Os caminhos do surf no Brasil

O primeiro capítulo do surfe brasileiro foi escrito na cidade de Santos, litoral de São Paulo. Há divergências quanto ao protagonista e a data do feito.

 

Embora Thomas Rittscher, um estrangeiro, reivindique para si a proeza, que teria acontecido na metade da década de 30, costuma-se apontar o brasileiro Osmar Gonçalves, Juá e Sílvio Malzoni como os pioneiros, no ano de 1938.
 
Quaisquer que tenham sido os precursores, tratou-se de uma prática pontual, isolada, que não foi partilhada por outras pessoas. Por essa razão, durou apenas alguns anos, caindo no esquecimento logo após a “aposentadoria” dos descobridores. 
 

O surfe só voltou a ser praticado nos anos 50, mas esse ressurgimento não se deu no mesmo lugar do nascimento e sim no Rio de Janeiro, mais precisamente na praia do Arpoador.

 

Nos estudos publicados sobre o tema, figuram, entre os responsáveis pela ressurreição do esporte, Paulo “Preguiça”, Jorge Paulo Lehmann, Irencyr Beltrão e “Bizão”.
 
Na “cidade maravilhosa” o surfe encontrou terreno fértil para se firmar como cultura e logo passou a compor o comportamento jovem da época. Ali nascia, para os brasileiros, a “cultura surfe”, que definia padrões de conduta, comunicação, vestimenta, etc.
 
Foi no Rio que ocorreu aquele que é apontado como o mais importante evento da fase inicial de nosso esporte no Brasil: a apresentação do australiano Peter Troy na praia do Arpoador, em meados dos anos 60.

 

O aussie, além de portar uma prancha de linhas e materiais muito diferentes das que eram produzidas aqui, alterando fundamentalmente a fabricação dos shapes realizados até então, mudou o conceito do termo surfar ao mostrar para os nossos pioneiros que pegar onda não se limitava a deslizar em direção à beira da praia.
 
Diante de tantas condições propícias para que houvesse um desenvolvimento incisivo, foi natural que no Rio surgisse o embrião da indústria do surfe nacional. Pelos mesmos motivos é compreensível que de lá tenham saído os primeiros surfistas que estiveram no Hawaii, que naquele local tenham sido criadas as primeiras publicações especializadas em surfe e que nas praias cariocas tenham aparecido os primeiros campeonatos e surfistas competitivos do país.
  
Fora do Rio de Janeiro o surfe só começou a se tornar um veículo de influência comportamental, ditando um verdadeiro estilo de vida, no final da década de 60, embora nesse período e na década seguinte ainda houvesse grande influência dos cariocas na conduta de toda a tribo nacional.
 
No Estado de São Paulo, praticamente ao mesmo tempo, formaram-se três pólos: Santos e São Vicente, Guarujá e Ubatuba. Nas vizinhas e indissociáveis Santos e São Vicente o surfe, como instrumento cultural, foi introduzido por nomes como Dudu e Carlinhos Argento, “Lagartixa”, Homero, Nelsinho, Horácio Moraes “Cocada”, Eduardo Faggiano, Francisco “Cisco” Aranã e os irmãos Walters.

 

Em Ubatuba, entre os pioneiros estavam Paulo e Ricardo Issa, além de Fábio Madueño (este, antes de freqüentar o norte do Estado, já surfava no Guarujá).
 
No Nordeste, os primeiros relatos de surfe também datam dos anos 60. No fim dessa década, em Salvador, começou a nascer uma cena forte, dando mostras de que o esporte também influenciaria a juventude da região.
 

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No sul do país, acredita-se que os surfistas pioneiros sejam integrantes das famílias gaúchas Johanpeter e Sefton, os quais no fim dos anos 60 exploraram as regiões de Imbituba e Garopaba, em Santa Catarina.

 

Em Floripa, o surfe apareceu no início da década de 70 e, com a presença constante de surfistas cariocas, a prática rapidamente se consolidou.
 
Do fim dos anos 70 à metade da década de 80, Rio de Janeiro e São Paulo brigaram pela hegemonia do esporte, disputa que refletiu nos confrontos travados à época dos festivais de Saquarema e Ubatuba.
 
Desse período aos dias de hoje o esporte

ganhou outra dimensão. Gerou uma indústria respeitável, que movimenta centenas de milhões de reais por ano.

 

Também ganhou status de esporte profissional, contando com dezenas de associações, clubes, federações e estrutura digna de qualquer dos esportes ditos “convencionais”.  

Diante da imagem de atividade saudável e de parte integrante da cultura jovem, algumas esferas do Poder Público passaram a enxergar no surfe um relevante mecanismo de inclusão social.

 

Embora o Estado ainda não intervenha de forma satisfatória, já tomou iniciativas importantes, como a criação de escolinhas públicas, o patrocínio e o apoio a campeonatos de grande porte, a realização de eventos em homenagem a surfistas pioneiros, etc.
 
Essa mesma visão fez com que setores da indústria e prestadores de serviço considerassem o surfe um eficaz instrumento de marketing para atingir o público jovem, com constante presença em campanhas publicitárias e programas televisivos.
 
O surfe está instalado em todas as regiões litorâneas do país. E também rompeu as barreiras do litoral, deixando de ser apenas uma atividade esportiva para efetivamente ditar comportamentos, influenciando gente que mora a centenas de quilômetros da praia.
 
No interior de São Paulo, a centenas de quilômetros do litoral, conheci pessoas que à primeira vista pareciam tão “surfistas” quanto eu, na medida em que vestiam roupas e acessórios produzidos por grandes marcas de surfwear. Será que eles alguma vez eles surfaram? Provavelmente não, mas de algum modo sofrem influência desta cultura.

É impossível não citar, ainda, o campeonato brasiliense de surfe, realizado há alguns meses em Santa Catarina. Quem, no passado, poderia imaginar uma competição de surfe envolvendo atletas residentes na região centro-oeste?
 
Esse forte processo de massificação do esporte ocorreu de forma mais incisiva nos 80 e 90. Se antes dele, São Paulo e, principalmente, Rio de Janeiro, comandavam as ações dentro e fora d’água, hoje já não se pode dizer o mesmo.
 
Levemos em conta a seguinte lista: Fábio Gouveia, Hemerson Marinho, Carlos Burle, Eraldo Gueiros, Joca Júnior, Jojó de Olivença, Dunga Neto, Cristiano Spirro, Felipe Dantas, Aldemir Calunga, Armando Daltro, Danilo Costa, Fabio Silva, Wilson Nora, Tânio Barreto, Neco e Teco Padaratz, David Husadel, Peterson Rosa, Rodrigo

 

Dornelles, Guga Arruda, Marcondes Rocha, Marco Pólo, Jihad Kohdr, Gustavo Aguiar, Paulo Moura, Marcelo Nunes e Bernardo Pigmeu. O que esses surfistas têm em comum? Nenhum deles surgiu no eixo Rio-São Paulo, mas todos, de alguma forma, fazem parte da história do surfe brasileiro.

 

Nesse elenco temos integrantes e ex-integrantes do WCT, campeões do WQS, campeões brasileiros, vencedores de etapas do circuito brasileiro, campeões brasileiros amadores, destaques em temporadas havaianas, ganhadores de eventos internacionais em ondas grandes, etc.
 
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São Paulo e Rio já concentraram toda a indústria surfwear, foram palco dos principais campeonatos e berço de alguns dos melhores surfistas.

 

Por esses motivos, também eram o destino, ainda que temporário, dos atletas nordestinos e até de alguns oriundos do sul que, em busca da realização do sonho de ingressar no surfe profissional, migravam em direção ao Sudeste.
 
Hoje já não é coerente afirmar que os Estados de São Paulo e Rio reúnam a indústria, os talentos e os grandes eventos.

 

E em razão dessa mudança de panorama, as antigas forças hegemônicas do surfe brasileiro já não atraem tanto os surfistas da região Nordeste, os quais, juntamente com vários tops

paulistas e cariocas, passaram a se instalar naquele que parece ser o novo eldorado do surfe nacional: Santa Catarina.
 
Em solo catarinense, onde a boa qualidade de vida é indiscutível – possivelmente uma das melhores do país -, o surfe encontra condições ideais para ganhar consistência, fato que poderá impulsionar o progresso dessa prática em toda a região sul.

 

Santa Catarina dispõe de excelentes ondas, lá o surfe conta com um apoio razoável do governo e, o mais importante, as pessoas se mostram fascinadas e envolvidas com o esporte. Notem, por exemplo, o destaque que os habitantes locais deram à etapa nacional do WCT.

 

O Nova Schinn é o evento do ano e mobiliza toda a comunidade local. Nos anos em que a etapa brasileira do WCT foi realizada no Rio de Janeiro, apesar do comparecimento de grande público, foi pequena a repercussão que ela gerou no contexto dos eventos internacionais promovidos anualmente na cidade.
 
Também parece relevante nessa nova etapa do surfe brasileiro a entrada incisiva do Nordeste nos calendários profissionais nacional e internacional, com duas fortes etapas do WQS e dois eventos do circuito nacional.
 
A região é uma fábrica incessante de talentos. Lá surgiu, inclusive, o melhor surfista de nossa história, o paraibano Fábio Gouveia. Embora ainda sejam escassos os investimentos no surfe nordestino, é perceptível o apoio que algumas marcas sediadas no sul e sudeste têm dado ao surfe da região, promovendo ou apoiando eventos e patrocinando atletas locais – ex: Danilo Costa, Fábio Gouveia, Patrick Tamberg, Pablo Paulino, Jano Belo, Tininha, Sávio Carneiro, Flávio Costa, Heitor Alves, etc.
 
Apesar de a economia nacional não ajudar, pode ser um bom momento para que o surfe local atinja uma melhor estruturação e se fortaleça.
 
Há quem entenda que essa atual conjuntura do surfe nacional, caracterizada pela descentralização da indústria surfwear e, principalmente, de seus respectivos investimentos, esteja diretamente vinculada a um enfraquecimento institucional do surfe no eixo Rio-São Paulo. Mas isso não parece verdade.
 
Apesar de ser evidente que nesses Estados as atividades profissionais ligadas ao surfe possam ser mais bem exploradas do que atualmente são, isso não significa que com uma melhor organização a região Sudeste retomará a dianteira no comando do esporte em termos nacionais, porque acredito ser a descentralização um processo irreversível. Pelo mesmo motivo, não vejo outras localidades se formando como potenciais forças hegemônicas.
 
Concluindo, caminhamos para o estabelecimento de diversos pólos de equivalente importância, embora um ou outro possa, momentaneamente, ficar em destaque em relação aos demais.

 

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