
Trânsito, crowd e super população foram alguns dos adjetivos mais dados ao nosso mundo na ultima década.
Seja nas ruas de São Paulo, Rio de Janeiro, Honolulu, Maui, Bali, ou nos outsides das até então virgens Mentawaii, Jaws, Maresias, Padang e Montão do Trigo, podemos nos dar conta de que o mundo está, como falamos entre nós surfistas, crowd!
O que fazer? Segundo meu amigo Romeu Bruno, “O homem já deveria ter se dado conta desse problema há uns 10 anos. Dois filhos por casal seria uma solução óbvia. É trânsito em tudo

quanto é lugar, até na Lagoa da Conceição o bicho tá pegando”, finaliza o big rider, que já morou por 15 anos no Hawaii.
Em Jaws a situação não é diferente. No último swell cerca de trinta jet-skis rodeavam a área, seja no canal ou disputando as ondas. A galera ficou com os olhos arregalados com a situação, os locais ficaram perplexos, mas a realidade é essa.
Todo lugar tem seus locais e eles sempre serão mais respeitados, agora julgamentos do tipo “esse ou aquele não deveria estar aqui”, é como está escrito na bíblia: “Não julgue para não ser julgado”. Quem deveria ser habilitado para surfar ondas gigantes de tow-in?
Na minha opinião fica difícil de apontar esse ou aquele, mas experientes watermans com egos em seus devidos lugares (difícil de achar) poderiam distinguir. O curso que regulariza a modalidade não reprovou nenhum atleta que se inscreveu e hoje existem 500 surfistas autorizados a deslizar nas maiores ondas das ilhas havaianas.
Dave Kalama, um dos parceiros de Laird Hamilton, um dos melhores surfistas no local, nunca foi visto remando em bombas de 20 pés como muitos afirmam ser um quesito indispensável. O mesmo ocorre com Robert Sieger, campeão mundial de windsurf, pioneiro no pico e parceiro de Cheyne Horan, além de Pete Cabrinha, Rush Randle, etc.
Uma situação famosa foi quando a baia de Waimea fechou com séries de 80 pés de face, cerca de 15 anos atrás. Mark Foo, Ken Bradshaw, Antônio Martins (Ianzinho) e seu amigo piloto de helicóptero que nunca tinha caído em um mar acima de oito pés viram de dentro da água provavelmente as maiores ondas que bateram naquela bancada com testemunhas sentadas no line-up.
A maioria foi resgatada pelo helicóptero depois de uma série de esquerdas que fechou muito atrás do outside e varreu a todos. Eles droparam altas ondas e saíram amarradões do mar. Quem vai falar que esse amigo do Ianzinho não deveria estar naquele mar?
Quantos dias em Waimea 20 pés eu caí e no outside havia muitos brasileiros que se fossem julgados por essa galera também seriam descriminados. Hoje o crowd é formado por uma população pelo menos 50% canarinho. Jorge Pacelli, figura carimbada em Waimea nos anos 80, acrescenta: “Naquela época eram poucos e bons os brasileiros que disputavam as bombas nos dias grandes. Dava para contar nos dedos. Hoje aumentou o numero não só em Waimea, mas em todos os picos do North Shore e do mundo”.
De repente a filosofada do waterman Darrick Doerner é a mais apropriada: “Aqueles que estão dando o passo maior que a perna, querendo ser durões, serão colocados nos seus devidos lugares naturalmente. Um caldo de uma onda dessas tem o poder de fazer essas pessoas pensarem duas vezes antes de caírem de novo”. O big rider australiano Ross Clark-Jones é mais relax: “Eu amo tanto essas ondas que não me importo em dividi-las. Se não posso pegar dez, pego cinco”.
Foi o que ocorreu comigo na última semana no North Shore. Acordei e as ondas estavam com má formação e muito vento e crowd em Off the Wall. Mesmo com as ondas ruins, eu, Trekinho, Silvia Nabuco, Bebe e o fotógrafo Sebastian Rojas caímos na água somente para molhar os corpos. Na hora do almoço a galera foi saindo e as ondas melhorando. Surfei altas ondas por cerca de três horas.
Com a insistência e muito amor no surf sempre rolam algumas sessões de altas ondas sem crowd. Algumas horas livres em um dia de semana podem render um bom surf no litoral de SP, RJ, etc. Quem procura com amor, acaba achando. Mesmo no último dia 15, em Jaws, desde a hora do almoço até o final de tarde somente três jet-skis dividiam o line-up.
Existe lugar para todos no mundo. Se hoje não podemos sentar em nossos line-ups e desfrutar de dez ondas boas por sessão como nos últimos anos, temos que nos contentar com quatro ou cinco. O que fazer no trânsito das ruas de São Paulo, Bali, Honolulu, Maui ou Rio de Janeiro? Ficarmos loucos ou mudarmos para Florianópolis, Maui ou Nordeste do Brasil? Garanto que esses lugares também estão crowd. A população expandiu, mas o mundo não.
Uma barca para as Mentawaii nos últimos anos era o sonho de todo surfista, pegar altas ondas sem crowd. Mas isso não é mais uma realidade e na temporada, Macarronis, Lances Rights e outras bancadas também estão lotadas com cada vez mais barcos. Para onde ir? No último swell em Cortez Bank, dez jet-skis revezavam as séries. Não interessa se são pequenas, médias ou grandes, as ondas no mundo já estão superpopulosas. Tristeza para os puritanos e felicidade para o mercado.
Não adianta dar uma de local e tratar com hostilidade quem vem de fora. O mundo é redondo e logo mais você estará no pico dessa outra pessoa. Todo ser humano mais cedo ou mais tarde se dará conta dessa realidade, a diferença será de como ele irá lidar com a situação.
Aloha!