Os paradoxos do surfe moderno

Andando devagar eu atraso o fim do dia, escreve um amigo na capinha da fita. Depois de um dezembro fervilhante e sem ondas, começa janeiro mais ameno e logo na primeira semana me aparece uma bela duma ondulação aqui pelo Sul/Sudeste que já dura três dias.

 

Dia desses, voltando de 132, Central-Leblon, não resisti a irritação do trânsito de final do dia e saltei do ônibus ainda em Ipanema, andando é bem agradável, principalmente numa tarde daquelas.

 

Nada mais aborrecido do que descrições poéticas do pôr do sol, portanto, lá vou eu. A praia, 7 da noite. Lotada, apinhada de gente, os quiosques no calçadão disputadíssimos pela turistada, acotovelei-me até o balcão. Pedi um chope. Estalei a boca no primeiro gole, estupidamente gelado. Tudo que era vivo naquele momento se virava para o Sol, o Astro Rei das canções antigas.

No terceiro gole, a turma do apito no Posto 9 já ensaiava as palmas. Vocês, de fora do Rio, sabiam que existe uma turma que apita quando a polícia se aproxima e bate palmas furiosamente para o Sol poente? Nunca tinha visto a ‘galera’ (palavrinha mais fuleira!) nesse estado de graça na praia. Fiquei dividido entre o escárnio, o desprezo e o entusiasmo.

 

Quase fui tomado de emoção solidária, mas quatro meninas acenando efusivamente para o horizonte, como se despedissem de um parente querido que partia, me recobrou a sanidade.

 

O Sol se afogou, terminei o chope e continuei a caminhada. Enquanto andava, ainda escutava gritinhos estridentes que furavam meu ouvido. E lá se iam uma sete e tal da noite que se anunciava, com os gritinhos insuportáveis.

 

Assobiei “Cidade Maravilhosa”, “Fio Maravilha” e “Samba do avião”. Tudo fora de tom. Não levo o menor jeito para música. Na minha opinião, o Rio é a melhor cidade grande do mundo para ser surfista, mas agora não tenho paciência para explicar porquê.

 

Fica pra próxima. Fico enlouquecido ao ler coisas como “Brasil não tem onda”. Isso é uma idéia pré-concebida como a de que nosso surfista maior, Fábio Gouveia, vem de família humilde e sem instrução. O “Fia” tem pai engenheiro agrônomo e mãe professora de literatura, estudou em Colégio Maristas, a instituição de ensino mais tradicional de todo Norte/Nordeste.

 

Gouveia é dos poucos surfistas profissionais que não passa vergonha quando precisa escrever um texto e o faz com estilo (como em tudo), bom humor e uma dose de jornalismo ‘insider’ na medida certa.

 

Considero Fia o texto especializado mais saboroso no momento, distante léguas dos outros pobres-coitados – o signatário incluso. Gouveia seria um excelente editor – quem sabe não será?

 

Os malandrinhos da gang “me engana que eu gosto” não sabem, mas Gouveia dava uns aéreos em 87/88 que davam até vertigem e os executava com elegância. Perdoem-me a nostalgia, coisa mais chata…

 

Entretanto, como ninguém fala disso, eu escrevo. Outro que voava feito a pôrra, com categoria inspirada no mestre, era Hemerson Marinho, o “Salvador da Pátria”.

 

O “Tio Chico”, dada sua semelhança com o personagem da “Família Adams” foi um dos maiores surfistas que o Nordeste já ofereceu para o Brasil. Seu desempenho num Haleiwa gigante, onde João boi tremia feito vara de marmelo, foi escrito em prosa e verso pelo velho ciclope Derek Hynd na cobertura da revista Surfer.

 

Hynd salientou que um pequeno gigante brasileiro desafiou as condições mais assustadoras jamais vistas em Haleiwa. Isso vocês não vão ler em lugar nenhum. Talvez leiam de dez em dez anos que o Hemerson foi o melhor brasileiro na mundial do Japão em 90, talvez o que tivesse as equipes mais fortes desde 84/86, com Slater, Machado, Knox e cia Ltda.

 

E olhe, rapaz, que agora é temporada de B.F. Terra de Hemerson, terra de Fabinho.

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