O surfista paulista Rodrigo do Carmo, também conhecido como Generik, vem trabalhando há alguns anos na evolução das manobras aéreas no esporte. Em seu último vídeo, o local do Canto do Maluf, Guarujá, demonstra claramente estar elevando o nível da modalidade, acertando com maestria diversos voos de base trocada, prática claramente inspirada no skate.
Confira abaixo mais uma produção de Generik e também um perfil publicado na edição de julho do ano passado na FLUIR, sobre a trajetória errante e conturbada que levou um dos principais aerialistas do país a explorar novos caminhos no surf.
Por Glenda Almeida
Do Carmo, Marcelina, Márcia e Jesus, Rei dos Reis. Esses sãos os dizeres de algumas das tatuagens de Rodrigo Generik, 25, o surfista underground que faz o que poucos surfistas se arriscam a fazer: manobras de base trocada. Ele parece até mais velho, dada a maturidade em lidar com temas como aparência e verdade e por sua sinceridade quando o assunto são as drogas e os problemas familiares. Seus sonhos? Ter uma casa própria, cursar uma faculdade, adquirir cultura e informação – e mais algumas tatuagens que exprimam cada nova conquista ou tragédia em sua vida.
Generik nasceu em 1987, batizado por um homem que não era seu pai biológico. Seu tio Eduardo do Carmo, irmão de sua mãe, foi o primeiro a dar a ele um skate, atualmente sua principal fonte de inspiração para arriscar novas manobras nas ondas. A primeira prancha veio um pouco mais tarde, e o acompanhou em algumas “vacas” tomadas com seu amigo de infância Paulo Paiva, com quem chegou a vender latinhas de alumínio para comprar leashes novos. Nessa época, ainda criança, conta que começou a tomar gosto pelo universo das tatuagens, depois de ter visto um cara todo tatuado passando em frente a sua casa. “As minhas primeiras tatoos eram de caneta Bic e deixavam minha mãe maluca”, admite. A mãe de Generik, Márcia, não gostava que ele fosse surfar ou andar de skate, e o garoto chegou a ser castigado algumas vezes por causa disso. Mas ele sabe que suas escolhas foram acertadas. “Até hoje isso é a minha vida, um meio de me divertir, de me expressar, de seguir em frente e de viver sendo eu mesmo.”
Aos 15 anos, no entanto, Generik perdeu a mãe e mergulhou de cabeça no que chamou de “tempo ruim, tempo bom”. Desde então, ele passou a morar com sua avó Marcelina, que o criou. Conforme crescia e se decidia pelo surf e pelo skate, aprimorando suas habilidades e, segundo ele, seu “dom dado por Deus”, iniciava, cedo, seu relacionamento com as drogas, principalmente a cocaína. E, dessa forma, como conta sua avó, suas atitudes já não eram mais as mesmas, muito menos seu temperamento ou a influência de suas amizades. Nessa época, foi perdendo a confiança da família. Foi um período em que experimentou a solidão, o vazio, a angústia. Mas também foi quando viveu lembranças e experiências boas, das quais se orgulha, pois encontrava um refúgio nos dois esportes e nas tatuagens. O surf tornou-se ainda mais importante quando optou por treinar de base trocada. Para os surfistas goofies, isso significa pegar onda com o pé esquerdo na frente da prancha e vice-versa. Para Generik, o “switch” significava a volta à infância, e o faz lembrar de quando havia começado a aprender a surfar e da importância de sempre voltar à essência para lembrar quem é e de onde veio.
Genérico ou original
A decisão de se dedicar ao “switchstance” (termo comum em esportes como skate, snowboard, wakeboard e kitesurf e que significa trocar a base), segundo Generik, também tem muito a ver com as origens do seu apelido e com a intenção de não ser uma cópia de ninguém. “Desde os meus 15 anos, alguns amigos diziam que meu estilo de surf era parecido com o do californiano Aaron ‘Gorkin’ Cormican, e eu seria seu ‘genérico’”, explica. Para ele, surfar de base trocada foi a maneira encontrada para continuar buscando a originalidade, fazer algo inédito. É o caminho para deixar de ser genérico. Nesse aspecto, um dos principais elementos em que ele aposta é o obstáculo. As inspirações para as manobras vêm definitivamente do skate. Generik, inclusive, se arrisca a dizer que não se considera mais um surfista. “Faço parte do clã dos ‘skatistas de água’, expressão inventada recentemente por Wellington Gringo”, revela.
A primeira manobra que Generik criou foi o “switch back side air”, depois de dois anos já se dedicando ao estilo. E foi em agosto de 2009 que ele conseguiu executar outra invenção ousada, a manobra batizada de “switch combo”, em que ele começa de base trocada (goofy), manda um varial e volta para a base normal (regular). Manda outro varial na base regular e volta para goofy, ou seja, de base trocada. “Não me esqueço desse dia, porque ele me provou que o surf pode ser muito mais do que imagino.”
Generik pensa em incrementar o treino em piscinas especiais, próprias para o switch, com obstáculos, caixotes, ilhas de trânsito e até ferros, com formação de ondas. “Na minha cabeça, há muitas possibilidades de manobras, como variações de flip, usando caixotes, por exemplo”, imagina de forma visionária o surfista.
Tatuagens da vida
Sua primeira tatuagem, com 16 para 17 anos, foi no peito, feita pelo amigo Nany. Nela estava escrito “I can see” (eu posso ver). Mas ela acabou sendo apagada e por cima ele tatuou um trio de caveiras. “Eu me arrependi dela porque, depois que consegui sair do fundo do poço das drogas, com a ajuda da minha avó, pedindo para ela me internar, percebi que na verdade eu não enxergava nada da vida ou das pessoas. Que eu não era nada e sozinho não conseguia ver as coisas”, revela.
“Mas esse arrependimento da primeira tatuagem foi uma questão pessoal, e não estética”, continua. “Inclusive, nos estúdios de tatuagem descobri pessoas incríveis, muito boas de coração, de espírito e de atitudes, que são julgadas pelo sistema por serem tatuadas, diferentes.” Para Generik, esses são os verdadeiros homens livres, que não precisam seguir uma norma ou um padrão para se sentirem bem e acolhidos. “Eu sofro diariamente o preconceito, mas tenho certeza de que só Deus conhece o meu coração, enquanto quem me julga se importa apenas com a aparência externa. Mas é bom, porque, quando vou ao metrô cheio, todo mundo sai de perto…”, brinca o irreverente surfista.
Depois da primeira, vieram muitas outras tatoos, desenhadas por Pedro, Gustavo Nastasi, Foca, Silvinho, Juliano, Diana, Willis Filho e muitos outros tatuadores. “Eles fizeram parte da minha história, e ainda é muito bom entrar num estúdio, ver a montagem das agulhas, ouvir o som da maquininha e curtir rock, hardcore e punk rolando.” Seu estilo é inspirado em surfistas como o santista Wellington Gringo ou os californianos Geoff Brack, Cristian Fletcher e Joe Crimo, referências mundiais no surf underground, todos tatuados até o pescoço.
Generik conta abertamente que, em vez de interná-lo numa clínica para viciados, sua avó levou-o a uma igreja evangélica. Ele havia acabado de voltar de uma viagem à Costa Rica, onde conviveu com grandes nomes do surf. “Quando minha vida aqui estava já ruim, juntei dinheiro e fui viajar.” Rodrigo trabalhou em feira, vendeu suas roupas de marca e deu aulas de surf com o amigo de seu tio, o Dick. “Na Costa Rica, conheci surfistas que só via em filme: Gregori Domingo, Zack e Geoff Brack. Foi uma fase boa e ruim, porque estava nas drogas, e isso roubou muitos momentos bons lá. Eu conquistei o sonho de estar com esses caras, e ao mesmo tempo era depressivo, estranho e vazio. Ali fui ao fundo do poço”, confessa. Mas, para além das drogas, também apareceram os desafios da língua estrangeira e da saudade de casa. “Eu não falo inglês, e lá muitas vezes ia cada um para seu quarto.”
Tendo chegado de volta ao Brasil ainda pior em relação às drogas e aos conflitos de sua mente, e voltado a morar com a avó, Generik “surtava” quase todas as noites, discutindo, gritando, inclusive na frente de seus dois irmãos mais novos, Marco Aurélio e Paulo Henrique. Apesar disso, como registrado em uma das tatuagens de seu pescoço, o “amor eterno” de sua avó, combinado com a salvação de “Jesus, Rei dos Reis”, o ajudaram a largar as drogas pesadas.
E um campeonato em especial serviu como divisor de águas para o surfista. Em 2008, no Canto do Maluf, uma etapa 5 estrelas do WQS iria selar o destino de Generik. Competindo na modalidade airshow, mostrou para toda a plateia o resultado do seu esforço. Com o segundo lugar veio o contrato de patrocínio, que continua até hoje.
Atualmente ele continua se tatuando, o que não o impede de falar de Deus. Reconhece que muitos acabam tendo um fim trágico e rápido e vive dizendo que, se não fosse Jesus, também teria ido para esse caminho. Para Generik, essa tatoo no pescoço, onde está escrito “Jesus, Rei dos Reis”, desenhada pelo Presbítero Eduardo, serve para contar aos outros essa história e, quem sabe, ajudar alguém que esteja passando por tudo que ele passou, “nem que seja pela curiosidade de saber quem é Jesus”, argumenta.
Generik continua em busca de um sonho novo, uma manobra nova, outras tatuagens. Para ele, “o ontem já é muito antigo”, e no surf ainda se faz muita coisa repetitiva. “Eu quero fazer o diferente, trazer o difícil, o inusitado. Quero honrar todos os que me apoiaram e conseguir ser honesto nesse meio, quebrando a cara de muita gente que sempre me olhou feio por causa das minhas tatuagens. Para isso, treino e busco competir comigo mesmo, me superando em cada nova manobra.” E assim, Generik evolui no esporte, fazendo jus a uma das tatoos mais destacadas de sua mão, onde está escrito “Honra”. “Olhando para ela todos os dias, nunca me esqueço de que devo buscá-la e entregá-la às pessoas que me amam”, conclui Rodrigo, o Generik original.









