Segunda-feira. Meu patrão decretou ponto facultativo. O que é o mesmo que dizer: “vai surfar, meu filho”. Fui.
No Ulé (ES) de sempre, boas, fortes e frequentes ondas. Surfei como há muito não surfava; tanto que comecei até a me enganar, achando que o tempo, esse senhor absoluto e implacável, não vem, afinal, cobrando tributo dos mais onerosos de meu corpo que deixou os 20 anos em algum lugar já bastante distante e quase esquecido.
Entre a curiosidade de testar meus atuais limites e a teimosia de lutar contra o cansaço que começa a limitar a remada e a performance, nem percebo que o ambiente ao meu redor vai, lenta e dissimuladamente, se transformando.
Quando me dou conta, estou sozinho na praia da minha adolescência, no mesmo lugar onde fiquei de pé sobre uma prancha pela primeira vez; no mesmo lugar onde, ainda moleque, fiz, inconscientemente, porém com muita convicção, uma das escolhas (terei sido escolhido?) mais importantes e definitivas da minha breve e insignificante caminhada sobre a terra.
Percebi que estava sozinho, mas aquilo não me pareceu estranho e sim, sonho; sozinho, percebi o brilho etéreo e quase eterno do sol sobre o tapete de líquido marrom e amigável; percebi a ausência inusitada do vento, esse companheiro quase inseparável do surfista dessas paragens; percebi que o universo se fizera hospitaleiro, como quem prepara uma boa acolhida.
Esperei tranquilo, a próxima série e a surpresa próxima. Surfei sem pressa e sem pressão, fluindo (achando que fluía) em harmonia com o oceano. Egoísta, quase me aborreci quando senti (ou pressenti) a presença de outro alguém como eu, outra pessoa, mais uma pessoa, como eu, indigna daquela pintura cósmica que o Grande Artista desenhava, eu achava, só para mim; estremeci pensando que um impuro poderia ser tolerável; dois seriam o suficiente para desfazer aquele encanto.
Não me virei para cumprimentá-lo, aquele inconveniente invasor de sonhos; foi quando percebi que ele me era familiar; percebi quem era ele, e descobri que era quase íntimo. Olhei-o de soslaio, sem olhar, quase adivinhando; quase não o olhei, pois conhecia bem aquele rosto, ao menos aquele rosto, aquele corpo.
Sim, aquele rosto e aquele corpo me eram familiares; me eram, na verdade e precisamente, comuns. Eram meus. Ou haviam sido meus, porém se foram. Foram meus, me pertenceram no início, mas o domínio e a propriedade que um dia tive sobre eles eram fugazes. Sempre foram, como cumpre ser. Ele mal me percebe; está vidrado, extasiado, tem nos olhos a perplexidade feliz da descoberta, da expectativa e da perspectiva da imortalidade, ilusão invencível dos 16 anos eternos.
Percebo a prancha, a primeira prancha. É ela, a velha K&K, quadriquilha, alquebrada, surrada, experimentada porém não vencida, comprada de Alexandre Jamelão, o maior gigante daqueles tempos antigos em que os gigantes eram reais, sim, Jamelão, aquele gigante que trazia a pureza no olhar esmeralda.
Ele se aproxima desajeitado, balançando incerto, tentando equilibrar-se sobre a prancha. Nem me percebe. Agora amistoso, espero que ele se aproxime e pergunto: “E aí, já conseguiu ficar de pé?”.
Meio surpreso, o rapaz magricela responde: “Ainda não, só chegar até aqui já foi um sacrifício!”.
Pensei em dizer-lhe que colocasse o pé esquerdo na frente da prancha, como ele faz no skate, pois talvez isso tornasse mais fácil o aprendizado do surf; mas achei que, por algum motivo, não deveria interferir na trama de eventos que me trouxera até aqui.
Não que muitas coisas não devessem ter sido feitas de maneira diferente; mas, uma vez que foi assim que tiveram lugar, assim sejam. Também os arrependimentos fazem de nós o que somos; também, ou talvez principalmente, os caminhos errados nos ensinem a direção certa. Perguntei, já querendo me dar a conhecer: “E Betão, já pegou a primeira?”.
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Ele me olha surpreso e desconfiado. Ainda não me reconheceu. “O senhor conhece Betão?”. (Repare como ele, polidamente, me chama de senhor. É bem educado; Dona Nair fez um excelente trabalho!).
Sim, eu conheci Betão. Tive esse privilégio. Pensei em contar a ele que Betão teria poucos, bem poucos, anos mais neste mundo. Pensei em aconselhá-lo a aproveitar ao máximo a companhia daquele grande amigo, daquele irmão; mais uma vez, agora bastante convicto, achei que não deveria interferir no curso do destino; mais ainda porque a partida de Betão estava determinada; não foi um acaso infeliz, uma estupidez produzida, algo que poderia ter sido evitado, como um acidente de carro provocado por um idiota bêbado ao volante.
Tais coisas não são destino, mas a pura imbecilidade humana, em seu estado mais brutal, interferindo e destruindo planos e futuros; são como a bala faminta que parte do cano covarde e assassino, como a lâmina afiada na mão selvagem, sedenta por cumprir sua tarefa de produzir morte.
Não, o tempo de Betão foi determinado pela sábia e irresistível mão do Destino: o instrumento, um câncer que devastou aquele que era o mais forte entre os garotos do Farol. Algumas coisas nos são vedadas por um motivo cósmico, estabelecido desde antes da fundação do tempo; a ninguém é dado o poder de desvendar mistérios futuros sem um propósito e sem autorização da Mente por trás de tudo.
Não, não era preciso saber; apenas desejei ardentemente que ele pudesse ser, pelos próximos dois ou três anos, o melhor amigo que Betão pudesse ter. Lágrimas furtivas turvaram meus olhos, e esta foi a homenagem que pude prestar ao soberbo amigo de minha juventude. O garoto me olha curioso; creio que está começando a me reconhecer.
– O senhor me lembra meu pai.
– Sempre te disseram isso, não é verdade?
– O quê?
– Que você é muito parecido com seu pai.
– Como assim? Eu estou falando do senhor.
– E eu estou falando de mim e de você, ou seja, de nós. A propósito, pode deixar as formalidades de lado; elas são desnecessárias entre duas pessoas tão próximas. Quer dizer, tão distantes. 25 anos de distância, pra ser bem exato. Enfim: não somos próximos; somos íntimos. Ainda não entende, ainda não me reconhece?
– O senhor deve estar me confundindo com outra pessoa. Bem, seu rosto é bastante familiar, mas…
– Já terminou de ler Os Três Mosqueteiros? Ou melhor, já está lendo pela segunda ou terceira vez?
Agora ele ficou realmente assustado. Como é que o senhor sabe que eu estou lendo Os Três Mosqueteiros, perguntou; e, já estou na segunda vez.
– Em qual parte? Vinte Anos Depois, ou já está no Visconde de Bragelonne?
– Estou no Visconde… como é que o senhor… como é que você sabe disso?
– Sei porque somos a mesma pessoa; sei porque eu sou você.
– O senhor não está confundindo nada; o senhor está é maluco. Dá licença que eu vou tentar aprender a surfar um pouco mais pra lá…
– Entendo que você não acredite; eu também acho isso muito estranho. Estranho, mas não impossível, pois é exatamente o que está acontecendo; talvez um de nós dois tenha entrado em algum tubo do tempo…
– Ou talvez o senhor esteja abusando das drogas…
– Não. Nós deixamos as drogas lá pelos dezoito anos e…
– Tá vendo como você está enganado? Eu nunca usei drogas! Eu nunca usaria drogas! Eu detesto drogas!
– Sim, você detesta drogas, detesta cigarro e detesta álcool; mesmo assim…
Agora ele me olha quase com raiva. Sei o que está sentindo. Para quem tinha completa aversão a qualquer tipo de droga, ouvir alguém alegando ser você no futuro e dizendo que você entrará por esta porta não é nada agradável nem plausível.
Me arrependi de ter mencionado o fato. Pensei em dizer-lhe que essa fase seria rápida; que seria logo substituída por um caminho estreito e difícil, espinhoso, com várias pedras no percurso; porém completamente compensador. Que nesse caminho ele encontraria a paz de espírito que sempre buscara. Mas ele foi mais rápido.
– Ouça: acho essa história toda uma grande maluquice; mas, se você realmente sou eu no futuro, não deveria estar me contando nada do que vai acontecer; quando você me conta alguma coisa, qualquer coisa, está interferindo nas minhas escolhas, e assim estará modificando o seu passado e o meu futuro.
– Tem razão. Foi mal; não conto mais nada.
– Ótimo. A propósito, como está todo mundo?
– Mamãe vai bem. Tem lá os probleminhas da idade, mas a cabeça funciona que é uma beleza. Os meninos estão bem, todos são pessoas de caráter, idôneas… Ah! Ricardo é pai de Davi, um adolescente quase da sua idade, que está doido para aprender a surfar comigo. Quer dizer, com você. E Alexandre é papai de Pedro, um alemão que acaba de fazer três anos, adora violão e dá um trabalho danado! Tem também a Aninha, uma fofura de sobrinha de 4 anos, e a Valentina de uns 6 meses, outro anjinho de sobrinha.
– Legal. Esse futuro imaginário parece divertido.
– Ainda não acredita. Entendo; mas, para provar que isso não é um sonho, lá vai: sei que você passava os intervalos das aulas na biblioteca, escondendo sua timidez nas aventuras narradas por Julio Verne e Alexandre Dumas; sei que sai pouco nos finais de semana, que se apaixona com facilidade, mas que tem se depara com obstáculos quase intransponíveis na hora de tentar conquistar seus amores…
Ele parou um pouco, pensativo. Olhou para mim meio sem jeito, como que quer perguntar algo, mas não tem coragem. Por fim, animou-se:
– Olha só. Não consigo acreditar nessa história; mas você parece realmente saber muitas coisas a meu respeito. Esse assunto é uma coisa que me aflige um bocado. Se você realmente veio do futuro…
– Eu não vim do futuro; você é que veio do passado.
– Que seja; será que, no futuro, eu… tipo… sabe como é…
– Se você encontrará o amor da sua vida?
– Tipo assim…
– Sim, definitivamente. Vai demorar bastante. Por vezes parecerá impossível; você vai sofrer um bocado com paixões não correspondidas; mas, ao final, quando você a encontrar…
– Então?
– Então, valerá cada minuto de todos os anos de espera!
Seus olhos brilharam de esperança. E ela será bonita, perguntou.
– A coisa mais linda e sublime e amorosa que você jamais viu.
– Sério?
– Sem dúvida. Espere e verá.
– E como é o nome dela? Como eu vou conhecê-la?
Lembrei de quando bati os olhos nela pela primeira vez; de como meu coração disparou com aquele encanto de olhos amendoados de índia quíchua, aquela beleza genuinamente sul–americana. Quando meus olhos pousaram nela, nunca mais se desviaram. Meu coração se apegou ao seu, imediatamente e para sempre.
– Não se preocupe; quando acontecer, você saberá que é ela.
Ele pareceu satisfeito com a resposta. Então, começou a me examinar minuciosamente, como se estivesse diante de um espelho. E, na verdade, eu era para ele como um espelho profético. Pareceu desapontado com a ausência quase completa de cabelos na cabeça.
– Quantos anos você tem?
– Estamos com 40, caminhando a passos largos para os 41. E voltei a correr e a malhar; se nos encontrarmos novamente daqui a alguns meses, garanto que essa barriguinha já vai ter sumido.
– Quantas vezes o Galo foi campeão brasileiro? E da Libertadores?
– Nenhuma, mas continua sendo o time mais lindo do mundo. Cheio de pernas de pau, mas, mesmo assim…
Ele ficou um tempo em silêncio, e então perguntou:
– E nós, conseguimos aprender a surfar direito?
– O suficiente para acharmos o surfe algo maravilhoso, uma das melhores coisas da vida. Não deu pra ser campeão mundial, mas nem sempre conseguimos tudo o que desejamos, não é verdade?
– Deve ser.
Uma onda subiu ao fundo. Remei forte em sua direção, sabendo que ele estava observando atentamente cada movimento meu. Procurei fazer o melhor: dropei firme, cavei com força na base e me posicionei para um belo tubo.
Quando voltei para o outside, ele havia desaparecido. Espero ter lhe dado um vislumbre agradável do que o futuro o esperava. Poderia, e gostaria de lhe ter dito muitas coisas, dado muitos conselhos, feito muitos alertas; mas, ao final, isso não foi possível, e na verdade é assim que as coisas devem ser; construímos o futuro com as informações e ferramentas que temos à mão; nossas escolhas de cada dia determinam para onde vamos; que a luz do presente seja suficiente para o caminho.
Estava assim, meditando nesse insólito encontro (que, estranhamente, não me causou medo) quando senti outro surfista se aproximando. Olhei para o lado e vi o pranchão imponente chegando para estabelecer seu domínio inevitável. Olhei aquele surfista e imediatamente me reconheci; aquela cabeça (ainda mais) branca com seus cabelos (ainda mais) esparsos, o rosto (ainda mais) vincado pelas rugas de uma vida bem vivida.
Aquele era eu daqui a muitos anos. Olhei os braços, magros é verdade, porém ainda firmes; contemplei a barriguinha bem discreta e totalmente aceitável para um ancião de dias. Sorri para ele. Ele devolveu o sorriso com um aceno amistoso.
– Como vai, perguntei.
– Muito bem, graças ao Misericordioso. E você?
– Bem, muito bem…
– E Letícia?
Ele me olha sem nenhuma surpresa. Acho que entendeu imediatamente o que estava acontecendo. Até porque, para ele, esta não era a primeira vez.
– Letícia vai muito bem. Firme como um carvalho.
Logo veio uma onda e ele, claro, entrou nela sem dificuldade. Admirei a fluidez dos movimentos e a interação com a onda, resultantes de uma vida inteira de aprendizado. Muito satisfatório, pensei. Sem saber se ele havia me reconhecido, quando ele retornou, não resisti:
– Quantos anos o senhor tem?
– Estamos com 87 (sim, definitivamente, ele me reconheceu). Esperou um pouco e emendou:
– Mas com um corpinho de 86.
Remei na próxima onda, que ele, educadamente, deixou para mim. Não o vi mais quando retornei, mas isso não importava. Ele já havia me revelado tudo o que eu precisava saber sobre meu futuro.