
Teve um ano em minha vida que trabalhei de terno e gravata, em uma grande empresa uruguaia chamada República AFAP. Na hora do almoço, quase sempre me encontrava com meu querido amigo, surfista de alma, Rolando. Era bom almoçar com ele, escapávamos um pouco da rotina diária e curtíamos histórias e assuntos interessantes relacionados ao surf.
Muitos anos antes, em um boteco montevideano, o Roli interrompeu uma conversa sobre surf que trocava com um amigo para nos contar sobre suas experiências no Hawaii, Indonésia e Fernando de Noronha.
Aparentemente, a única história verdadeira era aquela sobre Noronha: um dia em que as ondas da Cacimba tinham estado bem grandes e ele tinha ganhado a da série… Acreditar ou arrebentar. Investi o resto da noite em continuar escutando uma história atrás da outra, feliz da vida, de moleque imaginava uma e cada uma das mentiras que meu novo amigo me contava.
Uns dias depois escutei falar de um ônibus que levava para o leste os surfistas de Montevidéu. Havia um campeonato e decidi embarcar no ônibus, que logo foi apelidado de “Beyond the Bondi” – fazendo referência a um dos melhores vídeos de surf dos anos noventa: Beyond the Boundaries. Na madrugada de sábado descobri que o organizador daquelas excursões era o mesmo contador de histórias. Desde então foi criada uma grande amizade que perdura até hoje.

Um dia caloroso de janeiro, a secretária me pediu que descesse urgente, tinha alguém me esperando. Desci rapidamente os dois andares para encontrar essa pessoa. Era Roli e uma emoção impressionante pintava em seu rosto. Anunciou-me algo grande e importante: “Zanocchi, vou para o mundial de ondas grandes em Madeira!”.
Acostumado a suas histórias, não dei muita importância e respondi com um sorriso: “Demais, Rolando!”. Eu tinha que voltar ao trabalho e diante da minha retirada, Rolando me pediu, por favor, que o acompanhasse a almoçar; ele convidava e notava-se sua necessidade de deixar jorrar toda sua emoção contida. Disse-lhe que desceria em 10 minutos.
Caminhando pela Avenida 18 de Julho minutos depois, Roli me explicou que a ISA tinha mandado convites aos quinze melhores países dos World Surfing Games; que quatro tinham rejeitado o convite, e que portanto o convite tinha chegado até o Uruguai no último momento. O presidente da USU designou Eduardo “Garra” Méndez – conhecido por sua coragem e por dominar grandes ondas em Puerto Escondido – e algum atleta mais que não se apresentaria. Por outro lado, comunicou à única revista uruguaia de surf de sucesso – Revista Mareas – que alguém tinha que cobrir a representação do Uruguai em uma competição de tal magnitude. Roli, como editor da revista, acabou nomeado Team Manager da equipe, para assim baratear os custos de alojamento e transporte.
Poucos dias depois, Roli estava em Madeira, no mesmo hotel que Flea Virostko, Vetea David, Paul Paterson, Peter Mel e outros dos melhores surfistas de ondas grandes do mundo. Em determinado momento, Gary Linden, diretor do evento, se aproximou dele e lhe perguntou se podia competir no lugar de outro uruguaio cuja série estava livre. Rolando pensou muitas coisas por alguns instantes e respondeu que sim, que iria competir.
No dia seguinte, a notícia de que um swell de 30 pés se aproximava de Madeira acelerou os corações de alguns competidores. Exatamente nesse dia um documento da ISA chegou às mãos de meu amigo; tinha que assiná-lo para tirar qualquer responsabilidade da ISA em caso de morte.
Foi difícil para o Roli assinar aquilo, ainda mais quando sabia que 30 pés de bombas quebrando no Jardim do Mar superavam qualquer outra experiência que ele tivesse tido. Seu nome já figurava nas séries de competição e dizer não era uma decisão difícil. O doidão do Flea Virostko se aproximou e disse: “Don’t be scared, it’s only water” (não tenha medo, é somente água).
Depois de uma noite de reflexão, fazendo um esforço sobre-humano, moveu a caneta deixando sua assinatura marcada no documento. Nada podia livrá-lo agora e se essas massas entrassem, ele teria que enfrentá-las, não voltaria a seu país com o cabelo seco. Uns dias depois, o enorme swell de 30 se transformou em ondas perfeitas e igualmente pesadas de 10 a 12 pés. Sua bateria estava marcada para as 12 horas e era contra o monstro australiano Brendan Margierson e o experiente português Nuno Matta.
Durante a meia hora de competição, o pequeno uruguaio deixou a celeste em alto, desceu duas massas enormes, as maiores de sua vida, e ficou em terceiro lugar, não avançando para a segunda rodada. Mas demonstrou que aquele encontro de emoção em pleno centro montevideano, longe das ondas grandes e da adrenalina do surf, tinha fundamento. E por outro lado, deixou pela primeira e única vez a marca do Uruguai em um mundial de ondas grandes.
Rolando contou essa história para mim e para tudo o mundo umas duzentas mil vezes com muitos detalhes e contornos. O pessoal já está cansado de ouvi-la e, para calar a boca dele, achei melhor deixar tudo escrito, para mostrar a ele que já conhecemos a história.
