Trocando a base

Trocando a base

O surfista paulista Rodrigo do Carmo, também conhecido como Generik, vem trabalhando há alguns anos na evolução das manobras aéreas no esporte. Em seu último vídeo, o local do Canto do Maluf, Guarujá, demonstra claramente estar elevando o nível da modalidade, acertando com maestria diversos voos de base trocada, prática claramente inspirada no skate.

Confira abaixo mais uma produção de Generik e também um perfil publicado na edição de julho do ano passado na FLUIR, sobre a trajetória errante e conturbada que levou um dos principais aerialistas do país a explorar novos caminhos no surf.

Por Glenda Almeida

Do Carmo, Marcelina, Márcia e Jesus, Rei dos Reis. Esses sãos os dizeres de algumas das tatuagens de Rodrigo Generik, 25, o surfista underground que faz o que poucos surfistas se arriscam a fazer: manobras de base trocada. Ele parece até mais velho, dada a maturidade em lidar com temas como aparência e verdade e por sua sinceridade quando o assunto são as drogas e os problemas familiares. Seus sonhos? Ter uma casa própria, cursar uma faculdade, adquirir cultura e informação – e mais algumas tatuagens que exprimam cada nova conquista ou tragédia em sua vida.

Generik nasceu em 1987, batizado por um homem que não era seu pai biológico. Seu tio Eduardo do Carmo, irmão de sua mãe, foi o primeiro a dar a ele um skate, atualmente sua principal fonte de inspiração para arriscar novas manobras nas ondas. A primeira prancha veio um pouco mais tarde, e o acompanhou em algumas “vacas” tomadas com seu amigo de infância Paulo Paiva, com quem chegou a vender latinhas de alumínio para comprar leashes novos. Nessa época, ainda criança, conta que começou a tomar gosto pelo universo das tatuagens, depois de ter visto um cara todo tatuado passando em frente a sua casa. “As minhas primeiras tatoos eram de caneta Bic e deixavam minha mãe maluca”, admite. A mãe de Generik, Márcia, não gostava que ele fosse surfar ou andar de skate, e o garoto chegou a ser castigado algumas vezes por causa disso. Mas ele sabe que suas escolhas foram acertadas. “Até hoje isso é a minha vida, um meio de me divertir, de me expressar, de seguir em frente e de viver sendo eu mesmo.”

Aos 15 anos, no entanto, Generik perdeu a mãe e mergulhou de cabeça no que chamou de “tempo ruim, tempo bom”. Desde então, ele passou a morar com sua avó Marcelina, que o criou. Conforme crescia e se decidia pelo surf e pelo skate, aprimorando suas habilidades e, segundo ele, seu “dom dado por Deus”, iniciava, cedo, seu relacionamento com as drogas, principalmente a cocaína. E, dessa forma, como conta sua avó, suas atitudes já não eram mais as mesmas, muito menos seu temperamento ou a influência de suas amizades. Nessa época, foi perdendo a confiança da família. Foi um período em que experimentou a solidão, o vazio, a angústia. Mas também foi quando viveu lembranças e experiências boas, das quais se orgulha, pois encontrava um refúgio nos dois esportes e nas tatuagens. O surf tornou-se ainda mais importante quando optou por treinar de base trocada. Para os surfistas goofies, isso significa pegar onda com o pé esquerdo na frente da prancha e vice-versa. Para Generik, o “switch” significava a volta à infância, e o faz lembrar de quando havia começado a aprender a surfar e da importância de sempre voltar à essência para lembrar quem é e de onde veio.

Genérico ou original

A decisão de se dedicar ao “switchstance” (termo comum em esportes como skate, snowboard, wakeboard e kitesurf e que significa trocar a base), segundo Generik, também tem muito a ver com as origens do seu apelido e com a intenção de não ser uma cópia de ninguém. “Desde os meus 15 anos, alguns amigos diziam que meu estilo de surf era parecido com o do californiano Aaron ‘Gorkin’ Cormican, e eu seria seu ‘genérico’”, explica. Para ele, surfar de base trocada foi a maneira encontrada para continuar buscando a originalidade, fazer algo inédito. É o caminho para deixar de ser genérico. Nesse aspecto, um dos principais elementos em que ele aposta é o obstáculo. As inspirações para as manobras vêm definitivamente do skate. Generik, inclusive, se arrisca a dizer que não se considera mais um surfista. “Faço parte do clã dos ‘skatistas de água’, expressão inventada recentemente por Wellington Gringo”, revela.

A primeira manobra que Generik criou foi o “switch back side air”, depois de dois anos já se dedicando ao estilo. E foi em agosto de 2009 que ele conseguiu executar outra invenção ousada, a manobra batizada de “switch combo”, em que ele começa de base trocada (goofy), manda um varial e volta para a base normal (regular). Manda outro varial na base regular e volta para goofy, ou seja, de base trocada. “Não me esqueço desse dia, porque ele me provou que o surf pode ser muito mais do que imagino.”

Generik pensa em incrementar o treino em piscinas especiais, próprias para o switch, com obstáculos, caixotes, ilhas de trânsito e até ferros, com formação de ondas. “Na minha cabeça, há muitas possibilidades de manobras, como variações de flip, usando caixotes, por exemplo”, imagina de forma visionária o surfista.

Tatuagens da vida

Sua primeira tatuagem, com 16 para 17 anos, foi no peito, feita pelo amigo Nany. Nela estava escrito “I can see” (eu posso ver). Mas ela acabou sendo apagada e por cima ele tatuou um trio de caveiras. “Eu me arrependi dela porque, depois que consegui sair do fundo do poço das drogas, com a ajuda da minha avó, pedindo para ela me internar, percebi que na verdade eu não enxergava nada da vida ou das pessoas. Que eu não era nada e sozinho não conseguia ver as coisas”, revela.
“Mas esse arrependimento da primeira tatuagem foi uma questão pessoal, e não estética”, continua. “Inclusive, nos estúdios de tatuagem descobri pessoas incríveis, muito boas de coração, de espírito e de atitudes, que são julgadas pelo sistema por serem tatuadas, diferentes.” Para Generik, esses são os verdadeiros homens livres, que não precisam seguir uma norma ou um padrão para se sentirem bem e acolhidos. “Eu sofro diariamente o preconceito, mas tenho certeza de que só Deus conhece o meu coração, enquanto quem me julga se importa apenas com a aparência externa. Mas é bom, porque, quando vou ao metrô cheio, todo mundo sai de perto…”, brinca o irreverente surfista.
Depois da primeira, vieram muitas outras tatoos, desenhadas por Pedro, Gustavo Nastasi, Foca, Silvinho, Juliano, Diana, Willis Filho e muitos outros tatuadores. “Eles fizeram parte da minha história, e ainda é muito bom entrar num estúdio, ver a montagem das agulhas, ouvir o som da maquininha e curtir rock, hardcore e punk rolando.” Seu estilo é inspirado em surfistas como o santista Wellington Gringo ou os californianos Geoff Brack, Cristian Fletcher e Joe Crimo, referências mundiais no surf underground, todos tatuados até o pescoço.
Generik conta abertamente que, em vez de interná-lo numa clínica para viciados, sua avó levou-o a uma igreja evangélica. Ele havia acabado de voltar de uma viagem à Costa Rica, onde conviveu com grandes nomes do surf. “Quando minha vida aqui estava já ruim, juntei dinheiro e fui viajar.” Rodrigo trabalhou em feira, vendeu suas roupas de marca e deu aulas de surf com o amigo de seu tio, o Dick. “Na Costa Rica, conheci surfistas que só via em filme: Gregori Domingo, Zack e Geoff Brack. Foi uma fase boa e ruim, porque estava nas drogas, e isso roubou muitos momentos bons lá. Eu conquistei o sonho de estar com esses caras, e ao mesmo tempo era depressivo, estranho e vazio. Ali fui ao fundo do poço”, confessa. Mas, para além das drogas, também apareceram os desafios da língua estrangeira e da saudade de casa. “Eu não falo inglês, e lá muitas vezes ia cada um para seu quarto.”
Tendo chegado de volta ao Brasil ainda pior em relação às drogas e aos conflitos de sua mente, e voltado a morar com a avó, Generik “surtava” quase todas as noites, discutindo, gritando, inclusive na frente de seus dois irmãos mais novos, Marco Aurélio e Paulo Henrique. Apesar disso, como registrado em uma das tatuagens de seu pescoço, o “amor eterno” de sua avó, combinado com a salvação de “Jesus, Rei dos Reis”, o ajudaram a largar as drogas pesadas.
E um campeonato em especial serviu como divisor de águas para o surfista. Em 2008, no Canto do Maluf, uma etapa 5 estrelas do WQS iria selar o destino de Generik. Competindo na modalidade airshow, mostrou para toda a plateia o resultado do seu esforço. Com o segundo lugar veio o contrato de patrocínio, que continua até hoje.

Atualmente ele continua se tatuando, o que não o impede de falar de Deus. Reconhece que muitos acabam tendo um fim trágico e rápido e vive dizendo que, se não fosse Jesus, também teria ido para esse caminho. Para Generik, essa tatoo no pescoço, onde está escrito “Jesus, Rei dos Reis”, desenhada pelo Presbítero Eduardo, serve para contar aos outros essa história e, quem sabe, ajudar alguém que esteja passando por tudo que ele passou, “nem que seja pela curiosidade de saber quem é Jesus”, argumenta.
Generik continua em busca de um sonho novo, uma manobra nova, outras tatuagens. Para ele, “o ontem já é muito antigo”, e no surf ainda se faz muita coisa repetitiva. “Eu quero fazer o diferente, trazer o difícil, o inusitado. Quero honrar todos os que me apoiaram e conseguir ser honesto nesse meio, quebrando a cara de muita gente que sempre me olhou feio por causa das minhas tatuagens. Para isso, treino e busco competir comigo mesmo, me superando em cada nova manobra.” E assim, Generik evolui no esporte, fazendo jus a uma das tatoos mais destacadas de sua mão, onde está escrito “Honra”. “Olhando para ela todos os dias, nunca me esqueço de que devo buscá-la e entregá-la às pessoas que me amam”, conclui Rodrigo, o Generik original.

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou casa,

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.