“Nunca vimos dois índios discutirem, nem um casal se desentender. Entre os índios, o velho é o dono da história, o homem é o dono da aldeia, e a criança é a dona do mundo.”

 

Orlando Villas Bôas, nascido em 12 de janeiro de 1914; morto em 12 de dezembro de 2002.

 

A frase do sertanista e indianista Orlando Villas Bôas demonstra sua verdadeira vocação: de humanista.

 

E o que nos interessa, surfistas e adendos, o que fez e falou um senhor que lidava com índios no meio da selva?

 

Absolutamente nada, embora o pessoal que trabalha nas redações Brasil afora adore nos tachar de tribo: a última tribo nômade, etc?

 

Rejeito o rótulo de tribo.

 

Ainda precisamos de mais cinco mil anos para evoluir nossa comunidade em sentenças definitivas como a que acabamos de ler acima. Leio que uma nova guerra invade o que supostamente seria nosso pacífico mundo de água salgada.

 

Um camarada surfando sozinho em Todos Santos, México, num diazinho relaxado, meros 10 pés, foi atacado por um grupo de surfistas (??) de surfe rebocado (sim, amiguinhos, tow-in) dentro d’água, em plena arrebentação.

 

Sem nomes, nem datas, o pobre coitado – vamos chamá-lo de agora em diante de ‘remador’ -, se meteu a surfar sozinho numa tarde qualquer naquele pedacinho de ilha no México e deu azar de encontrar um grupo de gladiadores digno do velho filme “Rollerball”.

 

A horda vestia-se à caráter, com coletes salva-vidas, bombas de oxigênio, capacete e pranchas especialmente encomendadas para toda sorte de dificuldades.

 

O remador, solitário, diz surfar ali há mais de década e não agüentou o fuzuê de jet-skis em ondas que ele considera apenas divertidas.

 

Os hunos se esmeravam em treino exaustivo, preparando-se para um promissor inverno no hemisfério norte, rabiscando qualquer movimento de água que lembrasse uma onda.
O nosso herói, ‘remador solitário’, com muito humor e ímpeto, resolveu soltar a âncora do bote dos tresloucados ‘rebocados’.

 

Imaginem, agora, um sujeito sozinho, com a cara de pau de deixar um bando de gaiatos com o bote à deriva, sendo que os gaiatos tinham jet-skis e poderiam alcançar o pato a hora que quisessem.

 

Pois o alcançaram e deram uma bela surra no antiquado surfista.

 

Ora, que lição tiramos de um episódio desses?

 

Não bastasse a pendenga entre surfistas e bodyboarders, a disputa dos pranchões e pranchinhas, a discussão dos que voam e os que do chão, ou da onda, não passam, surge uma nova peleja, nem tão nova, de remadores e rebocados.

 

Definitivamente, não somos uma tribo.

 

O que seduz nessa nova febre de surfe que muitos insistem em atestar como um grande momento histórico, o que atrai, o que move as hordas para as praias, é a liberdade.

 

Sem pieguismo.

 

Plano de saúde, banco, automóvel e refrigerante vendem o surfe aliado a uma suposta liberdade que apenas o surfista, de calção e prancha, é capaz de se permitir.

 

Liberdade sugere felicidade e, quando pensamos o quão deturpada a palavra liberdade encontra-se hoje em dia, principalmente com Baby Bush e sua cruzada pelo ‘mundo-livre’ (me perdoe 04), nos damos conta que, como diz Fausto Wolf, um povo que morre de fome não pode se considerar livre.
 
Os irmãos Villas Bôas lutaram a vida inteira para que os índios tivessem sua cultura preservada, sua área de habitação respeitada e mantinham a máxima do desbravador Marechal Rondon: “Morrer se for preciso, matar nunca”. Conseguiram fundar, depois de muita luta, criar o Parque Indígena do Xingu, salvando do homem branco predador 16 nações, ou tribos, numa área que é maior de que muitos países europeus. Orlando, inclusive, foi indicado duas vezes, em 71 e 75, para o prêmio Nobel da Paz.
 
Dezembro é época de reflexão, de votos e promessas, tempo de saudades aqui no Rio de Janeiro do nosso querido irmão que se foi prematuramente, Smurf, campeão brasileiro mirim em cima do Neco em 88.

 

Smurf era exemplo de conduta no Arpoador.

Nunca o vi levantar a voz nem dentro, nem fora d’água, no entanto era respeitado, quase temido.

 

Surfava no shore-break direto, entubando de backside na onda que a turma diz que nem dá pra surfar direito.

 

Smurf foi pra junto de Orlando, véspera de Natal.

 

Esse entendeu que o surfe servia pra unir, melhor dizendo, compartilhar. O surfe, como diz outro irmão, ensina a cair.

 

Tenham todos boas festas.

 

Que 2004 nos traga boas ondas.

 

 

A coluna é uma homenagem à Tia Sônia, mãe do nosso amigo Smurf e dona do quiosque mais simpático do Rio, no mirante do Leblon, com a vista mais linda de Ipanema.

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