Shaper Márcio Zouvi na fábrica da Sharp Eye na Califórnia (EUA). Foto: Divulgação.

Estabelecida em 1992, a Sharp Eye Surfboards é uma das maiores fábricas de pranchas da Califórnia (EUA).

 

A empresa exporta para vários países e possui como objetivo sempre melhorar o desempenho dos atletas com produtos de alta qualidade.

 

Inovador e sempre antenado no futuro, o fundador, o carioca Márcio Zouvi, 36, conseguiu manter-se num mercado competitivo patrocinando atletas de ponta e expandindo a empresa.

 

Nesta entrevista, Zouvi fala mais sobre sua trajetória e o que pensa sobre as tendências para o setor no futuro.

 

A Sharp Eye atua há quinze anos com sucesso no mercado norte-americano. Foto: Divulgação.

O mercado ainda esquece que o shaper é o principal fator num setor tão criativo como o

surf e que cresceu absurdamente nos últimos anos?

 

É importante ter um respeito com o fabricante de pranchas. Nós temos uma estrutura, uma equipe de competição, funcionários. É um trabalho com muita seriedade, responsabilidade e pouco reconhecido. Se compararmos o que se fez de dinheiro na indústria do surf é impressionante. Todo esse dinheiro é em cima da imagem do surfista, porém, se esquece que para se tornar um surfista se precisa de uma prancha, o fabricante é a razão para a existência do esporte.

 

Qual a atual situação do mercado americano?

 

O mercado americano tem uma porcentagem muito grande daquele tipo de prancha chamada ?custom boards?, ou seja, feita por encomenda diretamente com o shaper. Ainda existe a importância de conversar com o shaper e fazer uma prancha exatamente daquele tipo com as medidas que o consumidor precisa. Porém, existe uma maior porcentagem da venda diretamente na loja. È importante passar confiança para o cliente em relação ao material vendido. Eles sabem que a prancha apresentada pelo lojista é fiel e de mesma qualidade do material encontrado na fábrica. A realidade é outra, a importância dos canais de distribuição – a surf shop – faz com que não aconteça a competição entre a fábrica e a loja. O cliente passará a ter confiança naquele ponto de venda e retornará para comprar.

 

A partir da fidelização do cliente pode-se mudar essa mentalidade?

 

É preciso uma doutrina, fazer com que o consumidor saiba que as mesmas condições de escolha que possui na fábrica, terá também na loja, o mesmo design, o tamanho, os modelos.  É essa a atitude que a Sharp Eye está tomando no Brasil.

 

Houve falsificações da Sharp Eye no Brasil?

 

Algumas pessoas têm como base o seu trabalho e o utilizam de forma negativa. Encontramos algumas pranchas com o mesmo ?outline?, só que com outra seda, de outra empresa. Nesse momento estamos tomando certas atitudes legais e colocamos selos de identificação em todos os modelos. Portanto, sempre que tiver uma Sharp Eye na loja com esse selo significa que é a autêntica.

 

Qual a diferença do sistema americano para o brasileiro?

 

No Brasil a principal é justamente a não profissionalização dos shapers. A maior parte do problema é justamente nos centros que possuem a maior quantidade de fabricantes de pranchas, como o Rio de Janeiro. Você encontra desde a fábrica estruturada até o shaper de ?fundo de quintal?. E outro fator seria a compra direta na fábrica apenas pelo desconto e não na loja. Os lojistas que gostariam de fazer um trabalho sério estão tendo que se esforçar ao máximo para vender o que está em seus estoques por causa de uma competição com a fábrica, o que na minha opinião é muito injusta. Nos EUA não existe tanto, já que possuímos leis que regulam a fabricação das pranchas em qualquer lugar. Você precisa de licença, pois tem gases tóxicos, poluentes que podem chegar a casa de seu vizinho, entre outros exemplos. Existem leis que são seguidas e aplicadas. Quando uma pessoa pretende criar uma fábrica que possui resina ou solvente, precisa de permissões para isso e as punições são severas. A problemática no Rio de Janeiro é maior, mas sinto que em outros estados está mudando, nesses lugares a saída das pranchas é maior e a tendência será o crescimento.

 

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A tecnologia é uma das peças-chave no processo de produção. Foto: Divulgação.

Como está a situação após o fechamento da Clark Foam?

 

Todos os envolvidos estavam aguardando um grande fracasso. Neste momento está acontecendo um fator surpresa, até gerando circunstâncias positivas. Os grandes shapers estão tendo acesso aos blocos que as empresas pequenas não têm. O pequeno não tem dinheiro e nem logística para trazer, também não existe demanda que possa justificar um grande volume. As empresas que já apareceram estão cobrando valores muito maiores do que no passado, cinco vezes além do padrão. Estamos nos direcionando para as melhores empresas de blocos e fechamos uma boa compra, isso está causando um diferencial

O sistema digital otimiza e facilita o trabalho no setor. Foto: Divulgação.

de qualidade. O cliente está começando a se adaptar a uma nova realidade, uma atitude saudável que visa a compra da prancha do shaper que possui uma outra atitude que  nesse momento está fazendo a diferença. Entre tantos fatores, o nosso diferencial era somente o marketing, pois todos compravam da mesma fonte. Agora, além do marketing, podemos citar os materiais, que são melhores.

 

Como os lojistas estão se portando nesse momento de adaptação?

 

O lojista que sempre trabalhou com os ?bons shapers? está utilizando isso como argumento no momento das vendas. Se quiser comprar no shaper de segunda
linha terá algumas diferenças, a maior delas será o valor,  além de um bloco de baixa qualidade. Com isso, está acontecendo uma inversão, ou seja, o shaper de segunda linha não está sendo eliminado, pelo contrário, está tentando se legalizar para ter acesso aos lucros de mercado, se  profissionalizando, buscando ser correto, ou ficar para trás e fechar o negócio.

 

Ocorreu uma queda de consumo, ou os índices estão equilibrados?

 

Não aconteceu uma queda de consumo em relação a uma influência da indústria de blocos, mas sim a queda da economia americana. Os custos em geral aumentaram muito, estamos com uma maior inflação, tudo isso associado a um valor alto das pranchas. Houve um acréscimo por parte do fabricante e do lojista. As pranchas estão em torno de US$ 100 a US$ 150 mais caras. O consumidor que comprava quatro pranchas por ano, comprará duas, até menos. Isso não significa que será para sempre, apenas uma fase, com ajustes de preços, todos se moldando a nova realidade. Podemos sentir uma queda de aproximadamente 25% das vendas no geral, de todos os fabricantes e lojistas. Não apenas no setor de pranchas, mas também de acessórios e equipamentos para o surf.

 

Qual seria a melhor alternativa para acabar com o problema?

 

Assim que o lojista perceber que a sua integração com o fabricante de pranchas se tornar mais profissional, a sua loja venderá mais, com maior facilidade. A ajuda do fabricante nesse processo seria fundamental para o sucesso de ambos. E se os lojistas verificarem que a freqüência de surfistas no ponto de vendas está aumentando, todos sofrerão boas conseqüências. Outro ponto importante é tirar de sua mentalidade que o mercado melhora apenas em uma estação do ano que é o verão, isso é um erro, o surfista precisa de bom equipamento o ano inteiro, principalmente no inverno.

 

Quais blocos você utiliza atualmente?

 

Estamos usando Teccel que melhoraram muito na qualidade. Estamos fazendo pranchas mais leves comparadas com os blocos da Clark Foam, além de mais duráveis. A própria equipe da Sharp Eye está sentindo a diferença e elogiando mesmo sem a mudança nos designs das nossas pranchas.

 

Existe a possibilidade de um retorno da Clark Foam?

 

Acredito que por mais um ano tenha fabricantes novos, com isso, cria-se uma competição de preços. Os três fabricantes que estão presentes nos EUA começarão a colocar os blocos para serem vendidos ainda esse ano, ocasionando a queda dos preços. Nossa intenção será a utilização do Teccel mesmo que essas espumas venham. Estão todos na expectativa dos engenheiros da Clark Foam abrir uma nova empresa usando a mesma fórmula. Só que percebemos que a fórmula dos blocos da Teccel e também da Austrália são melhores, por esse motivo achamos que esses profissionais terão uma surpresa.

 

Você continua utilizando o sistema digital para a confecção das pranchas?

 

O sistema digital é incrível, o estou utilizando há muito tempo, a produção melhorou muito e a fidelidade de fazer pranchas iguais com mesmas medidas também. Não só pelo fato da produção em série, mas também pelo arquivamento dos designs para que possa ser feito um melhor trabalho para o cliente como para um atleta da equipe. Assim posso refinar e melhorar aquele shape que está arquivado.

 

Quais são os novos projetos para a Sharp Eye?

 

Foi no EUA que iniciei o aperfeiçoamento do meu trabalho, tinha feito pranchas no Brasil embora fosse pequeno. E depois de trabalhar para algumas fábricas, iniciei na década de 90 a Sharp Eye. Sei que existe uma grande dificuldade entre ser fabricante e lojista ao mesmo tempo. Estou fazendo as duas tarefas, e sei o quanto é complicado
administrar. Atualmente tenho a fábrica e uma loja, estou aumentando a rede. O projeto da Sharp Eye será a abertura de mais três lojas, estou aguardando apenas pequenos detalhes para finalizar.

 

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