem viu a premiação até o final não pôde deixar de notar que de tanta gana que o brasileiro balançou o tão lendário sino de Bells, que ele quebrou o sino. Não foi uma gafe, não foi uma deselegância, como muitos comentaram, foi um acidente.
Em 51 anos de campeonato nenhum brasileiro tinha tido esse gesto tão emblemático e logo Mineirinho, o mais aguerrido, o que mais ouve críticas por seu estilo “vim aqui para vencer”, não se conteve e balançou o sino 51 vezes mais forte do que qualquer lenda que já tenha erguido o pesado troféu. A surrada madeira não aguentou o tranco do brazuca e foi pra lona, assim como seus adversários no campeonato, nocauteados!
É fato que depois do Pipeline Masters, o campeonato em Bells é o mais importante do circuito, o mais tradicional. Pipe ainda tem aquele estigma de haver muitos locais competindo e acaba que muitos dos que correram o tour o ano todo acabam sendo eliminados precocemente. O funil de Bells condiz mesmo com a batalha dos que disputam palmo a palmo os pontos no ranking. O Pipe Masters parece um campeonato dos tops versus os locais havaianos. Já em Bells, são os tops contra eles mesmos.
E vejam como são as coisas, fomos fracos na Gold Coast. Fomos os heróis em Bells. Duas direitas super manobráveis na Austrália, o power surf de quem ficou devendo na Gold foi responsável por eliminar os cabeças da máfia dos pontos do ranking. Slater, Parko e Fanning sucumbiram diante de Willian Cardoso, Raoni Monteiro e Adriano de Souza, respectivamente.
Arcos e mais arcos, laybacks e mais laybacks, muitos litros de água pra cima e poucas manobras realmente aéreas. Mais uma vez, contrariando os rebelde sem causa, que acham que se mandar um aéreo já tem que levar notão, uma onda surfada com maestria, técnica e variação, é o que comanda as ações em determinados tipos de mares.
Apesar de Willian ter sido um dos maiores destaques do campeonato, não só por eliminar Slater, mas por apresentar uma linha redonda e fazer um trabalho base lip digno dos melhores mestres do estilo, acho que no dia decisivo ele perdeu um pouco dessa magia. Perdeu o timing de onde encaixar as manobras decisivas e viu Nat Young desfilar o melhor backside do campeonato.
Foi sensacional sua atuação, Willian, mas vamos torcer para que seu surf se encaixe novamente em algumas ondas das próximas etapas. Ganhar do Careca numa onda em que ele destrói, não é para qualquer um. O Panda Gentil mostrou que cintura avantajada também requebra no lip.
Raoni foi espetacular, era quem estava com o pé mais pesado, fez “só” a melhor bateria do campeonato contra Parko. Foi excelente a entrevista do australiano, sorrindo depois da bateria e reconhecendo que perder com uma nota 10 e uma acima de 9 pontos, se dava porque o oponente tinha surfado muito mesmo, e não tinha nada a fazer senão reconhecer e aplaudir.
O título mundial e a experiência devem dar ao australiano um pouco mais de maturidade e espírito esportivo na hora de tirar a marra da derrota e a pitada de arrogância na vitória.
Não é possível que ninguém patrocine o Raoni, crise na indústria de surfwear, aonde? Ninguém tá aqui pedindo um contrato vitalício com o rapaz. Assina por um ano, renova depois. É vergonhoso para um país onde o surf comanda a moda de A a Z, que um atleta de ponta fique com aquele brancão no bico da prancha, passagem bancada pelo pai e tudo mais.
Alejo foi o único que não deu sorte. Brilhava e tinha tudo pra mandar Jordy Smith mais cedo pra casa e sofreu com a maior calmaria do campeonato, praticamente 10 minutos boiando e só vindo marola. Naquela altura, os gringos já estavam todos de cabelo em pé com a história do Brazilian Day e as energias começaram a se voltar para frear aquele levante tupiniquim.
Filipinho, mermão, me explica como você conseguiu surfar tão forte a onda pesada de Bells? Pra mim, foi o surfista mais sensacional do evento. Claro que não levou, mas foi quem mais empolgou. Não fez uma ou duas baterias sensacionais, fez todas! Contra CJ foi um animal, contra Medina fez a melhor manobra do campeonato. Caiu bem menos da prancha, foi o surfista que mais conseguiu mostrar modernidade e power. Se tiver constância, será o rookie of the year com certeza!
Medina, poxa Medina, essas duas primeiras etapas são um canguru atolado no seu sapato, não é verdade? Um pouco lento, um pouco apático, talvez um pouco receoso com a recente contusão e as consequências que isso pode trazer em termos de performance.
Ser profissional é lidar com adversidades além do “transe mágico” que suas ondas sensacionais causaram no mundo, é trabalhar a cabeça e manter-se motivado para chegar com a adrenalina e foco no grau máximo. Relaxou ou se preocupou demais, cai da prancha. E foi isso que aconteceu em Bells. Claro que Filipe não facilitou em nada, mas Medina ainda está devendo um pouco nesse início de temporada.
Em 2009, Mineiro esteve numa sessão de autógrafos na cidade em que moro, Salvador e fui lá conferir. Peguei um pôster, fui até ele e pedi um autógrafo. E ele, de cabeça baixa assinando um atrás do outro, sem me ver, perguntou, “dedico pra quem?” e eu disse, “ao Torcedor Fanático”.
Ele estava de boné e foi levantando devagarinho o olhar meio arregalado. Meio surpreso, olhou-me nos olhos e perguntou: “Então é você que escreve os textos para o Waves?”. E eu disse, “sim, mas pego no pé de vocês porque quero vê-los ganhar, eu torço de verdade”. E ele respondeu baixando a cabeça novamente, voltando-se para o pôster e disse somente assim: “Tá certo”.
Entregou o pôster, apertou minha mão e não disse nem mais uma palavra. Dias depois, encontrei com um amigo que fazia parte do staff que o trouxe para o evento e disse que ele comentou que ficou tão surpreso que ficou sem reação na hora.
Acho que às vezes as pessoas pensam que não existimos, que escrevemos pra sacanear, pra simplesmente meter o pau, jogar lenha na fogueira e que se danem as consequências. E quando Mineiro olhou nos meus olhos, ele viu que por trás desse teclado tem um cara, legal ou não, que está aqui para impulsionar, não para soterrar.
Por isso que a reação dele foi a de não reagir, respirar e competir.
Quando mandam mal, temos que falar a “verdade”, quando mandam bem, temos que falar também. Mas quando mandam um tabu de 51 anos ao chão de um solo sagrado como Bells Beach, temos que nos curvar e dizer: Habemus Mineiro!