
A bodyboarder Renata Cavalleiro fez uma entrevista com a pioneira do esporte no Brasil. A matéria foi publicada no site Garotas bodyboarders, e estamos reproduzindo, na íntegra, aqui no Waves bodyboard. Confira abaixo, Gica Vargas por ela mesma:
Comecei a pegar onda em 1981. Em maio de 84, com 21 anos, fui mãe e meu marido Valdir Vargas era surfista profissional na época.
Ele e eu vivíamos de patrocínio, até que em agosto de 85 minha vida mudou com a morte do pai dele no interior do Paraná. Nos mudamos para Foz do Iguaçu no início de 87 e só retornei ao Rio de Janeiro no início de 1995.

Fiquei mais ou menos dez anos, quase sem pegar onda e nada de competição. Quando voltei para o Rio, o bodyboard estava mudado: diversos tipos de pranchas, nadadeiras, gente nova competindo, manobras afiadas. Foi um recomeço que não imaginei acontecer um dia. Mas voltei.
Como foi seu interesse pelo esporte, já que na época, era uma novidade e nenhuma garota era adepta?
Fui criada na beira da praia, no Leme. E sempre ia para Cabo Frio – Região dos lagos, nos fins de semana e feriados. No Leme, adorava me jogar

de peito nas ondas. Tinha uns 12 anos e sempre nadei muito bem, com isso, não me assustava com as ondas quebra-côco de lá.
Conheci o surf em 75. Uns meninos que moravam no meu prédio começaram a surfar de prancha. Achei o máximo e a minha idéia inicial era surfar de pranchinha. Cheguei até a procurar uma prancha para mim, mas achei o esporte muito masculino. Quando fui a Miami, vi, numa revista de surf, um anúncio da prancha Morey Boogie.
Achei ideal, já que usaria um pé de pato junto. O que tornava a coisa mais segura. Trouxe minha primeira prancha em 81. Ela era rosa porque eu sempre me preocupei em ser bem feminina. O

bodyboard uniu o útil ao agradável. Foi uma surpresa para meu namorado, Valdir Vargas – hoje, marido, que na época estava voltando de competições de surf na Austrália e me encontrou pegando onda e mais feliz.
Você sofreu algum tipo de preconceito?
Lógico que sofri! Algumas meninas achavam que eu queria me exibir no outside e me olhavam meio torto. Colocava o biquíni e um maiô por cima – para o biquíni não cair na hora do caldo. Nunca me preocupei se tinha gente olhando o meu bumbum. Eu só queria pegar onda e me posicionava no pico cheia de vontade.
Todos me respeitavam porque sabiam que eu era namorada do Valdir. Recebi apoio de vários amigos surfistas e isso foi muito importante. Fiquei “reinando” sozinha nos mares, por uns dois anos. Até acontecer o boom do bodyboard feminino no Brasil.
Como foi o seu primeiro campeonato? e a primeira disputa com outras mulheres?
Conheci Marcus Cal Kung no Leme. Estava pegando onda e vi aquele careca vindo em minha direção. Achei que ele era Hare krishna e que queria vender incenso. Ficamos amigos e um tempo depois ele colocou a pilha para competir num campeonato que um pessoal conhecido dele estava organizando, mesmo eu sendo a única mulher.
O primeiro campeonato foi em Piratininga, Niterói, em Setembro de 83. O mar tinha um tamanho e estava de leste, fechando muito – o quebra-mar, na Barra, estava de gala este dia. Passei só uma bateria, mas valeu a experiência e fiz grandes amigos. Teria me dado melhor se as condições fossem outras.
O primeiro campeonato com baterias exclusivamente para mulheres foi um ano depois, no quebra-mar. Eu já era mãe do Matheus, que tinha 4 meses e meio. Eu o amamentava entre uma bateria e outra. Acabei ganhando este evento. Mas o campeonato que mais gostei de ganhar foi em Dezembro de 84. Altas ondas no quebra-mar, com água transparente, perfeito, de leste, dia de sol e praia lotada. Um espetáculo. Talvez tenha sido aprimeira vez onde o público viu mulheres dropando aquelas ondas. Além disso, me diverti muito.
Sendo a primeira bodyboarder brasileira, o que você observa entre o passado e o presente do bodyboard?
No passado, enfrentamos os primeiros wipe outs. Falta de técnica, as primeiras rabeiradas e patrocínios bem modestos. Havia um sonho aliado à boa vontade de pessoas como o Kung, isso ajudou o esporte a crescer e se organizar. O plano Collor derrubou sonhos com o confisco da poupança. E o plano Real, com o nivelamento do câmbio a nosso favor, mandou os atletas brasileiros para o exterior, principalmente as meninas.
Passamos a ser considerados uma potência do esporte e isso me encheu de orgulho. Não participei desta época porque morava em Foz do Iguaçu, interior do Paraná. Hoje, o surf feminino tirou um pouco do espaço do bodyboard, com sua forma de modismo. Além disso, o câmbio atual dificulta a vida dos atletas. Mas o bodyboard continua sendo o esporte que faz a minha cabeça. Me faz esquecer problemas da vida cotidiana e me deixa bonita.
E o que pensa do futuro do esporte no Brasil?
No Brasil, o bodyboard e o surf sofrem com a falta de investimentos. O patrocinador dá uma dinheiro que é muito para dar e para o atleta é pouco para receber. Sei disso porque meus filhos são competidores de surf.
Além disso, vi no noticiário que o prefeito César Maia cortou verba para o Teatro, cultura e alguns esportes. A prioridade deve ser o Pan 2007. Os atletas nunca deveriam deixar de estudar para se dedicar somente ao esporte. Ninguém sabe o dia de amanhã. Pegar onda sim, sempre, mas independente de ter outra profissão.
Quais foram as viagens mais marcantes para pegar onda?
A primeira viagem marcante foi para Bali, na Indonésia em 1982. A ilha era demais nessa época, pouca gente, muitos coqueiros e pouco crowd. Uma cultura completamente diferente de tudo que já tinha conhecido. Fui em Fevereiro e peguei o outro lado da ilha: Nusa Dua. Perfeito e quebrando lá fora. Fui de barco até o outside, junta com dois brasileiros. Apesar de ter ficado só dez dias, fiquei maravilhada.
Minha ida ao Peru em janeiro de 83, também foi ótima. Peguei muita onda, mas também conheci o lado histórico dos lugares. Fui a Machu-pichu, que é demais!!!
Outra viagem maravilhosa foi em 2000, para o Hawaii, com meu marido e meus três filhos. Pegamos lindos dias com terral, sol, água transparente e altas ondas. Coisa de filme. Nunca pensei que viveria um momento assim e teria uma família onde todos pegam onda. A vida é uma caixinha de surpresas.
Fale um pouco sobre seu cotidiano, a família que pega onda junto e os picos que caem.
Nunca gostei de acordar tarde e as melhores ondas no Brasil são de manhã, antes do vento entrar. Somos acostumados a acordar cedo e geralmente caímos em frente de casa, no Alfa Barra. Detesto crowd e só saio para procurar onda se não tiver condições aqui em frente.
Faço ginástica localizada todos os dias. Não fumo, não bebo. Gosto de passar uma imagem saudável para meus filhos. Além disso, me preocupo em me manter conservada. Pegar ondas com os filhos é incrível. Quando vejo cada tubo deles, bem de pertinho, penso que sou muito feliz e é maravilhoso ter essa oportunidade. Poucas pessoas tem.
Como você incentivaria as meninas de hoje? Qual seu recado para elas?
Posso dizer que o bodyboard é um esporte ótimo para o corpo, evita celulites nas partes onde existe a tendência em armazenar essas gordurinhas indesejadas – bumbum, pernas e barriga.
Tenho um corpo legal após ter tido três filhos, e com certeza foi porque sempre peguei onda. Além disso, o contato com o mar e com a natureza faz bem para a alma.
O recado: arrumem um companheiro que surfe ou, que no mínimo, não te atrapalhe. E depois de pegar altas ondas, dê muito beijo na boca dele.