
O crowd começa no check das ondas. Agora, ao entrar na água o crowd está três vezes maior.
Remando pelo canal, na verdade um beach break fechando, tomo algumas ondas na cabeça e lá vou eu para mais um dia em Pipeline.
Já estou vendo vários locais esperando as melhores ondas do dia, é claro. Os estão bodyboarders na espera dos double ups que sobram. Alguns no canal que devem estar em Pipe pela primeira vez.
Eu e mais um monte de surfistas aguardamos realizar o sonho de pegar a “rainha do North Shore”.

As séries estão passando e um local foi na melhor. Vou remar na que sobrou. É ruim, não fui.
Dez minutos, outra série. Outro local, amigo daquele que pegou a melhor… todo mundo remando, estou atrasado, não fui.
Mais dez, 15 minutos. A série e o crowd estão um pouco maiores, vejo mais cinco locais no pico e outros 29 surfistas.
Um local rema, não entra. Outro também tenta e não consegue. O terceiro vai, mais uma que estava sonhando pegar.

Já faz uma hora e meia que estou na água. Está vindo outra série! Vários locais tentam e não conseguem.
Vou remar. Estou atrasado, mas agora vou. Uhuuuuuuuuu!
Hei, hei! Alguém grita mais atrás. Nao acredito! Esse local saiu de onde?!
Lá vai ele.
E eu não peguei nenhuma onda.
O tempo passa e a cada brilho de sol mais surfistas, locais, haoles, profissionais e amadores, freesurfers e big riders, alguns atrás do tubo da vida, outros da foto perfeita ou por imagens para os próximos filmes.
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O crowd só está aumentando.
Quase oitenta cabeças na água! O swell está um pouco inconsistente e a troca de maré faz demorar ainda mais as séries boas.
Estou na água há quase duas horas e nada.
Nossa, que série!
É essa, agora eu vou!
Um rema daqui, outro rema de lá, bate braço e um já desistiu. Estou atrasado mas vou.

Drop elevador!
Mal chego na base, viro e coloco para dentro. Que visual irado. Fecha tudo. Não foi desta vez.
Toco nos corais bem de leve e lembro de todos os machucados que já sofri ali. O jeito é voltar para o pico.
Do canal, vejo mais um local dentro do tubo, quadrado, rodando e a baforada me faz esquecer todas as dificuldades e voltar para o pico.
Aquela era perfeita, tubo dos sonhos.

Outra série. Agora, depois de surfar a primeira onda, estou mais acordado, mais esperto.
Vou tentar ir nessa. Doce ilusão.
Três horas dentro da água, já estou um pouco cansado. Até agora só comi um prato de sucrilhos e peguei uma onda fechando.
Vou sair.
Essa niguém quer. Drop e mais nada. Fechou tudo e saio com a espuma até onde dá.
Esse coral não perdoa vacilos. Deito na prancha e saio. Vou tentar a sorte mais tarde.
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Que fome!
Uma e trinta da tarde e volto para Pipe. As ondas continuam perfeitas, um pouco demoradas e o crowd pirou, mais de oitenta cabeças agora.
Sento na areia para olhar um pouco. Passa uma hora e acho que deu uma descrowdeada.
Vou voltar para água. Espero, remo numa ruim, outra fechando, um tubinho mais ou menos, outra fechando. Graças a Deus ainda não quebrei minha prancha. Geralmente nessas fechadeiras sobra para a prancha.

Melhor sair e voltar no fim de tarde. Na praia, converso com um local, com outro, alguns também estão desapontados com o dia de surf.
Tem um cara nervoso, só quebrou pranchas. Outro reclama do crowd. Penso: “Se para você está crowd, imagina para mim?”.
Bem no final de tarde, quase escurecendo, o sol já se pôs e parto para minha última tentativa.
Remo forte para o pico a fim de pegar a onda que passei o dia inteiro esperando.
Uma série passa e um dos últimos locais vai nela.

Agora sim, apenas eu, um local, alguns bodyboards e mais cinco surfistas no mesmo ideal.
A série está vindo. O local fica fora do pico. “Hei, hei!”, grito para outro na minha frente que tenta pegar a onda… e lá vou eu!
Na onda da série, naquela que tentei pegar o dia todo. Drop perfeito. Essa é boa. Cavo no lugar certo e boto pra dentro do tubo seco.
Que sensação!
Sinto a baforada nas costas e no rosto e saio depois dela, cuspido e realizado, amarradão!
Que onda alucinante. Vou sair. E saio pensando que ser brasileiro realmente faz a diferença . Com determinação, esperança… sonhadores, talentosos, corajosos, enfim tudo que nos surfistas brasileiros somos!
Isso nos faz passar o dia todo esperando pegar a onda da vida, ou simplesmente, realizar nosso sonho.
O sonho de surfar Pipeline.