Shaper Henry Lelot produz pranchas para Tops brasileiros e estrangeiros. Foto: Divulgaçao.

Durante o último WCT no Brasil, constatei uma tendência na diminuição do tamanho das pranchas, que estão cerca de uma polegada menor.

 

Por exemplo: Andy Irons (1,80m e 77kg), que usava direto o tamanho 6´2, veio ao Brasil no ano passado com uma 6´1 ½ do Chilli.

 

E neste ano ele trouxe uma JS 6´1, além de encomendar comigo uma 6´1 modelo Hyper com rabeta Round Squash, medindo 18 5/8 x 2 ¼ – medidas básicas de sua preferência.

 

Quando Irons voltava de sua primeira bateria durante o WCT, ele me viu com sua prancha na mão e começou a avaliá-la com bastante

interesse, perguntando inclusive sobre o bloco.

 

A resina era de epoxy e o bloco de poliuretano da marca brasileira Teccel. Pela expressão, ele parecia bastante impressionado com o nível do shape, a qualidade e o acabamento.

 

?Creio que esta é a melhor prancha que você já fez para mim?, disse Irons. Foi extremamente recompensador ouvir essas palavras de um dos maiores ícones da história do surf mundial.

 

Assim como ele, Mick Fanning, que também usava 6´0, vem tendo performances incríveis nos últimos eventos usando 5´11 x 18 x 2 3/16. Por ser um pouco mais leve e menor (70 kg), as pranchas de Fanning são mais finas e estreitas do que as de Bobby Martinez (1,75m x 76kg), por exemplo, que prefere o tamanho 6´0 x 18 3/8 x 2 5/16.

 

No último ano, fiz uma Hyper 6´0 rabeta round-round, medindo 18 ¼ x 2 ¼ para Slater, mas como ele não veio, passei para o Chris Ward (1,74m x 75kg) que tem tipo físico parecido ao de seu compatriota.

 

Já o Taj Burrow (1,65m x 65kg), muito simpático, lembrou da final no WCT no Rio de Janeiro em 1997, protagonizada por Occy e Kelly Slater. O australiano surfou com uma  prancha minha. Sempre quis fazer uma prancha para ele. Então, caprichei usando o método CDS combinado com o DSD Surfcad para fazer uma Wave Killer 5´9 round squash medindo 18 x 2 1/8. 

 

Notei que essa tendência de redução de uma polegada no tamanho médio das pranchas usadas pelos Tops do WCT vem juntamente com uma sutil alteração na posição do wide point (centro da prancha), jogado para frente, justamente em torno de uma polegada.

 

Acredito que o objetivo não é alterar a base do surfista, mantendo-o confortável sobre uma prancha em menor tamanho. Atualmente, o pé dianteiro dos surfistas está um pouco mais à frente do meio da prancha, justamente na posição onde presumo que o wide point esteja agora sendo colocado.

 

Apesar de falar-se muito em novos conceitos, mais uma vez as triquilhas foram unanimidade durante o WCT. Somente Joel Parkinson usou uma prancha diferente do convencional, uma Quad (quatro quilhas) com concave na base das quilhas laterais internas.

 

Mas, ele surfou com ela apenas na primeira fase, que não é eliminatória. Quando o jogo esquentou, ele logo pegou sua triquilha. Raramente no Brasil os atletas usam prancha maior, sobretudo após Slater abrir o caminho ao surfar as ondas mais fortes do tour com uma abordagem mais crítica, dropando atrasado e cavando no crítico para entubar mais profundo e por mais tempo.

 

Então passou-se a buscar  uma racionalização do quiver. Segundo o shaper havaiano Jeff Bushman, caras que usavam 6´8 hoje pedem 6´3. Ou seja, as novas mini-guns, quando muito, são apenas de quatro a seis polegadas maiores do que as pranchas shapeadas para o dia-a-dia.

 

Salvo os casos daqueles que desejam surfar ondas realmente grandes, como Sunset acima de 8 pés.

 

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Andy Irons extrapola durante o WCT em Imbituba (SC). Foto: Aleko Stergiou.

Na última década, não há como negar que vigorou o fundo single to double concave, também conhecido como tri-concave, lançado por Al Merrick há cerca de 15 anos nas pranchas de Kelly Slater.

 

O modelo foi unanimidade por bastante tempo. Porém, hoje está sendo usado somente nas pranchas para ondas pequenas. Com base nos critérios de julgamento, os melhores shapers do mundo desenvolveram novos conceitos e recentemente surgiu um novo modelo de bottom, atualmente mais usado no WCT.

 

Flat no bico, com suave concave no pé da frente, partindo para um ?ve? concave (concave invertido em forma de ?ve?, sem aplicação do double concave) entre a base com profundidade máxima entre as quilhas, tornando-se flat na ponta da rabeta.

 

Ele permite maior drive e uma prancha que desgarra com mais facilidade, sobretudo nas inversões de direção em áreas críticas da onda, especialmente no ?tail lip slide? – bastante valorizado nos últimos anos de acordo com os critérios de julgamento.

 

À primeira vista, não parece ser uma grande diferença, pois é muito sutil. Apenas parece que o concave não é tão profundo, mas se medir na altura da longarina, notará que ele tem a mesma profundidade de sempre, porém uma superfície mais plana, que permite deslizar mais fácil em qualquer direção

 

Quem ler a edição especial de pranchas da Surfing Magazine de janeiro passado, constatará que o EPS e o epoxy são hoje as grandes estrelas na fabricação de pranchas mundialmente.

 

Podemos mencionar a surftech com a tuflite e a TL2, seu novo lançamento, a Salomon com a sua S-core, Aviso combinando carbono e epoxy, além de inúmeros fabricantes fazendo pranchas custom made usando EPS (poliestireno expandido) ou XTR (poliestireno extrudado) laminadas com resina epoxy.

 

Caso da Rusty e da Firewire, do nem tão conhecido shaper australiano Bert Burger, que ganhou o título de shaper do ano pela Surfing Magazine com sua prancha com longarina nas bordas, que nada mais é do que uma prancha custom made em EPS laminado em epoxy, assim como as demais.

 

A diferença é a longarina aplicada nas bordas e não no meio longitudinal da prancha. Teoricamente nós teremos uma prancha ainda mais leve e flexível, características que, quando em excesso causam efeitos colaterais na performance da prancha, difíceis de resolver.

 

Após cerca de oito anos testando minuciosamente esses materiais, concluí que o peso ideal não é o peso mais leve, que até prejudica a performance assim como uma prancha pesada também faz.

 

A densidade interna é algo extremamente importante em uma prancha, garantindo drive, power, estabilidade e segurança, a exemplo das pranchas de tow-in feitas com materiais mais densos para que a prancha atinja um peso maior. 

 

Particularmente, penso que o EPS é pouco denso e muito flexível. Sua estrutura molecular ocasiona uma flexibilidade extrema que precisa ser controlada pela camada de laminação.

 

A princípio parece viável, mas existe um break point em que a laminação atinge o flex ideal, mas o EPS não acompanha vibrando demasiadamente dentro quando a pressão e a força da ondulação são um pouco maiores, ocasionando alterações no timing da prancha, como um sentimento de inércia em mudanças de direção mais drásticas.

 

Além disso, a flutuação extra que proporciona o EPS é uma faca de dois gumes: se em ondas pequenas é uma vantagem, em ondas mais fortes coloca o surfista sempre à frente do ponto crítico ocasionando uma extrema dificuldade de adaptação aos critérios de julgamento, uma vez que as manobras tendem a ser realizadas em um ponto sempre à frente da área crítica da onda, refletindo diretamente nas notas do atleta.

 

A exceção ocorre em ondas pequenas e fracas, onde a performance desse tipo de prancha leva vantagem por flutuar mais, proporcionando maior desenvoltura na onda. Porém se a prancha estiver leve demais o surf fica sem pressão.

 

Para quem é apenas um freesurfer e não está bem preparado fisicamente, a idade avança e deslocamentos do ombro começam a aparecer.

 

O EPS é uma opção interessante, mas tem o problema de manutenção que é preocupante, pois trata-se de uma tecnologia relativamente nova e poucos são especializados. Como o EPS não é compatível com a resina poliéster e derrete, o conserto só pode mesmo ser feito em epoxy.

 

Afirmo tudo isso com base em oito anos de testes não somente com atletas brasileiros, mas também contando com o feedback de caras como Andy, Slater, Joel Parkinson, Occy. Todos foram unânimes com relação a cada afirmativa citada.
 
Realmente só vi Burrow usar prancha de epoxy, sua premiada firewire; mas assistindo-o surfar, somente reforcei meu pensamento de que esse não é o caminho. E se Burrow estivesse buscando mais drive em sua linha, agora então nem se fala.

 

Durante o último WCT no Brasil, que assisti ao vivo, Burrow ficava de um lado para o outro esperando o momento de partir para o lip novamente. O surf limpo, sem excesso de movimentos, é mais valorizado no atual critério, muito embora o seu talento acabe muitas vezes por ofuscar essa deficiência do seu surf. Mas, nada como o tempo para colocar as coisas no seu devido lugar.   
   
Minha aposta é a combinação do tradicional poliuretano com a nova resina epoxy, que denominei Combo e já testo há mais de um ano. Mas, deixarei para falar sobre isso em uma nova oportunidade.

 

Para entrar em contato com o shaper Henry Lelot, envie uma mensagem para  [email protected] .

 

 

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