III – A Onda
O Peru era, já naquela época, uma perfeita metáfora da discrepância social que (des) grassa a América Latina. Havia a elite e o povão. No meio, nada, ou muito pouco.
As pranchas eram raras e caras, portanto só a elite tinha acesso a “las tablas havaianas”. Havia alguns caras que dominavam os picos em Punta Hermosa – principalmente Punta Rocas e Senõritas -, e as festas em Miraflores – bairro chique de Lima.
Eles eram Fernando Ortiz de Zeballos, Chino Malpartida, o talentoso shaper Ivan Sardá (atacamos Chicama com quivers novinhos by Sardá, o que deu um sabor ainda mais local às sessões), Gringo Hanza, Felipe Pomar, os irmãos Gordo e Flaco Barreda, entre outros.
Na trip dentro do ônibus da Milagro rumo a Chicama, qualquer truque para tornar as intermináveis horas suportáveis era bem-vindo. Teixeira e João Príncipe chegaram a deitar e dormir sobre o bagageiro interno, que ficava sobre as janelas em toda a extensão do bumba. Proeza inusitada de desapego e equilíbrio.
As horas passavam levadas pela paisagem, e a noite se arrastava aos trancos e barrancos, tropeçando em nossos sonhos agitados, iluminada ocasionalmente pelos relâmpagos no horizonte.
Quando chegamos a Chicama, uma onda de um, dois quilômetros de extensão nos recebeu. No melhor dia chegou a 2 metros. Nunca tínhamos visto nada parecido. O Teixeira chegou a cronometrar uma onda do Luís de um minuto e meio, enquanto ele mesmo tirou um tubo clássico – coisa rara naquelas ondas nem tão cavadas – devidamente registrado em Super 8.
Surfávamos do point quase até o píer, perto do porto, e voltávamos andando. O vento e a correnteza eram constantes. Alguns deixavam provisões das mais variadas embaixo das pedras para reabastecer o corpo e o espírito no caminho de volta para o pico. Alguns surfavam com as sandálias presas no calção ou na roupa de borracha, utilizando-as na volta afim de não destruir os pés na trilha.
Sem saber estávamos vivenciando a criação de uma irmandade de peregrinos-irmãos que já dura mais de 40 anos e que não tem prazo de validade. Hoje em dia ainda surfo com vários dos companheiros daquela viagem, mas alguns somem no mundo, e só vou cruzar com eles dentro da água em algum pico por aí, inesperadamente. Pode fazer 10, 15 anos que não nos vemos, mas a confortável sensação de familiaridade é a mesma.
De certa forma é como reencontrar uma parte de si mesmo. É fato: o espírito surfa eterno, e com a constante impressão de que tem companhia.
Naquele verão de 1972, lá fora, no outside de Chicama, se tivéssemos escolhido a longa remada de volta contra a correnteza, ao invés de andar, ficávamos de olho em algum peixe estranho ou agressivo. Não gostaríamos de repetir a experiência de um amigo que, sentado em sua prancha em Punta Rocas, alguns dias antes, sentiu o seu pé dentro de algo gosmento e quente. Era um leão-marinho dando uma degustada no garoto.
Imagine o susto do cara! Como os porcos cheiravam os nossos pés à noite, e os leões-marinhos os chupavam de dia, tudo me levava a crer que existia uma estranha e talvez mórbida fixação dos animais peruanos pelos pés brasileiros.
Mas esta teoria não teve respaldo dos amigos ou sustentação científica que a amparasse e, portanto, foi só mais uma idéia louca soprada e perdida nos ventos do deserto.
Durante o surf, os “puros” não utilizavam nem cordinha nem parafina nem roupa de borracha, na tentativa de mimetizar equivocadamente, e com um toque de masoquismo, as sessões nas águas quentes no Morro do Maluf, no Guarujá.
O corpo e os elementos da natureza, irmãos siameses a priori, ficavam assim, ainda mais intimamente ligados. Sim, era um puta frio, mas outra teoria nossa ditava que o frio era somente “psicológico”, e que, portanto, se imaginássemos uma aura dourada ou uma armadura de calor envolvendo o nosso corpo, o frio ali não penetraria.
Eu conseguia ficar dentro da água até uma hora de cada vez, concentrado e aferrado a essa crença, até o estágio em que os meus pés e mãos tornavam-se insensíveis. Nessa hora os leões-marinhos poderiam devorá-los que eu só iria me dar conta na hora do jantar.
O trincar, o congelamento e o formigamento dos membros eram os sinais para sair, aquecer-se ao sol inca e voltar correndo, na nóia de não perder nenhuma série, quando a circulação semi-detonada assim o permitisse.
Para os que as utilizavam, as roupas de borracha ficavam úmidas e geladas a noite inteira e, no dia seguinte de manhã, podia se ouvir os gemidos e reclamações da galera ao vesti-las. Detalhes. Na verdade, por mais desconfortável, uma nova beleza era desvendada a cada nova situação, e, como tudo era novo, tudo era belo.
(continua)
Sidão Tenucci é formado em jornalismo pela Escola de Comunicação e Artes da USP (Universidade de São Paulo) e com pós-graduação em letras. É surfista há 42 anos. Viajou 50 países na caça por ondas e pelas diversas visões de mundo. É diretor de marketing da OP (Ocean Pacific). Autor dos livro Almaquatica (Fnac), em parceria com o fotógrafo Klaus Mitteldorf e o designer gráfico David Carson, e da narrativa de aventuras de viagens O Surfista Peregrino (Livraria Cultura). Sobreviveu à maioria das teorias que inventou com os amigos.