
Fala, galera. Como vocês notaram, a última coluna não terminou.
Parou assim meio no meio do caminho, daquele jeito mesmo, meio sem pé nem cabeça e até meio sem-vergonha de ser publicada daquele jeito tosco para o pessoal comentar, pixar e difamar minha fama de surfista no Fórum.
Então, fui intimado a recomeçar de onde eu parei.
Como eu tava falando de uma viagem que fiz, de repente a parada aconteceu novamente e fui abduzido pela minha própria mente para Santos, 1970, exatamente durante a copa do mundo do México.

Não, não era viagem de carro e nem viagem psicodélica hippie ou de
surfista-doidão.
A parada parecia mais uma viagem transcendental e acidental pelas partes mais ocas, cavadas e até mesmo tubulares do meu pensamento.
Tipo um devaneio místico, como o do surfista Peregrino em busca de ondas boas para surfá-las durante a meditação sobre a falta de que fazer em dias de flat.
Quando me liguei, estava no Canal 1, assim, na minha, bermudão floral, descalço e
com um mouse na mão.

Tava até rolando altas ondas, mas ‘cadê a prancha?’.
Pois é, como acontece em qualquer viagem, no meio daquele delírio todo dei algum vacilo e minha prancha foi extraviada. Alguma coisa então me dizia que ela só chegaria em dois dias.
Mas não perdi meu tempo com essas babaquices de não ter prancha em Santos e
fui conhecer a cidade pra me descolar.
Tinha muita coisa pra não fazer naquela época e passei pelo aquário e pela Vila Belmiro, onde até dei um autógrafo para o Coutinho, aquele cara bom de bola que fazia altas tabelinhas com o Pelé e que já estava aposentado então ficava ali contando do futebol da antiguidade.
Não tinha muita gente na rua, só uns DKW, Simca, Aero-Willys, Rural e outros carros estranhos.
Ficava todo mundo em casa acompanhando o Rei reinar na copa naquele clima de Brasil: ame ou deixe-o ou foda-se.
Entre amar, deixar e querer que se dane, uma galera acabou indo parar na cadeia, só por estar assim de bobeira fazendo revolução em mesa de bar.
Mas nas surf-shops a galera menos alienada geograficamente já planejava surf-trip pra Maresias, isso em tempos que SNI era um troço sinistro, ainda não era sigla de surfista não-identificado.
Numa loja de pranchas, troquei idéia com um cara muito gente boa, Homero, shaper que viajava nuns modelos futuristas e de outline de outro mundo.
Num papo, disse que gostaria de pedalar uma bike de Santos ao Rio. Mas aquela odisséia não era coisa pra ‘agora’.
Seria uma trip pra ‘daqui’ uns 30 anos. No passado, ele planejava uma trip
futura para um tempo que já passou e achei irado testemunhar o pré-passado
bem antes da moda do pós-futuro ser coisa de antigamente.
Quando fui checar as ondas do Quebra-Mar os irmãos Salazar já deviam ter ido
embora ver o jogo da seleção, isso porque não havia ninguém dentro da água.
Percebi um tumulto e vi que estavam lá as cocotas, os boko-mokos, os bichos-grilos, os parafinados, o Beto Rockefeller, o Pantaleão, o Yliah Kuriak, o Ted Boy Marino, a Rita Pavoni, o almirante Nelson, o Zorro, o National Kid e os incas-venuzianos, todos babando pra minha prancha 7.0, verde, linda, suculenta, triquilha, ensinada e adestrada para dropar até sozinha as paredes do meu quintal.
A galera chegou a levar um susto quando chamei a prancha pelo nome e ela atendeu
balançando o estrepe e mexendo a rabeta. Coisas de intimidade…
Fiquei na água até chegar a hora do jogo Brasil e Inglaterra, 1 a 0, gol de Jairzinho, jogada genial de Tostão.
Era legal saber qual seria o resultado, mas fiquei na minha, claro, pra não estragar a surpresa porque não sou espírito de porco, sou vascaíno, nunca um palmeirense.
Também aproveitei para fazer uma fé no resultado. Levei uma bolada e fui comemorar tomando Cynar, Crush, Grapete e Caracú na região do cais com algumas amigas desinteressadas na minha fortuna como boas moças boazudas de rua.
Mas, isso foi depois. Antes do jogo, fiquei um bom tempo na água e ao olhar para a areia, vi uma pequena multidão assistindo à uma performance digna de segundo milênio ao vivo no Repórter Esso.
Até a Wanderléia, que tava excursionando em Santos, tava lá na praia. É isso mesmo, estavam lá a Wanderléia e a Vanusa e a Gretchen acho que só apareceu uns anos depois rebolando aquele biquinão.
Saí da água, dei autógrafos, tirei fotos para o jornal da cidade e, por alguns momentos, o Hawaii era aqui, ou melhor, no Canal 1 da minha TV particular.
Por isso fiquei muito famoso em Santos, até mais que o Rei Pelé. A diferença é que além de bater um bolão pelo Vascão aqui da minha rua, eu também pego altas
ondas, só vendo, coisa que o Pelé não faz, enténde??