Hang Loose Pro Contest

Praia lotada

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Hang Loose Pro Contest é atração na Joaquina, Florianópolis (SC). Foto: © WSL / Smorigo.

 

Mais um dia para relembrar o campeonato inesquecível de 1986, com a Praia da Joaquina ficando igualmente lotada com trânsito parado desde a Lagoa da Conceição na quarta-feira e muita gente seguindo a pé para assistir a estreia das principais estrelas do Hang Loose Pro Contest 30 Anos em Florianópolis. O campeão Gabriel Medina centralizou as atenções e não decepcionou a torcida, arriscou os aéreos e surfou boas ondas para vencer a bateria que abriu a segunda fase. E o jovem catarinense Mateus Herdy, vencedor da triagem da Associação de Surf da Joaquina (ASJ), confirmou uma dobradinha brasileira sobre o indonesiano Oney Anwar e o sul-africano Slade Prestwich nas direitas e esquerdas de 3 a 4 pés na Joaquina.

“É uma sensação incrível ter tanto apoio da torcida aqui. O surfe não para de crescer, agora temos dois campeões mundiais e um monte de surfistas talentosos, então por isso que vem tanta gente prestigiar”, disse Gabriel Medina. “É demais ver tantas pessoas nos assistindo. Eu gosto muito de surfar aqui na Joaquina. Tenho vitórias aqui, na Praia Mole e na Vila (Imbituba), mas o que eu mais gosto é da ‘vibe’ do pessoal aqui. Os fãs são apaixonados pelo esporte e esse campeonato é especial. Meu pai me contou que foi o primeiro campeonato grande no Brasil que trouxe vários nomes de peso, como o Occy (Mark Occhilupo) e o Tom Carroll, então é muito legal fazer parte dessa história”.

O jovem Mateus Herdy, de apenas 16 anos de idade, também ficou impressionado com a enorme torcida que lotou a praia na quarta-feira. “Nunca vi tanta gente em um campeonato aqui na Joaquina. Realmente, o Medina atrai muita gente, porque é claro que todo mundo veio aqui pra ver ele. Para mim, foi uma experiência fenomenal. Toda bateria é difícil, mas quando você está com um campeão mundial, a pressão é muito maior. Então, eu tentei focar no meu surfe e deu tudo certo”.

Se na quarta-feira a praia lotou para ver principalmente Gabriel Medina em ação na Praia da Joaquina, na quinta-feira os dois campeões mundiais vão se apresentar em baterias seguidas. Adriano de Souza mora em Florianópolis e vai fechar a segunda fase no quarto confronto do dia, estreando no Hang Loose Pro Contest 30 Anos contra o taitiano Mihimana Braye, o norte-americano Parker Coffin e o neozelandês Ricardo Christie. E Medina entra na seguinte, abrindo a última rodada de baterias formadas por quatro competidores, junto com outro top do CT, Wiggolly Dantas, o também paulista Thiago Camarão e o australiano Soli Bailey.

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Gabriel Medina sobrevoa a Joaca. Foto: © WSL / Smorigo.

GARANTIDOS NO CT 2017 – Wiggolly Dantas passou em segundo lugar no confronto vencido pelo vice-líder do WSL Qualifying Series, Connor O´Leary. O australiano ficou muito perto de conseguir sua vaga na elite no ano passado, mas agora já está garantido entre os top-34 que vão disputar o título mundial de 2017, com os 19.775 pontos que ele já tem no ranking.

“Eu acho que todos que correm o circuito procuram conseguir uma consistência nos resultados. No ano passado, eu tive alguns resultados bons, mas nenhuma vitória importante como esse ano (QS 10000 de Ballito na África do Sul)”, disse Connor O´Leary. “A bateria que venci agora foi difícil. Eu estava com a prioridade (de escolha da próxima onda), mas deixei o Wiggolly (Dantas) pegar aquela onda que tirou um 6,83 e na minha cabeça pensei que, se ele for para o primeiro lugar vou precisar de quatro e pouco. Aí tive a sorte de pegar uma onda boa e tentei surfar o melhor que pude para tirar uma nota alta, então fiquei feliz por conseguir”.

VITÓRIA CATARINENSE – Diferente do australiano, que foi o primeiro a subir os recordes do campeonato na quarta-feira, para nota 8,60 e 15,10 pontos, o número 3 do ranking, Joan Duru, da França, outra novidade já confirmada para o CT 2017, não achou as ondas na bateria anterior e ficou em último contra três brasileiros. Na briga pelas duas vagas para a terceira fase, o catarinense Luan Wood e o paulista Thiago Camarão deixaram o capixaba Krystian Kymerson em 33.o lugar no Hang Loose Pro Contest 30 Anos.

“É um prazer imenso competir em casa. Sou catarinense de Floripa mesmo, então tenho uma torcida grande aqui”, disse Luan Wood, que conquistou a primeira vitória catarinense na quarta-feira. “Fico muito orgulhoso de estar representando a minha cidade e espero continuar vencendo as baterias. As condições do mar estão parecidas com as de ontem (terça-feira), tem boas ondas e estou feliz por ter passado em primeiro na bateria”.

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Ian Gouveia segue firme na luta por uma vaga na elite mundial. Foto: © WSL / Smorigo.

TOPS DA ELITE – Além de Medina, outra estrela do CT que brilhou na quarta-feira de praia lotada na Joaquina foi o mais jovem integrante da elite, Kanoa Igarashi, 19 anos. O norte-americano mostrou um surfe moderno para fazer novos recordes no QS 6000 de Florianópolis. A melhor onda foi a última que ele surfou e valeu nota 8,83, para totalizar 15,93 pontos. Dois brasileiros ficaram disputando a segunda vaga da bateria e o paulista Victor Bernardo superou o local da Joaquina, Ronaldo Silveira, por 10,34 a 8,64 pontos.

“Estou muito feliz por estar no Brasil de novo”, disse Kanoa Igarashi, que no ano passado venceu uma etapa do QS 6000 na Bahia, resultado que garantiu sua classificação para o CT 2016. “Eu gosto muito de competir aqui, as pessoas são bem animadas e tem o melhor açaí do mundo. Estou com um grupo de apoio que está me ajudando muito, como o Jake Paterson, Stephen Bell, Tom Whitaker, além dos meus parceiros de surfe. Como sou muito jovem (19), é muito legal receber tanta informação de pessoas tão experientes”.

Além de Gabriel Medina, Wiggolly Dantas e Kanoa Igarashi, outros tops da elite mundial da World Surf League que avançaram para a terceira fase do Hang Loose Pro Contest 30 Anos na quarta-feira foram os brasileiros Miguel Pupo, Jadson André, Alejo Muniz e Alex Ribeiro, os australianos Jack Freestone e Davey Cathels e o havaiano Keanu Asing, campeão do CT da França esse ano batendo Medina na final. Apenas dois ainda não estrearam no QS 6000 de Santa Catarina, o australiano Ryan Callinan e o atual campeão mundial Adriano de Souza.

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Bino Lopes também faz bonito na estreia. Foto: © WSL / Smorigo.

 
VAGAS NO G-10 – Na quarta-feira também competiram a maioria dos surfistas que estão na briga direta pelas dez vagas do Qualifying Series para a elite dos top-34 da World Surf League. A expectativa era maior para os brasileiros que estão no G-10 no momento. O primeiro a entrar no mar foi Jessé Mendes, que ocupa a última posição na lista e se classificou em segundo lugar na bateria vencida pelo australiano Mitch Crews.

Depois, o quinto do ranking, Ian Gouveia, da equipe Hang Loose, também passou em segundo, mas foi no sufoco, graças a uma interferência de remada do francês Jorgann Couzinet, da Ilha Reunião, no minuto final da bateria. Ele então caiu para último e o pernambucano Ian Gouveia ganhou a segunda vaga de presente em outra vitória australiana, de Mitch Coleborn.

“Eu fiquei bem calmo no final da bateria. Eu sabia que só teria uma oportunidade pra conseguir a nota e entrou um monte de ondas, mas acabei pegando uma errada e ainda bem que o Jorgann (Couzinet) fez um erro e avancei em segundo lugar”, disse Ian Gouveia. “Hoje (quarta-feira) foi um dia incrível e ver tanta gente nos apoiando. Normalmente, a gente viaja pelo mundo inteiro e é muito bom competir em casa, junto com a família e amigos. É um campeonato importante e se eu conseguir me classificar para o CT aqui será incrível para mim e para o meu patrocinador (Hang Loose) também”.

A bateria do número 6 do QS, Bino Lopes, começou em seguida e também foi decidida no último minuto. O baiano também estava perdendo, mas conseguiu uma segunda nota na casa dos 7 pontos massacrando uma onda com várias manobras para pular do terceiro para o primeiro lugar. Com isso, o francês Tristan Guilbaud passou em segundo e o neozelandês Billy Stairmand acabou eliminado junto com o paulista Flavio Nakagima, que estava na briga pelo título de campeão sul-americano da WSL South America.

“Rapaz, pressão é uma coisa que a gente sente em todo campeonato, mas aqui foi demais”, disse Bino Lopes. “E não é porque estou perto da classificação (para o CT) que estou sentindo mais pressão. Eu sempre entro em todos os campeonatos para vencer, sem me preocupar se vou ganhar ou não, então só foco na minha bateria e no que preciso fazer. Eu me sinto muito bem aqui, já competi muitas vezes na Joaca, tenho vários amigos em Floripa e isso me dá uma força extra para me dar bem no campeonato. Espero que dê tudo certo nos próximos dias”.

Bino Lopes e Ian Gouveia agora vão se enfrentar no oitavo confronto da terceira fase, na primeira bateria 100% brasileira do Hang Loose Pro Contest 30 Anos, contra dois tops da elite atual do CT, os paulistas Miguel Pupo e Alex Ribeiro. Outras duas terão três brasileiros contra um estrangeiro. A primeira, com Gabriel Medina, Wiggolly Dantas e Thiago Camarão enfrentando o australiano Soli Bailey. E a quarta, com os catarinenses Tomas Hermes e Willian Cardoso e o paulista Victor Bernardo, contra o japonês Shun Murakami.

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Yago Dora estabelece as maiores pontuações da etapa até o momento. Foto: © WSL / Smorigo.

 
RECORDISTA ABSOLUTO – A programação era realizar vinte baterias na quarta-feira, como no primeiro dia. No entanto, as condições do mar estavam boas, com esquerdas e direitas abrindo as paredes para várias manobras na Praia da Joaquina, que foi decidido realizar mais quatro. E logo na primeira delas, o catarinense Yago Dora pegou uma direita da série para executar uma série de batidas e rasgadas e ainda completou um aéreo incrível para ganhar a maior nota na Joaquina, 9,0. Depois, ainda conseguiu um 7,83 para se tornar o recordista absoluto do Hang Loose Pro Contest 30 Anos com 16,83 pontos de 20 possíveis. O potiguar Jadson André da elite do CT passou em segundo, eliminando o taitiano Mateia Hiquily e o australiano Kalani Ball.

“A onda (da nota 9,0) nem parecia muito boa quando entrei nela, mas ela ficou mais vertical no inside e decidi arriscar um aéreo, depois emparedou de novo e conseguir fazer mais umas batidas forte pra finalizar”, contou Yago Dora, que ocupa a 26.a posição no QS e pode entrar no G-10 com um bom resultado no Brasil. “Depois de viajar pelo mundo inteiro durante o ano, não tem nada melhor do que competir em casa, junto com todos os amigos e família. Está todo mundo se divertindo aqui e espero conseguir um bom resultado para subir mais no ranking”.

O QS 6000 Hang Loose Pro Contest 30 Anos está sendo realizado com patrocínio da Hang Loose e apoio do Governo do Estado de Santa Catarina / Secretaria de Turismo, Cultura e Esporte, através do FUNDESPORTE, e da Prefeitura Municipal de Florianópolis, além da Mini Kalzone e lojas J Bay e Tent Beach. O evento é homologado e supervisionado pela WSL South America como 46.a etapa do WSL Qualifying Series 2016, com realização da Associação de Surf da Joaquina (ASJ), divulgação da Rede Atlântida FM, site Waves e transmissão ao vivo pelo www.worldsurfleague.com.

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Dia de praia lotada na Joaca. Foto: © WSL / Smorigo.

 

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.