
Todas as vezes que chego no Hawaii espero sempre por uma temporada melhor do que a anterior. Porém, desta vez seria difícil uma temporada melhor do que 2002/03, que foi realmente excepcional.
Muitos swells bombaram com pressão no North Shore de Oahu naquele ano, em que cheguei no final de outubro, direto da Indonésia.
Na primeira semana já quebrou Waimea com 20 pés, e a temporada só estava começando. Waimea viria a quebrar muitas vezes, como há tempos não se via.
Os swells entraram com muita força e em abundância. Porém, não cheguei a presenciar Pipeline como na penúltima semana de fevereiro deste ano, durante o Pipeline Energy Pro, com 10 a 12 pés durante quatro dias sem parar.
Desta vez cheguei em novembro. Waimea quebrou com um bom swell, com as ondas atingindo 20 a 25 pés, mas com dois meses de atraso com relação ao ano anterior. Depois disso quebrou outros dias, porém menores. A temporada começou com muitas chuvas também, como eu nunca tinha visto aqui ainda.
As ondas muitas vezes eram prejudicadas pelo vento e pelo mau tempo. A janela entre os swell estava longa e sem intensidade, com poucos dias de duração.

Agora que estamos em março, já no final de temporada, tenho fé que bons swells ainda estão por vir, pois as ondas começaram a entrar com mais intensidade em fevereiro.
Pipeline teve bons momentos, incluindo um swell que entrou no dia 19 de fevereiro e
continuou bombando sem parar até o dia 22, com 10 a 12 pés sólidos, na rasa bancada da onda mais cobiçada do planeta, com muita força e perfeição.
As ondas eram tão lindas que eu poderia até ficar do canal só assistindo… Poderia, mas é impossível ficar só assistindo. Na praia a galera na areia explodia em gritos de euforia a cada tubo surfado. O visual era incrível e Pipeline impressiona qualquer um quando mostra toda a força que tem. Igual a estes quatro dias em Pipeline eu nunca tinha visto. Eram ondas que eu sempre quis surfar ali.
Foram ondas que há muito tempo não se via, um sonho para muitos. Quatro dias de sonho, porém no domingo as ondas se superaram. Eu acreditava que não era possível ficar ainda melhor. As ondas na final do Pipeline Energy Pro foram épicas e continuaram assim por todo o começo da tarde. Foi a melhor hora daquele dia.
Paredes sólidas quebravam lindas pela bancada, perfeitas, porém com uma força assustadora. O lip da onda desabava com força suficiente pra machucar seriamente qualquer um. O melhor daquele momento, com a final do campeonato composta só de havaianos, é que não tinha ninguém na água.
Todos estavam na areia na espera para comemorar o título de um dos quatro finalistas. Só tinha um no outside e vários brasileiros faziam companhia para ele na espera pelas ondas da série. Alexandre Macabu, Bernardo Pigmeu, Rodrigo Jorge, Danilo Couto, Everaldo “Pato” Teixeira, Lucinho Lima, entre outros que se revezavam no outside.
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Antes de cair na água eu sabia que aquele era o momento de surfar o tubo tão sonhado. Era só posicionar e remar na boa, já que poucos do crowd estavam dispostos a remar nas ondas da série. Os brasileiros vinham em várias.
Eu estava com uma prancha 8 pés do John Carper, que foi deixada aqui no Hawaii pelo meu amigo Tadeu pereira, cinco anos atrás. Está um pouco amarelada, mas anda muito e confio plenamente na eficiência desta prancha, o que me deixa mais à vontade para remar nas boas.
Durante uma hora e meia presenciei as melhores ondas que já vi quebrando em Pipe, com tamanho e perfeição que eu ainda não tinha visto. A adrenalina estava a mil, pois apesar de perfeitas as condições não eram fáceis. Pipe nunca é fácil…
Tinha que estar no lugar certo pra entrar bem na onda. Posicionei-me na intenção de vir nas certas da série, o que me proporcionou sensações que ainda não tinha experimentado e visões ainda desconhecidas, momentos de muita pressão e adrenalina que ainda não tinha provado em Pipeline, pois podia ir nas da série que não tinha local pra atrapalhar.
Eu já havia pego altas ondas, tomado algumas na cabeça, mas ainda não tinha achado a onda que estava esperando. As séries não paravam de trazer incríveis massas d’água tubulares. Não foram muitas as vezes que tive a oportunidade de remar nas ondas da série sem locais pra disputar, e sabia que não podia desperdiçar.

De repente veio aquela série, saí remando na diagonal sabendo que viriam as bombas. Passei a primeira e quando vi a de trás não tive dúvidas, remei forte e fui com fé.
Em alguns segundos estava no canal rindo à toa do tubo que acabara de surfar. Tinha acabado de surfar a onda que estava esperando, um tubo que esperava pegar havia muito tempo, com perfeição e tamanho.
A cada Pipeline surfado a confiança aumenta. Quando isso acontece o natural é remar numa onda maior que a anterior. Durante quatro dias surfei ondas com força suficiente para machucar muito, em momentos intensos e arriscados. E saí ileso… Isso às vezes incomoda, pois nunca se sabe como será próximo caldo.
É bom surfar boas ondas e não estar caindo nos momentos mais críticos e de perigo. Tenho a noção do perigo que envolve surfar ondas tão fortes como Pipeline, onde o fundo é bem perto da superfície e provoca mais acidentes do que lugares como Waimea, Maverick’s e Todos Santos juntos.
Afasto a sensação do perigo fazendo tudo certo e me divertindo pegando bons tubos. Procuro nunca cair no drop, porque depois do drop só tem um caminho: por dentro do tubo.
Aloha
Veja galeria de fotos com a sequência completa desse tubo.