IV – El Hombre
Em Chicama, como em Punta Hermosa, Caballeros, Pacasmayo ou na Playa Del Silencio, claro, o sol morria no mar, no recém-descoberto e surfado oceano Pacífico.
Nas viagens percebemos que não existe um momento especial: todo momento é especial. O fato de todas as informações serem inusitadas expandia a nossa consciência.
Ficava tudo cabeção. Em Chicama lembrei de nós, sentados nas muretas da varanda – não havia cadeiras – da casa rústica na Playa de Silencio, poucos dias antes, com seu piso de cimento queimado, no famigerado km 43 de la Carretera Nacional, enquanto observávamos o sol se espreguiçando lentamente, labareda a labareda, para dentro do mar.
Em toda a nossa vida, havíamos presenciado o sol nascendo no oceano, aqui, estranhamente, era onde ele morria.
Dobramos a esquina do mundo e agora sabíamos para onde o sol ia. Inverteu-se a polaridade. Neste momento, uma pequena parte do nosso cérebro, aquela intocada durante 18, 20 anos, começou a ser usada quase que imperceptivelmente.
Completou-se um quebra-cabeça de neurônios fujões. Lá embaixo da falésia a areia quente esfriava rapidamente com o avançar das sombras. Mesmo sendo verão, era preciso calçar meias com as sandálias, deschavar o destino, esquentar o mate e desdobrar os ponchos coloridos comprados no Mercado Central de Lima.
A noite descia isolada neste canto do mundo. Uma noite estranha, com outros ruídos, outras estrelas, outros sonhos. Era difícil imaginar que este país se divide em duas partes tão distintas: do litoral até a Cordilheira dos Andes é deserto, dali em diante transforma-se na Floresta Amazônica até a fronteira com o Brasil.
O Yin selva e o Yang deserto. Naqueles momentos ficava claro que nossas almas não possuíam mais fronteiras. Havíamos detonado irremediavelmente a porta da jaula. O tempo parou para sempre. Estávamos livres.
“Essa onda não se cansa”, eu pensava. Toda vez que fazíamos uma manobra naquelas longas linhas ela se apresentava novamente. Levantava uma parede perfeita e acolhedora.
Permitia que corrigíssemos os erros das manobras anteriores e inventássemos novas. Escolinha de surf. Um vento off-shore dava uma penteada na parede da onda e fazia com que a prancha sibilasse estranhamente, feito cobra marinha, ao cortar a água.
O problema era saber se a prancha era boa ou não, já que qualquer uma ia bem nas ondas de Chicama. Comentávamos que dava para surfar ali até com uma porta. Ficamos mal-acostumados. Isso dentro da água, porque fora era exatamente o oposto.
As condições de vida no vilarejo estavam abaixo da linha da pobreza. E da sobrevivência. Depois de várias latinhas de Leite Moça versão peruana para derrubar e arredondar o gosto de sal na boca, batia uma compreensível saudades do ceviche de Punta Hermosa!: filés de corvina fresca marinados em limão, cebola vermelha, sal e coentro.
À noite, à luz do lampião, nos reuníamos em volta de uma mesa de madeira rústica no “restaurante-casa” do El Hombre, único local que se prontificava a dar pousada para estrangeiros. Nunca soube seu nome verdadeiro.
Hoje mesmo meu compadre, o multisportsman Luis Roberto Formiga, me informou que encontrou El Hombre recentemente, e que ele já está velhinho, com dificuldades de locomoção. Pudera: o cara já era avançado na idade quando nós fomos lá em 1972!
Cada vez que eu penso nisso mais inacreditável se torna: o lugar, a pessoa, nós, a situação, as ondas e, principalmente, o tempo, essa entidade que nos cria, ilumina e desfaz, e com a qual Deus brinca conosco.
(continua)
Sidão Tenucci é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação e Artes da USP (Universidade de São Paulo) e com pós-graduação em letras. É surfista há 42 anos. Viajou 50 países na caça por ondas e pelas diversas visões de mundo. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Autor dos livro Almaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o designer gráfico David Carson, e da narrativa de aventuras de viagens O Surfista Peregrino (Livraria Cultura). Não desiste e tenta, há décadas, inutilmente, prender o tempo com palavras.
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