
O paranaense Peterson Rosa compete há 16 anos no WCT. Com 31 anos, o fantasma da aposentadoria não o assusta. Pelo contrário, ele aceita com muita naturalidade, mas não arrisca dizer quando este dia vai chegar.
Durante esses anos, viaja o mundo e enfrenta várias roubadas para abrir as portas à geração que agora chega ao Circuito. Sempre irreverente e ousado, atinge a maturidade.
Com muita clareza, analisa as diferenças de seu inicio de carreira aos dias de hoje e tem orgulho de tudo o que faz.

Nessa entrevista exclusiva ao Waves.Terra, concedida à jovem Fernanda Garcez, uma das boas revelações da nova safra de jornalistas da mídia especializada, Peterson fala dos primeiros anos no tour, da perspectiva de ficar fora do WCT e do futuro do surf brasileiro. (Waves)
Como foi o primeiro ano no circuito mundial?
O primeiro ano é sempre legal, tudo é novidade. As praias e os lugares todos são lindos. Mas as dificuldades vinham na hora de chegar, avião atrasado, não conhecer a língua local, algumas vezes ônibus ruim, como em G-Land.
Mesmo com todos os 44 surfistas juntos, ou viajando em grupos como eu, que viajava com o Teco e o Fábio Gouveia, enfrentávamos bastante dificuldade até estarmos totalmente acomodados no local.
Vocês eram mais unidos?
Acho que hoje é a mesma coisa. Antes, tinha menos brasileiro e todos estavam aprendendo. Isso nos unia mais. Hoje, o brasileiro já sabe chegar a qualquer lugar e alguns têm patrocínio de empresas internacionais, que já deixam o chefe de equipe organizando tudo. Eles já têm casa alugada e tudo esquematizado, mas mesmo assim ainda somos bem unidos.
Qual a etapa te deixava mais ansioso?
Sempre foi e sempre será a de Bell’s Beach, Austrália. Já é uma tradição, um dos campeonatos mais antigos do mundo, um lugar realmente lindo. Todos querem colocar o nome no troféu, que passa de geração a geração. É irado o troféu em forma de sino que o campeão toca. O sonho de Peterson Rosa é colocar o nome naquele sino.
E a etapa marcante?
G-Land! Foi um dos meus primeiros anos de tour. Lembro que foi quando comecei a entubar de backside. Eu nunca tinha ido para a Indonésia, nunca tinha visto aquelas ondas. Chegamos lá e quebrou um swell grande, de 8 a 10 pés. Os gringos já conheciam a onda e os brasileiros se jogavam e faziam o melhor possível. Mas dava para ver que a gente estava bem perdido na escolha das ondas.
G-Land poderia voltar ao circuito?
Com certeza. Mas o governo local não tem como garantir a segurança e isso afasta os patrocinadores e a organização.
O que mais mudou no Peterson Rosa desde o inicio da carreira?
Está mais calmo, mais tranqüilo. Continua com a mesma garra, mesma vontade de vencer. Digamos que hoje ele pensa antes de fazer. Antes fazia, depois pensava.
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Em Hossegor você disse que pode se aposentar se não se classificar este ano. Como lida com o fato de que está chegando o dia de abandonar o circuito?
É normal, sabia que esse dia iria chegar. Estou satisfeito, amarradão. Representei o Brasil da melhor forma possível. Abri portas para essa nova geração. Comecei com o Teco e com o Fabinho, que são a primeira geração de competidores no tour. Fiz parte da segunda geração. Depois veio um time muito forte, Vitor Ribas, Jojó Olivença, Joca Junior. Fui o terceiro brasileiro a se classificar para o WCT e isso vai ficar marcado pra sempre. Lutamos muito e conseguimos mostrar que o surf brasileiro é uma potência mundial.

O dia está chegando. Pode ser no ano que vem, ou pode não ser também, mas tá cada vez mais perto. Não sei como vai ser, mas chegou a hora e é normal. Estou com 31 anos e comecei muito cedo. Gosto de fazer as coisas diferentes. Comecei antes e quero parar antes também. Esse é um dos motivos e o outro é minha vontade de fazer uma família. Quero ter uma mulher, outro filho, pois eu já tenho um de 7 anos. Mas desta vez quero participar mais, cuidar da criança.
Vai competir no Brasi depois de abandonar o WCTl?
Com certeza. No Brasil vou competir até os 40. Olhe o Pedro Muller até hoje competindo e ganhando etapas. Vou tentar ser quatro, cinco vezes campeão brasileiro. Aumentar cada vez mais esses recordes que eu já tenho.
Como foram esses últimos anos competindo e o que pretende fazer no futuro?
Hoje o Peterson sabe competir, viajar e pegar onda. Isso eu fiz nos últimos 18 anos da minha vida. Eu queria cuidar de um filho, ir à praia com ele e aproveitar. Quando ele tiver 15 anos e eu com 50, quero estar bem (risos). Mas quero estar preparado para curtir bastante, ir para a night com ele e ter tempo para isso.
Os resultados dos últimos anos também contam muito para saber que está chegando a hora de me aposentar do WCT. Sempre treino bastante, mas termino ali em 7º, 10º. Daí cai para 16º, sobe para 13º, depois para nono e agora estou em 24º.
E para ser campeão tem que ganhar as etapas. Daí, até começar a ganhar, correr atrás dos resultados. Já faço isso há tempos e acho que já fiz meu papel.
A nova geração de brasileiros no WCT vai encarar o tour com mais facilidades?
Com certeza. O Mineirinho então é um atleta muito bem trabalhado e preparado. Também fazem outdoor e propagandas com ele fora do país. O Raoni também.
Chegamos na Austrália e tinha um outdoor gigante dele na loja do patrocinador. Então acho que eles não vão enfrentar as dificuldades que tínhamos naquela época. Nós mostramos ao mundo quem são os brasileiros no surf e eles não vão chegar lá como desconhecidos.
Todos já sabem que o Brasil é uma potência com grandes chances de fazer um campeão mundial. Por isso, é muito importante que eles não esqueçam quem abriu as portas para eles. Eles vão chegar mais longe do que já fomos, graças a tudo que fizemos antes.
Fora a geração depois dessa, que já está arrepiando. Wigolly Dantas, Thiago Camarão, Peterson Crisanto, que é meu afilhado, todos surfam muito em ondas pequenas e deixaram as competições amadoras mais emocionantes. Agora, é levar esses moleques para treinar em ondas grandes.
Que conselho você dá para eles?
Muita garra, muita vontade, muita humildade. Não esquecer de olhar o próximo, ver as pessoas. Vamos conseguir esse título mundial para o Brasil. Vai ser muito legal e essa hora logo vai chegar.