?Acho que nos últimos anos consegui entender melhor como os juízes avaliam a nossa performance na água, e adaptar minha maneira de surfar às regras. Sinto que meu surf está mais encaixado nesta temporada dentro dos critétrios de julgamento, e com isso espero obter melhores resultados este ano e poder disputar o título?.
Parabéns, Adriano de Souza! Estas foram palavras de ?Mineirinho? ao canal Sportv logo depois da final do Quiksilver Pro, primeira parada do World Tour 2009.
Parabéns a esse guerreiro brasileiro não só pelo desempenho brilhante como atleta e esportista, mas pela maturidade e consciência cada vez mais notáveis por nós, brasileiros, cheios de orgulho, assim como por toda a imprensa internacional que acompanha o circuito dos sonhos da ASP.
Nos primeiros dias de competição, o site da ASP destacava uma foto de Adriano com o seguinte comentário: ?Adriano de Souza, este é um nome a se prestar atenção durante 2009?.
Ao contrário do que infelizes publicações recentes alegam, discriminação nesse nível de esporte profissional não existe, pelo menos por parte de quem trabalha profissionalmente para o crescimento do surf em entidades como a ASP, como nós juizes, por exemplo.
É claro que somos, todos nós, passiveis de discriminação e infelizmente às vezes alguns comentários desprezíveis aparecem, seja por parte de um jornalista, ou durante a competição, numa roda de bate-papo, por algum atleta internacional às vezes pouco experiente sem muita noção da realidade global existente fora de suas fronteiras.
Mas, fique tranquilo, este tipo de comportamento ou mentalidade não se sustenta. Quem pensa e age assim num ambiente que exige alto grau de comprometimento e profissionalismo não permanece muito tempo imperceptível e aí, ou muda ou desaparece e acaba esquecido. Tenha ele a nacionalidade que for, inclusive brasileiro, admiração vem junto com respeito, e esse não se impõe, e sim conquista-se.
Enfim, a estreia do circuito deste ano encheu os olhos e os corações de todos nós, praticantes, admiradores ou colaboradores do surf em todo o planeta, de expectativa por uma temporada repleta de disputas de altíssimo nível, assim como na Gold Coast, tendo uma onda lendária como Kirra servindo de palco para este show.
Curioso que justamente diante de condições tão fascinantes alguns resultados tenham me chamado a atenção, especialmente pela análise de alguns árbitros que mantiveram um padrão de separação de notas no mínimo diferentes diante das diretrizes do julgamento, diretrizes essas determinadas pela ASP e visivelmente respeitadas na maior parte dos eventos da realizados pela entidade.
Um árbitro em especial, durante a bateria de Jihad contra CJ, manteve uma escala própria e individual, distanciando-se muito da escala utilizada pelos outros juizes da mesa. Refiro- me em particular a respeito da onda de Jihad e não a de CJ, como foi muito questionado. Notem que na onda de CJ este árbitro acompanha o raciocínio dos restantes, enquanto na onda 8,83 do brasileiro ele separa mal as notas, usando uma escala pobre de avaliação.
Enquanto os outros juizes separam as duas melhores notas de Jihad com cerca de 1,0 a 2,0 de diferença, este árbitro separa as notas com apenas 0,2, ou seja, quando todos classificaram a onda de Jihad como excelente, este simplesmente a classificou como boa. Exemplo: se ele separa por 1,5 sua nota para Jihad, passaria a ser 9,0, que entraria no somatório juntando-se a outras três notas 9,0 e uma 8,5 tornando a nota de Jihad 9,0 e não 8,83.
Honestamente é muito complicado fazer esta avaliação de fora da cabine de arbitragem, mas conhecendo os critérios de julgamento, principalmente no que diz respeito à separação de notas, acho que Jihad pode ter sido prejudicado por um erro individual na bateria contra CJ, mesmo achando que tal correção não alteraria o resultado final da bateria. No entanto, durante a disputa poderia ter imposto um ritmo diferente entre os competidores, interferindo talvez no resultado final.
O mais importante a se destacar sobre Jihad é como ele aprendeu no último ano, como atleta e como competidor, falando menos ou quase nada quando se sente prejudicado depois de uma bateria, surfando muito mais comprometido com o critério de julgamento, com pressão e regularidade, arriscando-se, inovando, mostrando um perfil que impressionou juizes que o acompanharam durante o ano de 2008 e não esperavam muita coisa a ser vista.
Acho que ainda falta velocidade, conectividade e fluidez entre as manobras do nosso campeão brasileiro. Deu gosto de vê-lo competindo, Jihad, parabéns!
Este mesmo árbitro cometeu erros semelhantes durante ao menos outras três baterias, nenhuma delas com brasileiros, o que reforça minha tese de que o julgamento é passível de erros individuais, sim, normalmente corrigidos pelo head-judge imediatamente, mas a teoria de favorecimentos simplesmente não existe.
Adriano despachou com honras ao menos três fortíssimos candidatos ao titulo – Jordy Smith, Taj e Bede, este último local do pico, em uma disputa em que Mineiro fez high-scores em algumas ondas com apenas duas ou três manobras na onda, o que reforça outra tese minha embasada nos critérios. Não é quantidade de manobras que conta, e sim qualidade.
Fica ainda a expectativa sobre Heitor, que, assim como no ano anterior, ficou no round 3, prometendo muito, fazendo efetivamente pouco e falando demais. Cuidado, Heitor, muitos deles entendem um pouco de português, e um comentário como ?vamos tirar mais uma grana desses gringos aí? pode ser muito mal visto.
Agora, rumo a ?Sinolândia?, como é carinhosamente apelidada Bell?s Beach por alguns brasileiros residentes na Austrália, caminhamos na esperança de que Bells mostre, assim como Kirra, todo seu potencial para que a vontade de assistir a outro show de surf dos melhores do planeta seja saciada, na torcida para que nossos bravos três mosqueteiros façam bonito e representem nossa bandeira com performances e comportamentos irretocáveis.
Quem sabe uma final em Bell?s, templo sagrado do surf mundial, com dois representantes brasileiros na água, hein? Torço muito para isso. Torço mais ainda, caso aconteça, para que possa assistir na TV, em vez da reprise de um jogo da Copa Libertadores da América entre dois times que não sei nem repetir os respectivos nomes.
Boa sorte, meninos!