No meio do crowd de Teahupoo, Tahiti, tem de tudo. No canal, fora da zona de impacto, ficam os jet skys e a galera do stand up. No pico, ficam surfistas e longboarders, todos a espera de ondas de Sul ou Sudoeste.
Mais para dentro da bancada, em uma área que costumo chamar de “sorongo”, ficam os bodyboarders caçadores do “bowl de Oeste”.
Os brasileiros Paulo Barcellos e Léo Leite fazem parte do seleto grupo que dropa em Teahupoo. Os bodyboarders contam um pouco dos segredos do pico mais perigoso do mundo.
Paulo Barcellos é bodyboarder profissional e campeão do mundo. O atleta dá uma aula sobre Teahupoo, pois já tem 15 temporadas no país.
Léo Leite é bancário e está de férias no Tahiti. Ele conta o que achou de sua primeira temporada e do sentimento de pegar altos tubos no paraíso.
Paulo, explique o que é o “bowl de Oeste”.
Bowl de Oeste, ou West bowl, como eles chamam aqui, são os melhores e mais intensos tubos que se pode pegar em Teahupoo.
Quando você dropa a onda, uma direita te empurra para a bancada. Meio atrasado, você tem que se posicionar para dentro do tubo sabendo que ela está te empurrando para pedra. Isso sem falar que você começa a onda em uma direção e no meio do tubo tem que mudar a linha para fazer a curva, tudo isso dentro de um tubo com uma bancada bem rasa e afiada embaixo.
Pegar um tubão de 3 metros em Teahupoo te deixa com tanta adrenalina que três bombas por dia já são o suficiente.
Léo, qual a sensação de dropar no “bowl de Oeste” pela primeira vez?
Foi uma mistura de vários sentimentos. No início dá um pouco de medo por ser uma onda muito perigosa, mas a vontade de surfar prevalece e, com a ajuda da famosa adrenalina, você toma coragem e vai!
Meu primeiro West bowl foi o tubo da minha vida. O mar nem estava bom, mas a onda veio e encaixou na bancada. Eu estava no momento certo e consegui dropa-lá com perfeição. De dentro do tubo eu conseguia ver o visual das montanhas, foi um momento muito especial para mim.
Paulo, qual o melhor posicionamento para o bodyboard em Teahupoo?
O melhor posicionamento é sempre ficar um pouco mais atrás, pois os melhores tubos são os de Oeste mesmo. Mas aqui em Teahupoo parece que todo mundo fica educado. Estão sempre mandando você ir nas ondas! (risos).
Léo, como foi passar as férias surfando com mestres do bodyboard, como Paulo Barcellos, Ben Player e Mitch Rawlins?
Foi um aprendizado e tanto ver a nata do esporte atuando em Teahupoo. No dia épico, onde o mar apresentava condições perfeitas e com ondas enormes, estes três insanos só remavam nas maiores, pude perceber que eles são muito respeitados dentro d’água.
Surfar em Teahupoo é muito difícil, eles demonstraram muita tranquilidade e paciência. Às vezes ficavam quase uma hora esperando a onda certa, e quando ela surgia no horizonte, já vinha com o nome de algum deles. Da próxima vez vou tentar usar esta estratégia para pegar a bomba.
Paulo, qual a diferença entre Teahupoo e Pipeline?
Em Pipeline, apesar de acontecerem mais acidentes fatais, você consegue ver a onda vindo, porque nos dias grandes ela vem do segundo reef e dá tempo para se preparar e ir.
Aqui em Teahupoo não dá pra saber se ela está vindo e, de repente, você se depara com um muro de água que se você não começar a remar antecipado, a onda te joga lá pra cima e fica quase impossível fazer o drop.
Outra diferença é que aqui tem muito pouco tempo para pensar, ou vai ou desiste já. Eu sempre falo que para pegar a bomba no Tahiti, você tem que estar na hora certa e no lugar certo.
Léo, qual a sensação de chegar pela primeira vez em Teahupoo e pegar um dos melhores swells que rolou no ano?
É a melhor sensação do mundo. Me senti privilegiado por Netuno que não economizou com ondulações. Foram muitos tubos com praticamente todos os momentos eternizados por nossos amigos fotógrafos. Vou poder contar história para meus futuros filhos e netos (risos).
Paulo, qual e como foi a melhor onda que você pegou nesse swell histórico?
Não foi a minha maior onda surfada aqui em Teahupoo, mas foi a mais intensa. Remei e já no drop sai voando. Na base, acertei duas vezes no trilho para pegar o tubo. Para quem conhece Teahupoo, dá pra ver nas fotos que não dava para ficar mais fundo que eu já estava, aí, como a onda era uma meio de Oeste, tive que mudar a trajetória da linha e veio um vento enorme que quase me derrubou por duas vezes.
Quando eu sai do tubo estava o Nick Omerod na minha frente, ele me disse que foi o melhor tubo que ele já tinha visto na vida dele.
Léo, sua vez. Qual e como foi a sua melhor onda nesta trip?
Foi um West bowl em um final de tarde onde caiu só a galera do Brasil, pois o mar não apresentava as condições ideais.
Quando chegamos ao pico não sabíamos o real tamanho do mar, pois ele estava com uma forte tendência de subida, por isso ficamos cautelosos no início.
Lá em Teahupoo, às vezes a série demora e eu resolvi escolher bem a minha onda naquele dia. E lá veio ela. O Paulo tinha a preferência, mas ele estava muito atrasado para pega-lá e neste momento eu só escutei ele gritando: “vai, vai, rema”. Na hora bateu um nervoso que, quando comecei a remar, nem sentia direito meus braços entrando na água.
Só lembro que de repente já estava descendo a ladeira, e o tubo vindo logo atrás. Eu nem usei a técnica de colocar as pernas para dentro da onda com o objetivo de fazer uma cavada mais colocada porque eu não queria perder a velocidade, então eu controlei a fera só com o braço.
Lembro que o lip quase me pegou, mas graças a Deus deu tudo certo e consegui fazer uma cavada perfeita. Era um tubo imenso e bem esverdeado. Nunca vou me esquecer desta onda que infelizmente não teve registro, mas posso dizer que o Calunga viu o tubo da minha vida de camarote. Ele veio me pegar de jet e comemoramos muito. Valeu Calunga! Um exemplo de surfista.
Valeu Paulo, valeu Léo. Algum agradecimento em especial?
(Paulo) Queria agradecer aos meus patrocinadores, Genesis Fish e Backdoor, e a todos que estavam lá registrando os momentos: Camarão, Tojal e Bidu!
(Léo) Agradeço a Deus por me iluminar nos difíceis caminhos pela vida. A minha família, minha namorada e meus grandes amigos. E não posso me esquecer da galera que exibiu atitude nas poderosas ondas de Teahupoo, são eles: Felipe Cesarano, Ian Consenza, Stanley , Eric de Souza, Paulo Barcellos, Tojal. Lino, Bidu, Camarão, Leo, Careca e Marcelo Freitas, Obrigado galera!





















