Os bastidores da Tow-In World Cup

#O dia 7 de janeiro de 2002 entrará para a história do surf como um divisor de águas. Patrocinado pela Mega Studios, o primeiro campeonato mundial de Tow-in, o Tow-In World Cup, foi realizado nesse dia, em Jaws, com ondas épicas de mais de 60 pés.

Das quatro ondas que concorreram no concurso Nissan Xterra XXL Big Surf Awards, que premia a maior da temporada (vencido pelo brasileiro Carlos Burle), três foram surfadas nesse dia. Uma delas foi um tubo nota 10 de Mike Parsons em Jaws, no Hawaii. O tamanho? 64 pés.

O resultado do campeonato todos nós sabemos: a glória do surf brasileiro com Rodrigo Resende no topo do pódio com o havaiano Garett McNamara. Porém, toda essa história teve um outro herói do qual pouco se falou: o carioca de 38 anos Rosaldo Cavalcanti.

Ele foi o responsável direto pela idealização e organização do evento, desde o começo, tendo suportado as mais diversas pressões e viabilizado uma competição impecável quanto à organização, seriedade e respeitabilidade.

?A verdade é que chegou um momento em que a pressão ficou tão grande que quase enlouqueci, passei diversas noites em claro devido à diferença do fuso horário com o Brasil. O telefone tocava às 03:30 da manhã, pois no Rio já eram 11 da manhã. Graças a Deus, deu tudo certo?, desabafou Rosaldo.

#O evento teve um grau de organização pouco comum em campeonatos de surf. Área vip com arquibancada, fartura e variedade de comida e bebida, massagista, entretenimentos diversos, além de outras mordomias estavam à disposição dos espectadores enquanto 13 duplas disputavam o evento ? que não teve substitutos por razões de segurança. Cerca de 100 pessoas trabalharam nele, sendo 60 na filmagem e 40 na organização e seis câmeras cobriram o evento dos mais diversos ângulos.

Rosaldo conta que tudo começou com um sonho de um amigo, dono de um estúdio de filmagens. ?Ele acordou e me ligou dizendo: Rosaldo, sonhei que eu faria um filme de um campeonato mundial de Tow-in, você acha que é possível??. A partir daí, nasceria o projeto que levou quase um ano para se concretizar.

Vários lugares foram cogitados, como Mavericks, Cortez Banks, Jaws e Tasmânia. Jaws foi o pico escolhido por suas condições de luz e cenário, além da maior facilidade de logística e organização.

No Hawaii, o local Rodney Kilborn funcionou como importante facilitador na parte burocrática, vendo licenças na prefeitura, fornecedores confiáveis etc. Seu apoio foi fundamental para que os brasileiros pudessem organizar o evento. ?É claro que ser brasileiro era um fator negativo?, lembra Rosaldo. ?Por isso procuramos ser profissionais, pagando todo mundo em dia e corretamente, além de tentarmos sempre ser diplomáticos?.

Na hora de escolher os juizes para o evento, Rosaldo confiou na experiência de Rômulo Fonseca, head judge da ASP por 10 anos, e o colocou como coordenador da tarefa. Foram convidados o brasileiro Lapo Coutinho, residente no Hawaii, Jack e Dade Shipley, juizes em várias edições do Eddie Aikau. Com esse time, estava formado o quadro de juizes.

#A prova teve uma janela de espera de quase um mês (17/12 a 12/01), enquanto a do Eddie Aikau foi de 8/12 a 28/02. A relativa falta de grandes swells nessa temporada fez com que as janelas dos dois campeonatos acabassem se sobrepondo.

Segundo Rosaldo, o Eddie Aikau tinha prioridade, conforme o combinado, para depois rolar o mundial de Tow-in. ?Vieram dois swells de 20 pés em Jaws, mas deixamos a prioridade para o Eddie Aikau. Porém, eles optaram por não realizar o evento. No dia 31/12 chamamos todo o staff para realizar o evento, mas o swell não passou de 15 pés plus e tivemos de voltar atrás a um custo de US$ 60 mil?, diz o carioca.

O cronograma começava a ficar apertado e um grande swell se aproximava. Os mapas meteorológicos não mostravam nada depois dele. Aí veio a dúvida: faríamos o evento no mesmo dia do Eddie Aikau? No dia 4 de janeiro, Laird Hamilton ligou para Rosaldo e falou: ?Esse é o swell, não perca!!? Era a senha e o apoio que o brasileiro precisava para iniciar a operação. Laird tem por filosofia não participar de nenhuma competição, mas, com certeza, ninguém conhece o pico melhor do que ele.

No final, as datas realmente coincidiram. Alguns nomes optaram pelo Eddie Aikau, como Peter Mel, Ross Clark Jones e Tony Ray, e muitos rancores surgiram também, principalmente entre aqueles que gostariam de ter participado do evento histórico, incluindo aí salva-vidas e equipes de resgate que trabalharam no Eddie Aikau.

#Houve inclusive um boato de que Brock Little estava dizendo que a família Aikau teria considerado uma ofensa a realização do Mundial de Tow-in na mesma data do Eddie Aikau. Sobre esse episódio, Rosaldo afirma o seguinte: ?Quando soube disso, liguei pessoalmente para Clyde Aikau, que negou tudo e disse que ninguém na família dele tinha tomado isso como um desrespeito. Quem falou em nome da família Aikau está desautorizado, fique tranqüilo?.

O fato é que o evento dividiu opiniões no Hawaii. Afinal, um campeonato organizado por brasileiros, que contrataram havaianos para trabalhar com eles e que foi vencido por um havaiano e um brasileiro é, no mínimo, surpreendente. A imprensa havaiana, por exemplo, relegou o Eddie Aikau a um espaço secundário e deu a primeira página para a vitória da dupla Garett e Rodrigo.

Sobre a cobertura da imprensa nas revistas de surf Surfing e Surfer, onde ambos campeonatos tiveram o mesmo espaço, Rosaldo se entusiasma: ?Considerando que a Quiksilver tem domínio e influência direta sobre a mídia e que o Eddie Aikau é patrocinado por ela, acho que tivemos uma cobertura fantástica. Afinal, quem é Mega Studios no mundo do surf??.

O próximo passo é transformar todo material filmado num longa-metragem. Foram surfadas 137 ondas num swell considerado excelente para os padrões havaianos. ?Pretendemos fazer um longa-metragem que, a exemplo do campeonato, mude a história dos filmes de surf?, revela Rosaldo, que se auto-considera um pré-destinado.

#?Toda minha vida caminhou na direção de um dia realizar um evento desse porte. Competi quando jovem, fundei a OSP (Organização dos Surfistas Profissionais), a ABRASP (Associação Brasileira de Surf Profissional) e fui um dos idealizadores do SuperSurf. Fui o técnico da vitoriosa equipe Carlos Burle e Rodrigo Rezende em Todos os Santos. Na ocasião, a escalação da equipe foi minha responsabilidade, sob a coordenação do Marcos Conde. O Reef Brazil, vencido por Burle, foi considerado o maior campeonato de onda grande da remada já realizado até hoje, com ondas de 25 pés plus medidos pelas costas. Em suma, os dois maiores campeonatos de ondas grandes, tanto de remada como de Tow-in, tiveram minha presença e acabaram conquistados pelo Brasil.?

Os planos de Rosaldo para 2002 incluem a realização de outro Mundial de Tow-In em Jaws. Ele pretende repetir o evento com ondas de 25 a 30 pés medidas pelas costas, ou seja, 50 a 60 pés de face. Porém, tem certeza de que o evento de 2002 nunca será esquecido, afinal, o primeiro a gente nunca esquece…

?Encerrada a competição, no mesmo dia foi feito um vídeo release de 4 minutos, exibido por todas as emissoras de TV norte-americanas e no programa de domingo Fantástico, da Rede Globo, no Brasil. Não se tem conhecimento de outro evento na história do surf que tenha tido tamanha audiência e cobertura pela mídia mundial. Não é exagero estimar que mais de 100 milhões de pessoas viram as fantásticas imagens de Jaws?, completa o homem responsável por uma das maiores conquistas do surf mundial e brasileiro.

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