
Superágua é o primeiro fruto legítimo da fusão surfe e paisagens sonoras, melhor que isso: é a cisão do som líquido, salgado e pegajoso com os deleites tecnológicos dos crepúsculos ipanemenses. Deu para entender?
Explico. Começou assim, meio completamente despretensioso, quando dois camaradas juntaram a larica e vontade de comer um doce desses cheios de bossa.
Jonas Rocha, surfista e baterista de uma bandinha de música jamaicana, cismou com esse negócio de fazer som eletrônico, um belo dia acordou DJ e produtor: ele e o Mac.
Chamou Ulisses Capeletti, guitarrista do Squaws, uma turma que seguia os passos do hip-hop misturado com punk e mais um monte de elementos que crítico gosta de citar pra simular erudição.
Era mais ou menos assim: Jonas compunha uma base, mostrava pro Ulisses que prontamente solava uns barulhinhos que não atrapalhasse muito a viagem do parceiro e criava outra viagem – uma dentro da outra. E o surfe com isso?
Calma que já chego lá… Catalisador dessa história toda, o video-poeta Pepê Cezar, em plena confecção da sua obra, “A onda é um caminho sem volta”, reuniu os doidos numa tarde de verão e encomendou a trilha do filme.
Nasceu assim, no seio do Jardim Botânico, zona-sul do Rio de Janeiro, cerveja vai, cerveja vem (repararam o trocadilho?) o Superágua. Isso era 2000, lá pelo início do sélico, como diria Matildes Maria dos Santos, que trabalhava na casa de Dona Aninha, mas essa é uma outra conversa…

Demoraram dois anos pra terminar o disco (me perdoem se chamo de disco, é a idade…), arrumar um selo, criaram o próprio, Zoo Records, elogio a torto e a direito de Beltrano e Fulano.
Jonas e Ulisses reconhecem a influência dos Air, João Donato, Kruder e seu sócio, Dorfmeister, Mingus (esse pelo menos no nome de uma das faixas…), samba, bossa-nova, bossa-velha, o dub do Lee Perry e, ufa!, house, seria deep house? Confesso que nem faço idéia.
Aliás, nas referências acima, onde desfilo meu conhecimento copy/paste, a maioria dos citados são pura fantasia minha. De certo nessa conversa é o lançamento do Superágua, antes de sairem em disco próprio em duas coletâneas de musica eletrônica aqui no Brasil e uma em Portugal.
Uma mistura feita sem encomenda por um DJ britânico e um bafafá de estrelas rasgando seda antes sequer dos meninos apertarem alguma coisa senão os teclados. O disco tem a suavidade da maré cheia. Nos empresta a sensação gostosa que é pisar na areia da praia depois de passar o dia inteiro calçado de meia e sapato.
Logo na primeira faixa, a voz feminina declama versinhos do “Puizía”, primeiro livro do Pepê, de cabeça: “Mar salgado Lar…”, isso numa atmosfera de colchão de água. O som vai profundo, narcótico, insistente, sem martelos, apenas almofadas, milhares de almofadas caindo feito chuva, resvalando na gente, sem nunca atingir-nos. Ás vezes garoa, outras, enxurrada. Não esperem escutá-lo em rádios.
Se quiserem mesmo, à vera, curtir esse suco, esprema bem espremido, despeje num copo grande, gelo, guarda-chuvinha pra decorar, uma rede, pode ser no amanhecer ou no entardecer, em Sampa, no Rio ou Itapoã…
OBS: Para saber mais sobre o CD Superágua mande mensagem para [email protected] .