Occy

O touro indomável

Mark Occhilupo apareceu como um meteoro no circuito mundial. Foto: ASP World Tour / Karen.

My Hero, do Foo Figthers, tocava enquanto Occy destruía as ondas com as suas famosas patadas de backside e o seu incrível cutback de frontside enterrando a borda (manobra que seria imortalizada e imitada por muitas gerações), fazendo daquele filme um clássico para sempre…

Em 1982, Durban, África do Sul, um desconhecido garoto de 16 anos, cabelos loiros, parafinados e compridos apareceu na praia de bermuda, camiseta e chinelo com duas pranchas sob os braços e assombrou o mundo chegando à final contra o famoso Shaun Thompson no antológico Gustom 500.

Começava ali a excepcional história de Marco Lucciano Ochillupo, que nasceu em Sydney, Austrália, e apareceu como um meteoro no circuito no ano de 1982, já chegando a top 16 no ano seguinte. A partir daí foram quatro anos disputando o título mundial.

Fabrício Fernandes ao lado do ídolo Occy no WCT disputado em 1997, na Barra da Tijuca (RJ). Foto: Arquivo pessoal Fau.

Ganhou duas vezes o OP pro na Califórnia. Redefiniu a forma como se surfava de costas para a onda, ganhando em Jeffrey´s Bay no ano de 1984. Travou duelos fantásticos com o tricampeão do mundo Tom Curren. E ganhou também o Pipe Masters gigante em 1986, em um mar fora de controle, chegando a terceiro do mundo no final do circuito.

Mas quando todos esperavam o que parecia inevitável, o título mundial, veio a decadência. Em 1988 ele abandonou tudo e com a morte de seu pai se isolou do mundo, entocando-se em sua casa. Em uma dieta de pizza, cerveja e televisão, engordou 50 quilos, ficando desfigurado.

Exceto por Gordon Mershand, da Billabong, que sabia que o touro indomável estava apenas hibernando, o mundo esqueceu Occy.

Quatro anos se passaram, até que em 1992 assisti Pump e The Green Iguana, com Occy pesadão, mas surfando como um garoto, jogando água para tudo que é lado nas suas famosas e brutais enterradas de borda.

 

Comparei com o surf de caras famosos como Pottz, Curren, Carroll e novos fenômenos como Kelly, Taj, Rob e, sinceramente, à exceção de Kelly, Occy não devia nada a ninguém. Fiquei imaginando que se ele emagrecesse e encontrasse motivação para correr o circuito novamente iria dar trabalho.

 

Comentei com uns amigos e eles riram dizendo que a era Occy já havia passado.  Essa idéia durou até 1994, quando ele reapareceu no Pipe Masters, magrinho como nos anos 80, e varou as triagens, tirou o título mundial das mãos de Sunny Garcia e chegou à final, só não ganhando por ter pego o ?E.T.? chamado Kelly Slater.

No ano seguinte disputou todo o WQS e, em 96, de novo ficando à sombra de Kelly, onze anos depois de ter sido o terceiro do mundo, chegava ao vice.

Em 1997 tive o prazer de conhecer Occy no intervalo de baterias do WCT, em um free surf na Barra da Tijuca. Sempre brincalhão, sorridente, conversou comigo, falou da vida e da carreira. Até tiramos uma foto juntos. Eu brinquei que um dia escreveria um texto sobre a sua fantástica carreira, e ele parecendo um moleque sorriu e escrachou mais uma direita com as suas patadas!

Dois dias depois ele faria uma final contra Slater no histórico ?Barradoor?, campeonato que se tornou uma clássica página do surf nacional.

O touro indomável ganhou campeonatos em ondas perfeitas como o Skin em Bells, o OP nas Mentawaii, e alguns WCTs em Teahupoo, Fiji, vencendo algumas vezes até Slater, que em 98, ao término da temporada, talvez para reverenciar a incrível história de Mark, deixava o circuito, abrindo caminho para que ele pudesse buscar o seu merecido título. Era a consagração final…

Posso ver a cena ainda em minha mente. Barra da Tijuca (RJ), penúltima etapa do WCT de 99. Teco x Campbell, o último pretendente ao título de Occy. Teco na frente da bateria, faltando 10 segundos para o término, o público se colocou em volta do australiano e, após a contagem regressiva, comemorou com o campeão, que foi às lágrimas, provando a todos que mesmo na dificuldade não devemos deixar de lutar e acreditar nos nossos sonhos.

Mark Ochillupo é um talento nato, extremamente determinado e, acima de tudo, um cara de atitude, raça e que após 25 anos do seu aparecimento para o mundo, com 41 anos e depois de ter encarado quatro gerações de surfistas, continua enterrando sua borda com rasgadas insanas, dando aula para a molecada.

Em um ano de ondas medíocres no WCT, o touro não conseguiu mostrar todo o seu potencial e infelizmente se despede do circuito, após ter redefinido os conceitos do surf em três décadas.

Mas, em minha memória fica a lembrança de 2006, suas patadas explosivas de backside em um mar de 10 pés, no campeonato de Bell´s Beach, onde aos 40 anos mandou para casa mais cedo o tricampeão mundial Andy Irons e a eterna promessa Taj Burrow, mostrando o mesmo power surf que o consagrou em Jeffrey´s, em 1984.

Para imortalizar uma carreira fantástica, Jack McCoy produziu o fantástico filme Occumentary e, no início do milênio, Paul Sarge, o gordinho, escreveu O Ano do Touro. Dois clássicos para jamais esquecermos do fantástico surf de Occy e da sua alegria de garoto aos 41 anos de idade.
 
Promessa comprida, Occy, ta aí o texto. Aloha, Marco Lucciano Ochillupo, você é um surfista para ser aplaudido de pé!

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