
O free-surfer curitibano Edison de Paula é atualmente um dos brasileiros mais respeitados no Hawaii, não só por suas atitudes convincentes nas ondas do North Shore de Oahu e em Maui, na temida Jaws, como também por seu brilhante histórico como salva-vidas ao lado de Romeu Bruno nas praias havaianas.
Atualmente, Edison está à frente de um outro projeto que o coloca novamente em posição de destaque diante da comunidade havaiana. Trata-se da escola Surf Hawai – Surf School, no North Shore de Oahu, Hawaii. Lá ele ensina o esporte dos reis havaianos aos turistas e interessados no esporte.
Aos 38 anos, ele chegou no Hawaii com a cara e a coragem e passou por vários perrengues até chegar aonde chegou. Conheça a trajetória deste brasileiro nas ilhas havaianas em entrevista concedida ao nosso correspondente no Hawaii Bruno Lemos.
Quais foram os momentos mais marcantes desde que chegou ao Hawaii?

Os momentos mais marcantes são aqueles que você está em paz consigo e com as pessoas ao seu redor. Seja o lado espiritual, emocional ou físico. Também acho essencial estar conectado com a natureza, com minha família, meu pai e minha mãe. Outros momentos foram as melhores sessões de surfe em Jaws com meus amigos, além de ressuscitar um surfista já inconsciente no último inverno no outside de Hammer Heads, fazendo CPR junto com a ajuda dos meus amigos do tow-in. E também ter me formado na Brigham Young University of Hawaii (BYUH) em Informática, depois de quatro anos de ralação.
Fale um pouco da sua história de vida.
Sou nascido em Curitiba, Paraná. Cresci surfando em Matinhos e na Ilha do Mel. Mudei para Natal, Rio Grande do Norte, onde morei por sete anos. Mudei para a Califórnia em 1987 e comecei a trabalhar fazendo pranchas. Depois de um ano encontrei meu amigo Fábio Quencas, que tinha acabado de retornar do Hawaii, em 1989. Senti a boa vibe do Quencas… Ele me deu o maior incentivo para vir surfar essas ondas do Hawaii. Gostei da idéia, mas sabia que alegrias, barreiras e decepções iriam ocorrer no dia-a-dia. Chegando aqui começou a batalha. Não tinha para onde ir e com pouca grana a situação não ficou nada fácil. Felizmente conheci um havaiano no aeroporto que com seu “aloha espirit” me deu a maior força e me hospedou em sua casa em Waipahu por duas semanas. Mahalo Kea Kua…

Não tinha nenhum recurso financeiro, então não tive como conhecer o North Shore pelos dois primeiros meses aqui na ilha. Meu sonho não era muito diferente de outros brasileiros que por aqui passam, surfar Pipeline, Sunset e Waimea Bay. Trabalhei como salva-vidas no North Shore de 1994 a 2002. O tempo que passei nesse trabalho foi muito gratificante. Aprendi muito a respeitar o litoral havaiano, especialmente o North Shore. As ondas, as correntes e os fundos de Waimea, Pipeline e Sunset intimidam qualquer um. A cada dia na torre de salva-vidas tive a oportunidade de ver o quanto os turistas e surfistas de outros lugares não têm a mínima idéia do poder do oceano. Observando a inexperiência e negligência dos turistas, imaginei: um dia poderia ajudar essas pessoas a entenderem um pouco mais a respeito do mar, através de uma escola de surfe. Essa foi a idéia que deu inicio a Surf Hawaii – Surf School.
Como foi o processo para criar e dar início à escola?
Aconteceu pelo fato de eu estar envolvido com o surfe há muitos anos e ter trabalhado como salva-vidas aqui nas ilhas, além do desejo de trabalhar com o surfe. No Brasil não são todas as pessoas que têm os recursos para ter uma aula de surfe. A galera no Brasil aprende mais na raça. Já aqui nos EUA, os americanos valorizam mais aprender através de uma escola. A oportunidade de aprender a surfar através de uma escola aqui é mais viável, considerando o lado financeiro dos americanos.

Quais são as principais dificuldades e necessidades para tocar uma escola de surf no Hawaii?
A principal dificuldade é pegar a licença para poder ensinar. As leis estão cada vez mais restritas. Desde que comecei a escola, há três anos, as leis mudaram muito e ficam cada vez mais complicadas. Você precisa ter uma licença do Estado do Hawaii e da cidade de Honolulu. Também é necessário ter trabalhado como salva-vidas na praia ou piscina. É necessário fazer um curso de salvamento com a capitania de portos do Hawaii. Seguro obrigatório também, no valor de dois milhões de dólares para incidentes que podem ocorrer. Também é necessário pegar uma licença para cada praia que você vai ensinar. Não são todas as praias que possuem boas ondas para ensinar. Waikiki é perfeito para aprender a surfar, mas hoje em dia é impossível pra legalizar uma escola de surfe, devido ao localismo que regula as praias de Waikiki. Na maioria das praias do North Shore o Estado do Hawaii não legaliza a sua escola para ensinar surf. O Estado e a cidade de Honolulu dão prioridade à comunidade dessas regiões ao uso das praias.

Apesar de todas as dificuldades, este foi um dos setores que mais cresceram nos últimos anos. Como você descreveria este mercado?
Como em qualquer outro mercado de serviços prestados ao cliente, você precisa anunciar o seu produto. Se tiver uma boa infra-estrutura, você terá mais sucesso. Também depende dos seus objetivos com a sua empresa neste mercado. Desde que comecei a trabalhar nesta área, só senti que comecei a ter mais sucesso a partir do momento em que comecei a fazer o marketing. Ou seja, investir através de muita publicidade, o que custa muito aqui nos EUA. Quanto mais você anunciar a sua marca mais sucesso terá. E claro que o produto final tem que ser de qualidade. A concorrência é grande se você tentar concorrer com as escolas de Waikiki. Acredito que se você ensina as pessoas a surfar ou fazer qualquer outra coisa de coração, você sempre terá um retorno, de uma forma ou de outra. Não são todas as escolas que são legalizadas aqui no Hawaii, e essas não são concorrência para a Surf Hawaii – Surf School.
##

Como fazer para garantir a satisfação do cliente?
A nossa escola sempre coloca o cliente em primeiro plano. Procuramos aprender com as sugestões propostas por eles. Os estudantes têm três maneiras diferentes de subir na prancha. Muitas pessoas não têm uma condição física apropriada para o surf, então as três maneiras diferentes de aprender facilitam muito para o estudante e com certeza fazem uma grande diferença para o instrutor.
“Aprenda a surfar em uma aula” é o slogam da sua escola. É realmente possível aprender a surfar em uma aula?

Depende muito da escola. Por isso, antes de anunciar este slogam decidi criar uma forma de aprender a surfar que facilitaria muito aos estudantes. A nossa rotina começa com 30 minutos de prática na areia. Os estudantes aprendem sobre as correntes, canal para remar, arrebentação, escolha de ondas, maneira correta de remar, posição do corpo na prancha, formas de virar a prancha para remar para o outside, posição do corpo quando fica em pé na prancha, posição dos braços surfando, etc. São muitos detalhes que fazem os estudantes aprenderem a surfar em uma aula. Nós procuramos passar o máximo de informações para eles. Geralmente fico surpreso com 95% dos meus alunos. Aqueles que estão melhor fisicamente são os que têm mais sucesso. É interessante quando vejo os alunos da Surf Hawaii remando para o outside pelo canal de forma correta. Ficando em pé na prancha pela primeira vez e com estilo. Nossas imagens de galeria em nosso web site são imagens de alunos que surfaram pela primeira vez, alguns com um belo estilo.

Você e o Romeu Bruno foram os primeiros brasileiros a praticar tow-in em Oahu. Como você avalia a modalidade atualmente?
O tow-in evoluiu muito desde que largamos a corda na primeira onda. Hoje em dia os jet-skis estão com motor mais forte, possibilitando mais velocidade para o piloto rebocar o surfista na onda. As pranchas de resgate ficaram mais profissionais. Surfistas como Laird Hamilton passaram a usar o colete salva-vidas, que é uma forma de minimizar as chances do surfista morrer afogado. Quando começamos, em 1996, as pranchas eram 7’4 talvez até maiores e com uma espessura bem mais larga, 17.5 polegadas. Hoje em dia surfamos com pranchas bem menores 5’10 a 6’2 e bem mais estreitas, com 15 a 16.5 polegadas de espessura. Essa diferença cria mais velocidade na prancha e possibilita ao surfista fazer manobras mais radicais na parte mais crítica da onda. Acho que a cada inverno, tow surfers estão puxando mais os limites, se arriscando mais em ondas grandes. Principalmente em Jaws, onde a onda quebra em uma bancada relativamente rasa e com uma força absurda. Essa minoria de surfistas está querendo ficar cada vez mais na parte crítica da onda, perto do tubo. É bom lembrar que quanto menos erros você cometer em Jaws, maior será sua chance de sobreviver.

Você já fez dupla com o Romeu, Carlos Burle, Danilo Couto e Sylvio Mancusi e aparentemente não possui um parceiro fixo. Quais são os pré-requisitos que um parceiro deve ter?
Você depende do seu parceiro desde o momento que chega no posto de gasolina. No momento estou sem parceiro. Meu parceiro Daniel Skaf está terminando seu mestrado na Califórnia e estará de volta ao Hawaii no final do ano. Estou sempre treinando junto com o time do Brasil em Oahu e Maui. É bom lembrar que surfar ondas grandes como Waimea, Sunset e Pipeline é essencial para o tow-in. Saber fazer CPR, salvamento em alto-mar e ser treinado em primeiros socorros também. O parceiro tem que nadar muito bem, caso o seu jet-ski quebre no outside. Você e seu parceiro tem que salvar as próprias vidas e se der a do jet também. Ter um parceiro calmo, que saiba julgar as ondas boas da série é fundamental. Enfim, não adianta só saber surfar ou puxar. É necessário um entrosamento em todos os momentos e em qualquer situação. Um bom parceiro de confiança vem de um trabalho de time de alguns anos de prática.

Você acha que Jaws é realmente a melhor onda para tow-in?
Acho que existem várias outras ondas boas para o tow-in, como Chile, África do Sul e Tahiti. Jaws é simplesmente um outro nível de onda para o tow-in. Existem várias formas de descrever Jaws. É um lugar mágico, que você se apega com muita facilidade, ainda mais depois de surfar ondas da vida e tomar bombas da vida. Se você realmente tiver consciente em pegar um tubo de 20 pés não existe lugar mais cascudo que Jaws. Você dropa em uma concha cheia de bumps de 18 a 35 pés que quer te engolir o tempo todo. Se vacilar a qualquer momento pode lhe custar a vida. Não só pode bater no fundo, afogar-se ou tomar uma lipada que pode te esmagar os ossos.
Que conselhos você dá para alguém que deseja encarar Jaws?
Respeite o lugar e o localismo. Lembre-se de checar todo o seu equipamento, principalmente seu jet-ski, sua prancha, seu pé de pato. Você deve fazer um check list de tudo que poderá precisar em situações de emergência em alto-mar. Agradeça a Deus por estar surfando Jaws e lembre de rezar pela sua vida. Prepare seu pulmão, as pernas e se prepare pra tomar o maior caldo da sua vida. Se prepare para subir nas pedras pra pegar sua prancha. E se você for um cara um pouco mais cauteloso talvez tenha sorte de não ir pegar o resto do seu jet-ski nas pedras.
Para saber mais sobre o trabalho de Edison, acesse o site Surfhawaii4u.com ou envie mensagem para [email protected] .
