Os segredos da A.B.O.G

Cavanhaque, costeleta, tatuagem, camiseta do Billabong Pro de Mundaka, boné Hinano Beer, inglês fluente, anéis em quase todos dedos, colarzinho tradicional de alguma ilha remota do Pacífico sul.

 

Frequentador da área VIP, o tempo todo vestindo seu óculos escuros de pelo menos 200 verdinhas, raramente visto sentado na areia, pranchinha Xanadu, roupinha “Thermoregurgitator”, hospedado no melhor hotel da parada, mais caro, melhor vista, quarto ao lado de um dos Top 5 do ranking 2002.

 

Passa perfuminho pra ir ao palanque. Aquele é o seu momento: o momento que tanto espera, enchendo o burro de dinheiro, para poder gastar em grande estilo na etapa do mundial aqui no Brasil.

 

Notem que o perfil de um membro oficial da A.B.O.G. varia dependendo do poderio econômico, ou político do bacana – cada um na sua. A entidade não é nova, sua fundação remonta de meados da década de 80. Antes disso, como relata Rabbit em sua biografia, a gente tomava mais do que dava, mas isso é outra história.

 

Associação Brasileira de Baba-Ovos de Gringos é hoje no Brasil uma das nossas representações mais repimpadas (corram ao dicionário). Arrisco dizer que tem mais prestígio do que a ASP South America e, sem dúvida, muito mais carismática do que o nosso órgão (epa!) máximo, a CBF.

 

Começa pela organização. Ninguém chega perto de um gringo durante uma etapa brasileira sem ter que passar pela triagem de um baba-ovo. Eles têm seu próprio e eficiente sistema de segurança.

 

Verdade seja dita: a maioria absoluta de membros (opa!) da A.B.O.G. estão infiltrados na imprensa. Mas isso não foi sempre assim. No início, pessoas relacionadas com a organização dos eventos internacionais tinham a prioridade, até que um fã exaltado entrou com pedido no Supremo Tribunal Desportivo e conseguiu uma liminar para acabar com a festa.

 

Os preparativos para receber nossos ilustríssimos convidados começam três meses antes, com grande antecedência, podemos atentar, para melhor hospedarmos ‘los gringos’. A palavra “gringo”, no dicionário atual das revistas de surfe nacionais, denota qualidade superior.

 

Quando algum jornalista quer realçar uma virtude, um avanço tecnológico ou coisas do gênero, logo apela para o adjetivo “gringo”. E, finalmente, quando um editor bem estabelecido em confortável ambiente refrigerado consegue traduzir todo seu provincianismo ao achar que faz um elogio, quando escreve em análise que Rodrigo Dornelles, um dos nossos 45, tem um estilo “gringo”, quando o máximo que o sujeito consegue extrair de elogio para um compatriota é o adjetivo  ‘gringo’, nesse momento tudo que foi feito até agora é lixo – o último a defecar, por gentileza, dê descarga.

 

O Pedra tem um centro de gravidade baixo, com os braços elegantemente bem postados, rasga com rara elegância, lembra por vezes a firmeza que tinha o Picuruta, ou Mauro Pacheco, mas ‘gringo’ não. Falando nisso, o Joel Parkinson tem um jeito muito Picuruta de surfar, se alguém que me lê tem mais de 30 anos, preste atenção nas cavadas de back-side do ‘gringo’.

 

“Gringo”, aliás, vem de gritos revolucionários mexicanos, quando pichavam “Green Go!”, em outras palavras, “vaia-te Cabrón!”. O saite também tem seu militante da A.B.O.G., um galego que luta até contra os indefesos sempre armado com os argumentos da cartilha A.B.O.G..

 

É a parte agressiva e inconformada da  A.B.O.G.. Sempre reivindicando mais fotos de gringos em revistas, mais vídeos gringos nas prateleiras e mais Twix na Sessão da Tarde. Estes são às vezes tão inconformados que apelam para antiquíssima arte fundada por Jimmy Page e Robert Plant de inverter frases de louvor ao Demo.

 

A gurizada pena pleiteando por mais reconhecimento aos gringos, e, muita atenção!, só escrevem em inglês, pois reduzidíssimos de vocabulário pátrio.

Normalmente, os piázinhos tem papai e mamãe abonados para soltarem, sem fazer contas, super faturados dólares pro bebê se divertir com os amiguinhos – trancados no quartinho decorado com páginas da Transworld, posterês do Blink e uma fotografia escondida da Tia Xuxa, com dedicatória e tudo para o baixinho – brincando depois de pirataria, fazendo cópias ilegais dos vídeos gringos.

 

O camarada chega em casa com a prancha nova e liga pra rapaziada toda chamando pra ver a pranchinha, de tão maneira, ‘gringa’. O sonzinho que o malandro descobriu lá de chapecó, bandinha desconhecida, é tão bem feito que é ‘gringo’. A roupa de borracha nacional está tão bem feitinha que a qualidade é… adivinhem? Gringa, naturalmente.

 

Nada mais justo do que a A.B.O.G., correto? A A.B.O.G. fornece a seus hóspedes todo conforto que a gringalhada merece, sem restrições! Um abog tem como meta de vida representar uma marca estrangeira e ciceronear os gringos da hora que chegam no aeroporto até o tchauzinho, lágrima escorrendo pela face maltratada de sol, no saguão de embarque, ou, dependendo do cacife, na sala VIP, onde os gringos são mais gringos.

 

Aconteceu na casa de um abog: véspera da chegada. – Mãe, vai ficar um gringo aqui em casa durante o campeonato mundial, tá? – mas, meu filho querido, onde ele vai dormir, não temos cama extra, nem colchão. E a casa está tão desarrumada… – Num tem problema, mãe. Eu durmo na sala e ele dorme no quarto…

– …….???……….??????………..

 

Dois dias depois.

 

– Meu filho, seu amiguinho nunca dá descarga no vaso sanitário, fede a maconha e come de boca aberta fazendo um barulho terrível… – Mãe, cê tem que ver a rasgada desgarrando a rabeta que ele dá.

 

– Sim, querido, mas na noite passada ele vomitou no tapete da sala…
– Esquece isso, mãe! O que é um mísero tapete persa? O John disse que vai me emprestar a prancha reserva dele hoje, se não tiver onda, e me vende baratinho se eu gostar dela… – ………?????………???????????……….

 

Os nomes e o lugar foram mudados para preservar os abog, segundo o
código da A.B.O.G. de ética na imprensa.

 

Não há conclusão digna de um texto tão maquiavélico e mal redigido como este senão a célebre frase do Ricardo Martins, aquele que faz umas pranchinhas gringas, quando indagado sobre o tema no vídeo Cambito 1: – Gringo é o caralho!

 

Falei?

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