“Um tsunami?, ?a onda sem fim?, ?um dia meus filhos vão falar que o pai deles surfou na Amazônia?, ?inacreditável, a onda é perfeita?. Esses foram apenas um dos comentários feitos por Capilé, Dê da Barra, Jon Rose e Masatoshi Ohno, respectivamente, numa expedição espetacular na pororoca do rio Araguari, Amapá.
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Como esperado, no mês de março acontece o surgimento do equinócio, alinhamento do sol, lua e terra, quando o dia tem a mesma duração da noite. Neste período, as marés se movimentam com mais força e a grande amplitude de maré faz com que o encontro das águas fique cada vez mais intenso.
Tudo começou com a mega produção de um documentário / comercial para a montadora Nissan, do Japão, numa campanha para o modelo X-Trail. No mês de janeiro, realizamos uma expedição de pré-produção apresentada aqui no site Waves e agora as peças foram encaixadas.
Mais de 60 pessoas, uma tonelada e meia de equipamentos, três carros vindos do Japão, três grupos de trabalho (brasileiros, japoneses e americanos) e três surfistas fizeram história na onda mais longa do mundo, com a maior produção já realizada no surf da selva.
A produtora americana Transition Productions ficou responsável pela superprodução, que reuniu o surfista norte-americano Jon Rose, o japonês Masatoshi Ohno e eu.
Fizemos cenas de cinema gravadas em 16 e 35 milímetros, como também digital. Encenamos em locações de selva, palafitas, igarapés, dirigindo o carro e principalmente na pororoca, onde tivemos uma embarcação própria para nossas gravações.
A equipe atuante no projeto foi composta pelos melhores profissionais de cada área. Destaque na cena aquática para João Capilé e Dê da Barra no resgate com jet-skis e ao experiente câmera de água Michael Pricket.
O entrosamento das equipes e a vibração positiva de todos, fez com que tudo conspirasse a favor durante os 10 dias de trabalho. Até nos momentos mais extremos, arrumamos soluções para um final feliz.
A pororoca surgiu no primeiro dia para o mapeamento das bancadas, numa operação em que a comissão de frente partiu com mais antecedência abrindo as portas para a produção principal.
Luizinho da equipe ?Surfando na Selva?, João Capilé, Dê da Barra, corpo de bombeiros e apoios tiveram a incumbência de preparar o terreno.
?A equipe de resgate foi enviada um dia antes, junto com um sargento e um soldado do corpo de bombeiros, ambos realizaram o mapeamento da área, conhecimento da onda e marcação de pontos de referência na selva. Tudo na medida em que a onda se modificava. O objetivo era dar dinamismo e eficiência ao projeto?, diz João Capilé, tow- surfer e especialista em resgate com jet-ski.
?Foi uma experiência muito boa surfar uma onda no rio. Ela vem em forma de um tsunami, permitindo que o surfista permaneça um longo tempo na onda com diferentes seções e variando o tamanho e direção durante muito tempo?, relata Dê da Barra.
?Gostaríamos de aproveitar o espaço, para agradecer o agrupamento de busca e salvamento do corpo de bombeiros do estado do Amapá, que realizaram um belo trabalho em parceria com o Salva Surf e Resgate?, conclui Dê.
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Uma cena chamou a atenção de todos no primeiro dia. O Zeca, nosso melhor piloto, mostrou porque gosta de adrenalina. Em 1997 ele ganhou uma prancha de Guga Arruda, na primeira expedição na pororoca. Em 2005, deixei um pranchão e hoje depois de alguns toques e treinos ele pegou sua primeira onda.
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O segundo dia de onda foi impressionante, o sol continuou brilhando e o rio estava liso e as ondas quebravam com 2 metros sólidos, com direitas e esquerdas intermináveis. Pela primeira vez pude surfar com mais duas pessoas executando manobras e fazendo uma apresentação em grupo digna de filme.
Jon Rose, que já surfou na Severn Bore, a pororoca inglesa, já conhecia o mecanismo da onda e facilmente se adaptou. Já o japonês Masatoshi Ohno, estava um pouco assustado, mas aos poucos pegou o ritmo e com um estilo polido e radical se soltou para ganhar aplausos da equipe japonesa nas lanchas que corriam da onda.
Sucesso principalmente alcançado pelos novatos no surf na selva. ?A equipe de resgate foi muito eficiente neste trabalho. Esta é uma operação de alto risco e grande grau de dificuldade, pois a selva não permite erro?, diz Dê da Barra.
Foram utilizados todos os ângulos possíveis para captar a fúria da mãe natureza. Desde helicóptero, lanchas, jet-skis, câmeras de mão e na prancha. Porém, o terceiro dia de surf foi prejudicado pela interminável chuva. Nesta época do ano é inverno no hemisfério Norte e, na Amazônia temos a característica de chuvas ao invés de frio.
?Um dos lugares de resgate mais difícil que eu já trabalhei. Diferente de tudo que já operei?, comenta Capilé.
O cenário mudou rapidamente, a onda cresceu e o clima ficou ainda mais hostil. Com a pororoca não se brinca. A primeira sessão estava com mais de 2 metros de face. Masatoshi e Jon não conseguiram permanecer por muito tempo na onda, revezando em curtas sessões. Acabei ficando por mais de 17 minutos numa esquerda que parecia uma pista. Quando a onda cresce, a velocidade aumenta e o power surf aparece.
Na transição de conexões da onda, fui interferido por seis lanchas que cruzaram meu caminho para fugir do banco de lama. A esteira é um dos principais inimigos do surf na pororoca, e foi na quarta esteira que levei o azar da minha prancha travar e eu chapar naquele paredão.
Até aí tudo bem, mas o que se tornou mais perigoso foi que não uso cordinha pra surfar na selva, devido os galhos de árvores, mururés (plantas aquáticas) e animais. A prancha foi embora e eu fiquei boiando atrás, com intermináveis ondulações que formam e desformam solitárias no meio do rio. Sem a prancha me torno vulnerável, com constantes riscos de encontrar redemoinhos, fortes correntezas e por muito azar alguns peixes grandes.
Segundo Zeca, nosso melhor piloto de voadeira, ele tentou fazer o resgate após o incidente, mesmo sabendo que essa função era do jet-ski. Percebendo o risco que corria, ele fez uma manobra de ataque à onda, porém, sendo desautorizado pela produção a continuar o rumo.
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Apesar de saber bem o que faria, poderia estar colocando em risco a tripulação e possíveis perdas de equipamentos. Com isso, fiquei alguns minutos boiando e nadando no meio do rio em fúria. Até avistei o Capilé com o Masatoshi, gritei, mas eles não me viram. Eu parecia um pedaço de pau no rio, pois minha roupa na ação era preta, fato que dificultava mais o resgate. Depois de ver que o jet passou batido, resolvi sair nadando em direção a margem.
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Naquele momento pensei bastante e lembrei de um grande amigo, que tinha feito essa longa nadada para a sobrevivência, há exatamente oito anos atrás. A inspiração vinda de Marcelo Bibita me deu forças para seguir para o barranco, mesmo estando longe e cansado, após uma longa jornada de surf.
Depois de 20 minutos lutando contra as ondulações, pedaços de pau, plantas e correnteza, ouvi um barulho de motor por perto. Era a lancha dos bombeiros fazendo a busca, mas não conseguia ver nada, pois parecia um caldeirão de feijoada fervendo.
Em seguida, o jet-ski com o bombeiro Tavares fez uma aproximação, mas ele parou a uns 70 metros de mim e ficou me procurando. Loucura! Gritei muito pra ver se ele não me ouvia. Mas a estratégia deu errado e ficava mais cansado com isso.
Pelo que percebi, estava quase impossível dele me achar. É sinistro, ver o resgate e não ser visto. O helicóptero fez uma tentativa nos primeiros cinco minutos, mas a forte chuva impedia o sobrevôo. Fudeu! Beirando os 30 minutos, plantas surgiram para dificultar a natação. Foram momentos de muita reflexão e lembranças de ações já ocorridas naquele mesmo rio, porém com pessoas diferentes.
Naquela hora, vendo o bombeiro no jet-ski, tive a visão do meu irmão Likoska, fotógrafo da equipe ?Surfando na Selva?, quando em 2005 ficou à deriva com sua prancha por meia hora.
Naquela ocasião, Lik jogava sua prancha para cima, a fim de chamar a visão do resgate. Não deu outra, sem a prancha, tirei lycra e comecei a arremessar para cima. Era a única saída naquele momento, pois ainda estava envolvido por ondulações intermináveis.
Foi então que o helicóptero veio em minha direção. O piloto sobrevoou a minha volta, sinalizando pro jet a minha localização. Em poucos segundos estava sendo resgatado. Ufa! Caracas, mais um perrengue pra história. Logo saímos com o jet a toda velocidade para buscar a minha prancha e continuar nas filmagens.
Pelo rádio as embarcações foram avisadas do salvamento e questionadas por onde estava a minha prancha. Ninguém sabia de nada. O certo foi que ela foi arrastada por centenas de metros e depois desapareceu. Foi minha primeira prancha perdida na Amazônia.
Em poucos instantes a produção acenou para a prancha com uma câmera no bico. Era uma 6?6, estreita e com pouca parafina. A adrenalina estava tão grande que não pensei duas vezes e fui surfar. Já na onda com a rapaziada, o clima ficou mais tranqüilo e fizemos as últimas cenas do documentário.
Na minha 40ª temporada de pororoca, me vi navegando com o Zeca, solitários após a tormenta num rio extenso ao olhar de uma gigante tempestade que se formava na foz do rio em nossa direção. Tudo para achar a prancha, que não foi encontrada.
Um presente para os três pretinhos, lenda da pororoca, que vem proporcionado a mim e a todas as equipes, momentos de muita alegria, aventura e emoção. ?Sempre temos que deixar alguma coisa para os meninos. Dessa vez foi a prancha do Serginho?, diz Márcio Pinheiro, gerente de logística da equipe.
Já a recepção calorosa no estado mais preservado do Brasil chamou a atenção de muitos integrantes da equipe.
?O povo amapaense nos recebeu muito bem, de uma forma em que poucas vezes em minha vida fui recebido. Gostaria de citar que todo entrosamento de toda equipe foi algo sobrenatural, pois tudo se encaixou perfeitamente, sem nenhum problema de relacionamento humano, panes de motor e entrosamento mútuo em todas as áreas, coisa muito difícil de acontecer num grupo grande de 60 pessoas. Méritos de uma produção muito competente?, finaliza Capilé.
Muitas ações e inesquecíveis histórias vividas em grande proporção num curto período de tempo. Simplesmente agradeço a todos e parabéns. Muito obrigado.
Auera Auara
Agradecimentos especiais Ocean Films, Transition Productions, Nissan do Japão, TBWA, Pyramed Film Red, Sérgio Souza, Goofy, OGIO, Governo do Estado do Amapá, ONG Maré Amazônia, Salva Surf, Corpo de Bombeiros do Amapá, Polícia Militar do Estado do Amapá, Batalhão Ambiental da Polícia Militar do Estado do Amapá e a toda equipe Surfando na Selva.


