No dia 8 de junho é celebrado o Dia Mundial dos Oceanos. A ONU estabeleceu a data para chamar a atenção sobre a importância do papel dos oceanos na manutenção da vida no planeta. Esse ano o tema do dia é “Oceanos Saudáveis, planeta saudável”. Para nós sufistas todo o dia é dia do oceano, nossa conexão com o mar é essencial à nossa qualidade de vida. Mas o que nossa tribo tem feito efetivamente para conservar o nosso estilo de vida?
No Brasil o crescimento das cidades costeiras sem infraestrutura básica, a falta de gestão adequada dos resíduos sólidos (lixo), a especulação imobiliária, a corrupção e o investimento do Brasil na exploração do petróleo são apenas algumas das variáveis que levam a uma perda significativa da qualidade ambiental da nossa zona costeira e marinha. Nós não podemos nos isentar da nossa responsabilidade por tudo isso. Temos que agir!
Há vários casos isolados e até algumas vitórias de grupos de surfistas organizados na defesa de seu “habitat”, contudo a comunidade do surf ainda não tem uma organização com poder de influenciar significativamente as tomadas de decisão nos processos de desenvolvimento do litoral brasileiro. As associações e federações tem um papel muito maior do que organizar campeonatos e promover o esporte. É preciso ter atitude política e influenciar nas decisões que nos afetam diretamente.
O Fórum Brasileiro de Surf e Sustentabilidade (FBSS), fundado há três anos é um espaço onde as ações dos surfistas brasileiros em prol do ambiente podem ser integradas e articuladas para que tenham mais força. É importante que sufistas, empresários e dirigentes se unam pelo fortalecimento do Fórum. Em 2013, por meio do FBSS e a partir de uma iniciativa da Ecosurf, foi apresentada na Câmara dos Deputados uma ideia de se estabelecer no Brasil uma Política Nacional de Áreas Protegidas de Surf.
Semana passada encontrei o Prof. Andrew Short, um dos fundadores da World Surfing Reserves. Ele me explicou como funcionam as Reservas na Austrália e no mundo. Falei para ele sobre a iniciativa da Política Nacional de Áreas Protegidas de Surf. Andrew apoiou a ideia e disse que na Austrália eles tiveram respaldo do Primeiro Ministro, do Presidente e de Atletas. Segundo ele, na Austrália um representante do conselho de uma Reserva de Surf tem forte influência nas tomadas de decisão sobre o desenvolvimento do local. Pode ser um caminho para nós!
Inúmeras praias onde o surf é praticado no Brasil estão dentro de Parques Nacionais (Estaduais ou Municipais) ou algum outro tipo de Unidade de Conservação da Natureza. Independente da criação de Reservas de Surf, a participação de surfistas em processos de criação, planejamento e gestão desses locais é essencial para a conservação das nossas praias e ecossistemas marinhos, mas para isso devemos estar organizados e informados.
Nossa organização, em 2003, começou o Projeto Surf em UCs, que objetiva transmitir à comunidade do surf a necessidade de se conservar os ecossistemas marinhos e costeiros por meio da participação na criação e gestão de Unidades de Conservação. O Projeto já atingiu um público importante por meio de atividades como reuniões, palestras, participação em grandes campeonatos e ações em defesa de áreas protegidas no litoral, no entanto ainda precisa de muito apoio para atingir seu objetivo.
Um estudo divulgado pelo WWF (World Wildlife Fund) demonstra que a cada dólar investido em áreas marinhas protegidas há um retorno de U$ 3,00. Portanto fomentar a conservação é um investimento! O setor empresarial pode fazer muito pelos oceanos, as marcas que sobrevivem do nosso estilo de vida (e hoje não são somente as de surfwear) precisam ampliar a visão e entender que seu negócio está diretamente ligado à saúde dos oceanos. Hoje em dia fomentar o esporte não é só investir milhares de dólares em campeonatos de surf, mas sim na conservação dos locais onde o esporte é praticado.
Semana passada em Portugal políticos e empresários se reuniram para tratar de questões econômicas, ambientais e científicas relacionadas aos oceanos no World Ocean Summit. O evento busca desenvolver o que eles chamam de economia azul, conceito ainda em desenvolvimento, mas que oferece uma visão do mar e do litoral como uma nova fonte de crescimento económico, criação de emprego e de investimento. No dia dos oceanos ocorre o Blue Ocean Business Summit, evento focado do desenvolvimento do ecoturismo com um foco especial no setor de mergulho. De acordo com a Comissão Mundial dos Oceanos, o valor de mercado dos recursos marinhos e costeiros equivale a 3 trilhões de dólares (cerca de 5% do PIB mundial) e cerca 3 bilhões de pessoas dependem do mar para a sua subsistência, além disso são gerados 350 milhões de empregos relacionados ao mar. Portanto a conservação dos oceanos também é importante para o desenvolvimento econômico e social.
No Brasil, a partir de uma iniciativa da Fundação SOS Mata Atlântica que envolveu dezenas de pessoas, foi elaborado um Projeto de Lei que estabelece uma Política para a Conservação e Uso Sustentável do Bioma Marinho Brasileiro. Essa é mais uma oportunidade para que a comunidade do surf participe defendendo os instrumentos de conservação elencados do Projeto. Está na hora de fazer mais do que catar lixo na praia, o surfista hoje é um ator importante nos processos de tomada de decisão.
O recado que fica é: Temos que nos organizar. Temos que participar! Só assim garantiremos um oceano saudável e um surf saudável.
Mauro Figueiredo é Surfista, Presidente da APRENDER Entidade Ecológica e faz mestrado em Direito, Meio Ambiente e Ecologia Política na UFSC, em Floripa.
Conheça mais sobre o Projeto Surf em UCs: https://www.facebook.com/surfemucs
E Sobre o Fórum Brasileiro de Surf e Sustentabilidade: https://www.facebook.com/surfsustentavel