Pioneiro do surf no Brasil volta pra água

#Tomas Rittscher, primeiro homem a surfar no Brasil, voltou ao mar depois de mais de 60 anos sem remar numa prancha. A façanha aconteceu na tarde do último dia 20 de junho, na praia do Gonzaga, em Santos (SP), local onde Tomas surfou pela primeira vez. Para tanto, foi usada uma réplica da prancha que ele utilizou em 1934, modelo Tom Blake.

A aventura começou a ser arquitetada durante a visita de Tomas à minha casa, pois somos vizinhos. Como repórter, foi alucinante protagonizar um fato inédito e histórico: recriar a primeira vez que um homem subiu em uma prancha de surf no Brasil. Com o detalhe de ser o parceiro de um senhor de 86 anos neste ?túnel do tempo? do surf.

#Tudo começou quando ele pediu para ver a minha 9?6? e disse que estava a fim de pegar onda com ela. Perguntei se ele gostaria de surfar com uma prancha igual a que usou na década de 30. Com a resposta positiva, liguei imediatamente para o Museu do Surf e consegui a prancha emprestada, entusiasmado com a idéia.

Para ajudar a carregar a ?embarcação?, chamei o outro correspondente Waves santista, o fotógrafo e jornalista Daniel Neris, que logo se empolgou com a idéia de reviver os primeiros passos da história do surf brasileiro.

“Quando chegamos ao prédio, Tomas já estava lá, de calção, com a toalhinha no pescoço pronto para a surf-trip. O que me chamou atenção foi o potinho cheio de rolhas que ele trazia”, relata Daniel.

#As rolhas eram uma preocupação constante na época em que Tomas surfava. Como a prancha era oca e sempre entrava um pouco d?água, havia um buraco para escorrer que era tampado com rolha.

Com a chegada do fotógrafo João Felippe, do Museu do Surf, último integrante da barca, partimos para a praia. Enquanto os dois fotógrafos registravam tudo, acompanhei Tomas na água.

Foi emocionante, me senti no túnel do tempo. As ondas estavam mexidas e quebravam sem parar, dificultando o posicionamento no outside. O equipamento também não colaborou.

Com uma prancha pesando 40kg, medindo 4,30 metros, de madeira, oca, sem quilha nem parafina, o ato de ficar em pé era praticamente impossível.

#Indagado sobre como conseguia ficar em pé na prancha, Tomas disse a prancha original era pintada. O efeito criado pela parafina vinha do contato da areia com a tinta. ?A gente jogava areia na tinta para não escorregar?, explicou o legendário surfista de Santos.

Ele estava com vontade de experimentar o surf outra vez havia muito tempo, e, apesar das imposições da idade, mostrou muita disposição na água.

Aproveitamos para pegar onda com o canhão pré-histórico, mas tivemos dificuldades. O máximo que conseguimos foi ficar em pé e correr um pouco na espuma. ?É realmente muito difícil. Mais do que eu imaginava?, disse Daniel.

A estória por trás da história ? Até o ano de 2001, o falecido Osmar Gonçalvez era considerado o primeiro homem a surfar no Brasil: pegou onda no ano de 1938 com seu amigo Jua, na praia do Gonzaga, em Santos (SP).

Na ocasião, eles também utilizaram uma prancha modelo Tom Blake, construída a partir de um desenho publicado em uma revista náutica. Na época, o modelo Tom Blake revolucionou o surf, pois tinha apenas 40 quilos, metade do peso das pranchas utilizadas anteriormente.

#Jua, parceiro de Osmar, ainda é vivo e mora nos EUA. Diniz Iozzi, o Pardal, santista idealizador do Museu do Surf, teve a oportunidade de conversar com ele durante sua recente visita ao Brasil, e soube que Tomas havia surfado cinco anos antes de Osmar, sendo portanto o verdadeiro pioneiro.

De acordo com Pardal, Jua ficou impressionado quando viu Tomas surfar na praia do Gonzaga, e por isso teve a idéia de construir uma prancha junto com seu amigo Osmar. A revista da qual foi tirado o desenho da prancha de Tom Blake pertencia a Tomas, que era conhecido dos dois.

Ainda de acordo com Pardal, o primeiro surfista do país foi realmente Osmar Gonçalvez, enquanto Tomas é considerado o primeiro homem a surfar no Brasil.

?O primeiro surfista do Brasil foi o Osmar, pois ele manteve o estilo de vida do surf e o praticou durante muitos anos. Tomas foi apenas o primeiro a surfar, mas não chegou a ser um surfista. Ele pegou onda com sua irmã, Margot, durante alguns verões, e tem o seu mérito por isso?, explica Pardal.

#Com essa descoberta, o idealizador do Museu pretende provocar mais discussões e pesquisas sobre o assunto. ?Se descobrirem outras pessoas que surfaram antes acharei ótimo, pois a história do surf brasileiro estará cada vez mais sendo resgatada?, afirma.

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