Foi assistindo pela internet à corajosa performance do potiguar Ítalo Ferreira no Fiji Pro, em junho passado, que me lembrei de seu conterrâneo Marcelo Nunes. Explico, os floaters psicopatas com os quais Ítalo estava finalizando suas ondas, sobre coral quase seco na seção da bancada de Cloudbreak apelidada de Shish Kebabs – o nosso churrasquinho grego, feito com tiras de carne – me remeteram a um floater que eu presenciara 13 anos antes, em 2002, ao vivo, de Marcelo Nunes, também numa etapa do Circuito Mundial, o Quiksilver Pro Tavarua, em Fiji, só que na bancada ainda mais exposta de Restaurants.
Havia um paralelo bem definido entre as performances dos dois, que mesmo sabendo que floaters valem muito pouco na avaliação dos juízes, não economizavam na tentativa de somar um pouco mais para poder seguir adiante na competição. Demonstrações de “raça” sempre foram uma característica dos brasileiros no Tour, muitas vezes permitindo que surfistas limitados tecnicamente superassem seus adversários na mais pura vontade. Floaters sobre escassos poucos centímetros de água separando o surfista de uma potencial grave lesão é para quem está muito afim.
Marcelo, ao contrário de Ítalo, em sua época de Circuito Mundial tinha dificuldade nos tubos, e não passou do segundo round. Também nem me lembro se o tal floater foi desferido durante uma bateria ou no freesurf. O que ficou guardado na minha memória foi a sensação de antecipação de que ele iria se lascar todo no coral aterrissando junto com o lip daquela maneira, e o alívio ao ver que ele conseguira completar a maluquice. Ufa. Parecido com o que eu estava experimentando acompanhando o esforço louvável de Ítalo, tentando acrescentar alguns décimos às suas notas com uma última manobra quase suicida em todas suas ondas. Torcia por sua pontuação, mas mais que tudo rezava para ele não deixar pedaços de bife grudados no coral.
Não sei se floaters sobre bancadas rasas são uma especialidade potiguar, mas o fato é que de repente, do nada, eu estava me perguntando: por onde andara o Nunes? O que me levou a logo em seguida ampliar o alcance da interrogação, à medida que ia lembrando de seus companheiros brasileiros de Tour de então. Que rumo teriam tomado em suas vidas representantes brasileiros no WT que num passado recente sempre estavam presentes na mídia do surf e de quem atualmente eu não recebia mais informações, ou apenas alguma esporádica, já há algum tempo? Onde estariam morando, o que estariam fazendo caras como Rodrigo Dornelles, Guilherme Herdy, Neco Padaratz, Peterson Rosa, entre outros?
Foi ai que decidir recorrer ao Facebook para checar o que eu poderia encontrar sobre alguns desses valorosos surfistas brazucas que antecederam a geração Brazilian Storm. Posso dizer que os resultados me surpreenderam. De um lado, por achar que alguns dos nomes “investigados” estariam mais engajados na utilização das mídias sociais, e, de outro, pelas informações reveladas em si. Vale notar que minha intenção não foi a de apurar a fundo o paradeiro e atividade desses surfistas. Numa matéria com essa finalidade, outros recursos de pesquisa poderiam, e deveriam, ser utilizados para se chegar a informação desejada. Aqui a intenção foi assumir a posição de um fã do esporte que, de repente, ao se lembrar de um ídolo do passado, ficasse curioso para se atualizar sobre ele com uma ajuda do Facebook e até mesmo do Google. Acompanhe.
Já que o Marcelo Nunes foi o primeiro de quem me lembrei, decidi começar por ele, ainda que ele tenha sido o último no ranking, em 46º lugar, entre os brasileiros no ano que tomei como referência. Na sequência, segui pela ordem de classificação final do WT de 2002, a saber Peterson Rosa (19º colocado), Neco Padaratz (21º), Flavio Padaratz (27º), Renan Rocha (33º), Fabio Gouveia (35º), Guilherme Herdy (37º), Paulo Moura (40º), Rodrigo Dornelles (44º), Victor Ribas (45º).
Na página do potiguar Nunes fiquei sabendo que ele mora agora em Capbreton, Aquitaine, na França, e é casado com Virginie Nunes, com que tem um filho, desde 2013. A profissão listada é Pro Surfer, em inglês mesmo, mas não fica claro se ele é patrocinado por alguma marca e/ou compete. Também não é mencionada nenhuma outra atividade profissional. No site listado – http://Mnunes.com.br – somente o aviso “aguardando publicação de arquivos”. Na sua linha do tempo, fotos da família, dele surfando, de remadas de stand up, comentários dele em francês nos posts compartilhados e o sorriso de sempre, de quem segue de bem com a vida.
Pode ser incompetência minha, mas não encontrei uma página do Peterson Rosa no Facebook. Busquei também por Rosa Brothers e outras alternativas sem sucesso. O que apareceu foi uma página “automaticamente gerada com base no que os usuários do Facebook estão interessados”, contendo informações sobre o “Animal” retiradas da Wikipedia, a qual indica que tem mais gente buscando ele. Para não ficar sem nenhuma pista do paradeiro do Peterson, apelei pro Google, onde em 0,50 segundos foram listadas impressionantes 13.400.000 resulted. O link mais recente sobre ele, de 2 de maio de 2015, conduzia ao blog “De Olho nas Ruas”, do fotojornalista Guto Kuerten, publicado no Diário Catarinense.
Sob o título “Peterson Rosa desloca ombro na praia Mole”, Guto contava que “Num tubo insano numa esquerda da praia Mole, em Florianópolis, o surfista profissional Peterson Rosa, 40 anos, deslocou o ombro depois de ser engolido pela onda nesta manhã de sábado. O ídolo do esporte brasileiro sentia muita dor e conseguiu sair da água com dificuldade e na areia foi socorrido por amigos e banhistas. Calmo e consciente, disse ser a primeira vez que deslocou o ombro. Ele surfava no canto esquerdo da praia. Eu fotografava para o outro lado evitando o contraluz. O mar pesado de um metro e meio a dois. O experiente surfista conhecido pelo seu surf potente e de atitude foi surpreendido pela onda. Era um tubo cavernoso. Ele estava lá dentro intocado (sic). Pensei que ele iria sair mais foi engolido pela onda rapidamente, disse um surfista que estava no momento da queda. O surfista foi levado ao posto do guarda-vidas e recebeu os primeiros atendimentos, depois encaminhado ao SOS Ortopedia. Ele já colocou o ombro no lugar e passa bem. Em 1994, Peterson conquistou pela primeira vez o título brasileiro de surfe. Cinco anos depois, alcançou o bicampeonato. Em 1998, venceu a etapa da WCT no Rio de Janeiro, derrotando o então líder do ranking mundial, o australiano Michael Campbell. O inédito tricampeonato foi conquistado em novembro de 2000, ao vencer o SuperSurf na Praia da Vila, em Imbituba. Na ocasião, ficou a frente do potiguar Joca Júnior e do paulista Tadeu Pereira, segundo e terceiro colocados, respectivamente.”
Do Neco Padaratz, antes mesmo de ir visitar sua página no Facebook, eu já sabia, por um post recente dele mesmo, que o mais novo dos Padaratz havia sido convidado para representar o Brasil no Four Seasons Maldives Surfing Champions 2015. E também havia ouvido falar que ele estava morando em San Clemente e dando aulas numa escola de surf local. Realmente sua página confirmava essas informações, ainda que a empresa declarada para a qual trabalha seja a ASP e o local de residência Florianópolis.
Está lá também que Neco nasceu em 11/08/1976 e é atualmente casado com Ana Padaratz. Um endereço http://www.necopadaratz.blogspot.com.br, direciona para seu blog, mas o último post foi 4 de junho de 2012. Já num post de 27 de junho passado, compartilhado em sua linha do tempo por Morelli Alexandre, ficamos sabendo que Neco conta com o apoio da marca underground de San Clemente OutraCultura, que declara, em inglês: “Após ter sido abandonado por todas as grandes empresas Neco continua arrepiando em alto nível. OutraCultura está tentando ajudar Neco a manter seu sonho vivo. Ajude OutraCulutra a ajudar ele”. Seguem fotos de Neco surfando (muito bem), vestindo camisetas da marca e com sua prancha modelo Cordell CT3.
Num post do próprio Neco, de 31 de maio, onde aparece sorridente acompanhado de 4 pequenos pupilos, ele relata a conquista de “um 1º lugar, dois 2º lugares e um 3º, orgulhoso de estar fazendo um trabalho irado com esses novos talentos e construindo eles como meus soldados e de saber que o resultado está acontecendo e que hoje, a cada dia, aumentam as possibilidades de produzir a minha essência.”
De um irmão ao outro, chego a Teco Padaratz, o “sócio proprietário” da www.gateeventos.com.br, empresa produtora de eventos, palestras, workshops, shows. No post mais recente, de 9 de julho, o surfista profissional tornado empresário, palestrante e músico, apresentava um vídeo com as seguintes palavras: “Aproximadamente às 7:00h da matina, uns 1000 metros de altitude, temperatura 9 Cº, e um visual sem palavras… me lembrou o ‘Espírito do Mar’, uma canção feita com o mestre Christiaan Oyens, logo após sua primeira onda surfada na vida”. Dado o play, ele e o parceiro Paulinho Freitas executam ao violão uma música com o refrão: “Sonhar é simples para quem quer arriscar descendo as ondas”.
No momento em que chequei, o post contava com 2939 visualizações, 28 compartilhamentos, 114 curtidas e 19 comentários. Estranhamente, entre os que deram seus likes, nenhum dos seus ex-companheiros de Circuito Mundial. Da mídia surf reconheci 3 nomes, Luciano Burin, Tiago Brandt e o fotógrafo australiano Paul Sargent. Nos comentários um agradável surpresa, Tinguinha Lima parabenizando e desejando sucesso ao “irmão”.
Não sei se diretamente relacionado à falta de interação de figuras proeminentes do surf no seu post, como seria esperado, Gabriela, mulher de Teco, deixa o comentário abaixo na Linha do Tempo do marido: “Acho que já compartilhei esse post, mas não com esse comentário. Parabéns Teco Padaratz e Paulinho Freitas. Sei que muita gente não coloca fé no Teco como músico, pois acha que ele nunca deveria ter deixado o surf competição. Mas nem todo mundo sabe que o mais importante na vida não é fazer o que os outros querem mas sim o que você quer. Pense nisso e faça suas escolhas! Bom final de semana.!!!! Pronto falei”.
E avanço. Na página de Renan Rocha as surpresas são poucas. Ele trabalha na ESPN, mora em São Paulo e está solteiro. Só fiquei um pouco desconfiado da listagem dos membros da família, onde Sting Yi Huang aparece como irmão e Affonso Mattos e Wlamyr Rosa como parentes. Talvez por preconceito meu, não os reconheci como familiares do Renan. Mas quem sou eu para ficar dando palpite, melhor ficar quieto, vai que o Renan não gosta de eu estar me intrometendo onde não fui chamado e queira me dar um mata leão em nosso próximo encontro. Nos posts de Renan, os assuntos principais são a cobertura do Circuito Mundial, e suas amadas praias de Itamambuca e da Guarda.
Que Fabio Gouveia vinha se dedicado a shapear pranchas não era novidade para mim, mas foi somente ao checar suas páginas no Facebook que percebi o quanto ele realmente leva a sério esse ofício. Ao buscar por seu nome, três páginas diferentes são indicadas. Na Fabio Gouveia Shape & Design foi onde encontrei informações mais atuais. No seu post mais recente, de 16 de julho, o Fabuloso escreveu abaixo da foto de uma gunzeira vermelha encostada na parede de uma sala de shape “FGhandshape 8’1″ finalizada para o evento Mormaii de Ondas Grandes na Remada. Praia do Cardoso, Farol de Santa Marta, SC. ‘Janela’ aberta até 31 de outubro. Encomendas & infos: [email protected]”.
No ícone “Sobre”, no item “Visão geral da empresa”, ele explica descontraidamente: “Tchurma, essa é a página que uso para divulgar as pranchas de surf que faço, como também, fotos, vídeos, etc, relacionadas de uma forma ou de outra, às mesmas. Não costumo responder as mensagens escritas na parede {wall}, para isso enviem e-mail para [email protected], ou mensagem direcionada no face. Abraços a todos & obrigados. Fabinho”.
Na página Fabio Gouveia Atleta, o primeiro post que aparece na sua Linha do Tempo é do ano passado, mais exatamente de 11 de dezembro de 2014. Informa que ele já estava há três semanas no Hawaii e conta um pouco da temporada até aquele momento. E também faz referência à sua dedicação aos shapes: “Com um quiver feito de próprio punho, são dez pranchas entre uma fish 5’6” biquilha e uma Waimea gun 10’6””. Nesta página pode-se encontrar também uma série de informações biográficas de Fabinho, desde seus inícios nas competições até seus atuais patrocinadores.
A terceira página disponível para consulta, Fabio Gouveia Surfboards, está em branco, só constando o endereço de contato para pedidos de pranchas e o do site www.fabiogouveia.com , com também acontece nas duas anteriores. Na página de abertura do site, bem completo e dedicado principalmente à divulgação de suas pranchas, a primeira frase que se lê diz: “Shape, minha segunda paixão dentro do surf. A primeira são as ondas, é claro!!!!”. Com o bom humor característico do paraibano residente em Floripa, a parte mais divertida são os nomes dados aos modelos criados por ele. Cobra de 2 Cabeças, Gordita Supreme, Gota Serena, Jamanta, Maquinada, PirraiFiashi, Quattttro, Rabiosa, Rapadura Aquática, são alguns dos 25 oferecidos.
Na página de Guilherme Herdy, não consegui descobrir muita coisa sobre ele, e fiquei sem saber o que está fazendo profissionalmente hoje em dia. Que continua surfando e arrebentando não tenho dúvida, mas consta ali que já não é mais patrocinado da Hot Buttered e que “visitou Itanhaém há +ou- 2 semanas”. O que o “Branquelo” que, fico sabendo, voltou a morar em Niterói, estaria fazendo no litoral sul de São Paulo não tenho a mínima ideia, mas não acho que as ondas devam ter sido a motivação. No post mais recente, de 16 de julho, ele compartilha uma matéria – “Lembranças Molhadas” – publicada no site da Red Bull sobre seu segundo lugar em Fiji em 2000, coincidentemente no mesmo campeonato, ainda que dois anos antes, do Circuito Mundial que deu origem ao meu Tour pelo Facebook em busca de informações sobre a geração de Herdy.
Lembro com clareza de ter, em 2002, quando cobri o campeonato para a FLUIR, ficado impressionado com a técnica apurada para entubar de Paulo Moura. Mesmo com ele sendo eliminado precocemente no terceiro round, frente a outro goofyfooter bom de tubo, o australiano Luke Egan, sua performance me convenceu de que aquele era seu ponto forte. O que veio a ser confirmado quando o encontrei no Facebook, com a segunda postagem mais recente em sua Linha do Tempo, de 1 de julho, comemorando as ondas que pegou no swell histórico que quebrou recentemente na Indónesia (que você confere cobertura completa na FLUIR de agosto).
Ainda que o espaço reservado às suas informações pessoais esteja em branco, sem que seja possível confirmar, por exemplo, onde ele está morando e quem são seus patrocinadores, a sensação que tive ao percorrer sua Linha do Tempo é de que ele continua se dedicando 100% a surfar e principalmente a entubar, seja em Kandui, Desert Point, Nias ou até mesmo em algum secret de Pernambuco, seu estado natal.
Rodrigo Dornelles sempre surfou muito mais do que falou, deixando que seu estilo refinado se encarrega-se de dizer quem ele era. Pode-se dizer que fosse mesmo um tímido fora d’água, ainda que nas ondas esbanjasse segurança em manobras bem desenhadas, de quem sabe onde exatamente quer ir. E pelo que constatei em sua página no Facebook, ele não deve ter mudado muito. Dedicando-se agora à Sealife Farmácia de Manipulação, da qual ele se apresenta como sócio-proprietário, tudo indica que Rodrigo esteja levando uma vida saudável e pacata ao lado da família em Torres, no Rio Grande do Sul. E mais não tive como saber.
E para finalizar com a turma de 2002, chego a Victor Ribas, que sai em sua foto de capa na página do Facebook kitesurfando sobre uma onda. Na sua apresentação, logo entendo a razão da imagem: “Atleta profissional de surf, campeão do WQS, campeão brasileiro, 3? no ranking WCT 99. Atleta profissional de kitesurf”. Na sua Linha do Tempo são maioria, entre os posts mais recentes dele em ação, aqueles em que sai kitesurfando. Para mim foi novidade total saber que Vitinho havia abraçado o kitesurf com tanta ênfase, mas a verdade é que faz total sentido um cara habilidoso como ele, de baixa estatura e leve, ainda mais vivendo numa região com muito vento, ter ampliado seu leque de possiblidades como atleta. Só não encontrei menção de quem seriam seus patrocinadores e eventuais títulos conquistados.
Terminada minha investigação, chego à conclusão de que faz falta saber mais do atual paradeiro de uma geração que tanto contribuiu para o sucesso atual do surf brasileiro. Mas se de um lado a mídia não destina o espaço merecido para que seja possível manter a história viva, por outro quem fica devendo são os próprios membros desta geração ao subaproveitar o potencial de divulgação de suas carreiras e feitos oferecido pela mídias sociais e, particularmente no caso dessa análise, da mais popular de todas no momento, o Facebook.