Soul Surf

Paradoxos surfantes

A sensação de estar dentro de um tubo não é algo que possa ser documentado, é uma experiência vivencial com a natureza. Foto: Aleko Stergiou.

“Em Jaws, quando a ondulação bate na bancada, levanta um triângulo para o céu.” – Nicole Pacelli, 19. Campeã brasileira feminina de stand up paddle.
 
Quando baixa para a matéria, nós, humanos, em geral, nos complicamos – ou apenas seguimos a nossa índole, cumprindo o ciclo previsto, e tendemos a apodrecer tudo à nossa volta no processo.

 

O interessante é que a vida, durante todo o seu percurso, vai imitando e ensaiando o seu próprio fim – a contínua deterioração da nossa expressão material: o próprio corpo.

 

Shiva, o deus hindu da destruição ou da transformação, perfeita metáfora do processo da vida humano, é símbolo e agente dessa nossa tendência.

 

A administração dessa condição corpórea é um desafio para o Super-Homem Do Milênio Perplexo. Hermético sim, mas com o coração grande. Poucos, pouquíssimos transcendem essa condição.

 

O mestre Yogananda foi um deles, com a comprovada e documentada preservação do seu corpo exposto, cheirando a flores, durante vinte dias depois da sua morte. Hoje, estamos tentando voltar a ser novamente corpo e espírito, ou como diz o meu amigo Fernando, um “Buda Beatnik” – “beat”, de beatificado. Sendo os dois, podemos voltar a ser um. Carne e espírito, marcando um encontro à luz do luar.

 

Beijos, abraços e um filhote de Homem nasce. Transitamos entre o bem e o mal, entre a iluminação e o pagamento do IPTU, entre a vontade de transcender e o desejo de enriquecer. A alma e o corpo clamam por uma re-união, separados que estão, há tanto tempo, por melancólicas e equivocadas trilhas socioculturais.

 

Como ser matéria e, ainda assim, preservar a nossa qualidade divina? Como usar um dos instrumentos mais poluidores que existem: a prancha de poliuretano e fibra de vidro e, ao mesmo tempo, buscar a transcendência espiritual que o surf provê com sua água salgada benta? Somos paradoxos ambulantes e surfantes.

 

A própria onda, segundo a escritora Susan Casey, “é um paradoxo. É objeto e movimento”. O surf não é um livro sagrado, documentado, mas é uma experiência visceral e vivencial que dá umas dicas. A simples prática do surf relativiza esse conflito intrínseco. A união com o divino – yoga – se materializa no ato de surfar.

 

Na tentativa de se apegarem a efêmeros – a impermanência é um dos conceitos-raiz não só do Hinduísmo como também do seu querido e famoso filhote, o Budismo – símbolos de poder, as castas “superiores”, na Índia antiga, foram discriminando os sudras / dalits, os “intocáveis”.

 

Arrastaram esse conceito, como um maligno mouse histórico, até hoje. A antiga máxima do historiador inglês do século XIX (1834 – 1902), Lord Acton, de que “o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente”, foi mais uma vez confirmada. Não é o nosso caso. O maior poder do surf consiste em não exercê-lo – a espada do samurai na bainha. O poder se esvai e se perde na violência. Não há poder a ser exercido sobre o outro. A coisa é contigo.

 

Meu amigo Makoto, um dos melhores alpinistas do mundo, tinha por hábito escalar algumas das montanhas tecnicamente mais complicadas, e, quando, depois de meses de preparação e treino, havia conseguido escalá-la e estava muito próximo do cume, apenas o admirava, olhava para o seu objetivo material, dava as costas e voltava.

 

O que dizer de tal atitude? O desafio era enfrentar o maior adversário, o seu próprio ego, a ilusão da vitória – necessariamente efêmera? Quando vem a série não dá para delegar, não dá para fingir que não é com você, não dá para não ser o real protagonista da sua existência. A metáfora não existe. E dizer que o surf é hype é um eufemismo vulgar. O relato desse fenômeno aqui contradiz isso, claro. Mas quem somos nós sem nossas contradições? Niente.

 

Elas nos definem. Sorry, ou melhor: não sorry, porque como diz o meu amigo e mestre iogue Cristóvão: “pedir desculpas não serve para nada, é só uma autorização para fazer outra vez. O que deveria ser dito é “não vou mais fazer isso”. Não é o meu caso: eu vou fazer outra vez.
 
Sidão Tenucci é escritor e surfista há 42 anos, viajou por 50 países e quer mais. É diretor de marketing da Ocean Pacific (OP). Autor dos livros Almaquatica ( Fnac ) e O Surfista Peregrino ( Livraria Cultura ). Se compraz em desagradar gregos quando é excessivamente documental, e troianos, quando é simplesmente vago (de “vaga”, onda).

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