
O jornalista baiano Fabrício Fernandes há tempos enviou esse texto sobre Kelly Slater. O texto foi para a gaveta à espera de um bom motivo para ser publicado, mas sabíamos que não iria demorar muito para isso acontecer.
Afinal, em se tratando de Kelly Slater, pode se esperar que alguma coisa sempre vá acontecer. Depois da vitória do hexacampeão mundial em Jeffreys Bay, no Billabong Pro 2003, chegou a hora deste relato sobre a carreira do campeão enfim sair da gaveta.
As pessoas se tornam mitos não só pelo talento, mas pela coragem, atitude e exemplo na vida.
Desde que comecei a surfar, era sempre a mesma estória, não havia internet nem TV a cabo e eu ficava louco para saber as notícias do surf. Todo início de mês eu ia às bancas, comprava todas as revistas e jornais do gênero: Fluir, Visual, Inside, Qual é o Lance? Now, Trip, etc.
A primeira coisa que eu lia (e até hoje sou assim) era a parte de competições. E, em 1990, num um artigo sobre o mundial amador daquele ano, na Fluir, fiquei revoltado quando li a seguinte frase: “Brasileiro é garfado na final”.
A reportagem dizia que, enquanto Sávio Carneiro dava “floaters insanos”, o queridinho da mídia americana fazia alguns truques na onda. Alguns anos depois, assisti esse vídeo no Sportv e, para minha surpresa, o mar estava mínimo.
A verdade é que os floaters insanos de Sávio eram pulinhos na espuma e os “truques” do americano eram tail slides, reverses e lascadas power que espirravam água para tudo que é lado.

Ali nascia o mito: Robert Kelly Slater, de Cocoa Beach, Flórida, uma terra onde não existem ondas.
Na época com 18 anos, Kelly era uma superaposta da mídia americana. Ele teve uma carreira inexpressiva como amador, mas vinha sendo preparado desde os 12 anos (sempre passando férias no Hawaii).
Quando se profissionalizou, virou uma máquina de competir, fria e calculista, auto- confiante e, acima de tudo, determinado, buscando seu foco ao extremo. “Potência com controle”, era esse o seu surf.
E naquele mesmo ano, o garoto de 18 anos já correu alguns campeonatos da ASP, tendo alguns resultados expressivos como o quinto lugar no Pipeline Masters, no Hawaii, com uma performance arrasadora em tubos muito profundos.
No ano seguinte, último de título unificado – em 1992 se dividira em WCT e WQS, primeira e segunda divisões do surf respectivamente – todos correram como loucos os campeonatos para ficar entre os 44 melhores da primeira divisão.
Kelly, com 19 anos, correu apenas alguns e no ano em que Damien Hardman recebia a taça das mãos do Mister Perfection e até então papa-tudo do circuito Tom Curren (outra história que também merece ser contada), Kelly se classificava em 42º.
Em 1992, seu primeiro ano de circuito completo, foi campeão mundial do WCT (título máximo do surf), sendo o surfista mais novo a conquistá-lo, com apenas 20 anos. O recorde anterior era de Curren, com 21, coroado com a honra de ter sido o melhor em Pipeline naquele ano, até aquele momento a onda mais perigosa do mundo (Mavericks, Joko e Tasmânia não haviam aparecido).

No ano seguinte, Kelly rompeu os ligamentos do joelho e não correu metade do circuito, sorte de Derek Ho. A imprensa caiu de pau dizendo que a aposentadoria precoce era certa. Só que não foi bem o que aconteceu.
Ele terminou o ano como sexto colocado, e para mostrar que estava mais vivo do que nunca, foi vice em Pipeline. E em 94, foi o único surfista a conseguir os títulos do WQS e do WCT em uma mesma temporada.
1995, Pipeline Masters, última etapa do circuito mundial. Se o arrogante Sunny Garcia (que já havia se declarado campeão mundial) passasse apenas três baterias, seria o tricampeão mundial, só perdendo se não passasse das oitavas, Rob Machado chegasse à semifinal ou Kelly fosse tricampeão do Pipe Masters. O destino estava traçado.
A lenda viva Mark Occhilupo, em uma volta impressionante, varou as triagens e chegava às oitavas de final contra o enfezado havaiano (Sunny, é claro!). Como ele não marcava pontos no circuito e era patrocinado pela Billabong, mesma marca que patrocinava o babacão havaiano (ele mesmo, Sunny!), Gordon Merchant, dono da marca, teria dito a Occy que facilitasse as coisas para Sunny e foi o que ele fez, deixando-o no outside sozinho e pegando apenas as intermediárias, mas para surpresa de todos, Sunny ainda assim havia perdido para Occy. Definitivamente o touro indomável estava de volta.
Sunny ficou na praia “secando” Kelly e Rob, que na chave de cima vinham literalmente amassando seus adversários, e é claro Occy na debaixo fazia o mesmo. Quando Rob e Kelly se encontraram na semifinal, o “docinho” do Sunny saiu da praia esmurrando sua prancha e soltando verbetes nada amáveis para todos que passassem à sua frente.
Enquanto isso, Kelly e Rob davam o maior show já visto em uma bateria no mundo do surf. Amigos inseparáveis, os dois se divertiam dentro d’agua com tubos profundos, mas Rob cometeu o erro de só dropar para Pipeline, enquanto Kelly atacava Backdoor e Pipe fazendo o impossível, com tubos de grab-rail, laydown, em pé, sem as mãos, dando 360 na boca, e olhe que estamos falando de Pipe 8 pés!
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Kelly fechou a bateria fantástica com um 10, um 9,9 e um 9,7. 29,6 pontos de 30 possíveis! Rob fez fantásticos 27 pontos, suficientes para botar qualquer mortal em combinação, mas o adversário era Kelly…
A parte mais fantástica da bateria (que assisti mais de dez vezes) foi quando Rob dropou e se encaixou fundo para Pipeline e Kelly, entrando, sentou em sua prancha (faço isso sempre quando meus amigos descem as ondas), ergue os braços torcendo por ele e gritou “give me five!”, tipo bate aqui, e Rob, ao sair do tubo, ainda na onda, o cumprimentou batendo em sua mão. A praia foi ao delírio como em um gol no Maracanã lotado.
Bem, na final Kelly não deu chances para Occy, escrevendo seu nome na história, sendo no mesmo ano coroado tricampeão do WCT, tricampeão do Pipe Masters, campeão da Tríplice Coroa Havaiana, e, como se não bastasse, foi o dono de três das quatro notas 10 naquele em Pipe.
Nos anos seguintes o circuito ficou sem graça e a disputa passou a ser pelo vice-campeonato. Viveram o estigma de Cheyne Horan (quatro vezes vice-campeão), na era Mark Richards (tetracampeão do mundo) Rob Machado, Shane Beschen, Occy, Sunny, Powell.
Eram segundos e terceiros colocados felizes pois sabiam que o posto máximo teria dono por uma longa data. Foi assim de 1992 a 1998. A era de Robert Kelly Slater que ganhou tudo e muito mais.
Foi campeão no Japão em micro ondas mexidas em um mar horrível , ganhou em Pipe vezes vezes, foi varrendo o mundo ganhando campeonatos em cada canto, Portugal, França, EUA, Hawaii, Austrália (Kirra, Bells, Manly), onde quer que o circuito passasse o nome de Kelly ficava registrado como campeão.

Em 1997, pude presenciar ele e os outros Top 44 darem show em um mar pesadíssimo no Rio de Janeiro, Barra da Tijuca, 8 pés plus, que ficou apelidado de Barradoor.
Destaque para as performances de Rob Machado, Occy, Kalani, Taj, Ribas, Herdy e a presença de Mr. Curren. Mas, que me desculpem, todos foram coadjuvantes no show de Slater, o cara conseguiu tubos, floaters e batidas de backside impossíveis.
Uma onda foi memorável: ele remou em uma direita grande (para os padrões brasileiros), 8 pés, toda fechando, botou para dentro com os braços e o corpo para trás na maior calma, ficou uns 4 segundos (uma eternidade) lá dentro, saiu na baforada, botando a galera para delirar e,quando todos pensavam que ele havia saído da onda, pelo posicionamento de sua prancha (até o fotórafo parou a seqüência), ele volta de trás da onda em um floater absurdo em uma craca de 2 metros!
A galera urrava de êxtase na praia. Sabe aquele gol de placa? Botem 10 placas para essa onda. Falando nisso, claro que a nota foi 10 unânime e que para completar ele tirou 9,5 e 9,75 em uma esquerda onde deu três batidas de back animais em seções impossíveis. Coitado do Ross Wilians tomou uma lavada.
Na final, em um mar bem menor, derrotou novamente Occy, escrevendo seu nome também no Brasil. Na comemoração, Kelly recebeu o prêmio das mãos de ninguém menos que a Feiticeira, que em entrevista à Playboy disse que ele era o cara que ela queria, mas não só por uma noite. Não sei se digo que ele é um cara de sorte ou azarado, porque não ficou sabendo disso.
Em 1998, cansado do circuito, dedicando-se à filha Taylor, que ninguém sabe quem é a mãe, e ao seu romance com Pamela Andersen, musa americana da série VIP; ele começou o ano muito mal, chegando a ficar em quinto lugar.

Mas, na reta final, mostrou porque era pentacampeão mundial e deu um novo show em Pipeline, onde precisava no mínimo chegar em terceiro, sendo que Danny Wills e Mick Campbell não poderiam passar de 17º.
Foi exatamente o que aconteceu e ele foi coroado pela sexta vez! Campeão do WCT.
Para tristeza de muitos, inclusive a minha, e alegria de outros, os competidores, Kelly anunciava aos 27 anos que abandonaria o circuito. Passou três anos viajando pelo mundo em um projeto da Quicksilver, o The Crossing e escolhia a dedo as competições que iria participar.
Em 1999, deixou bem claro, ao ganhar em Teahupoo e em Pipeline (derrotando Occy de novo!) que se estivesse no circuito, o Touro Indomável (Raging Bull = Occy) teria que se contentar com o vice.
Sunny e CJ também aproveitaram a brecha para alcançar o título do WCT. Kelly ganhou também campeonatos especiais como o Eddie Aikau Invitational, em Waymea Bay acima de 25 pés! E ficou em segundo no Mavericks Man Who Ride Mountains com 50 pés de onda, algo como descer uma massa de água do tamanho de um prédio de seis andares.
Todos os surfistas têm um talento. Occy é mestre nos tubos, Pottz radical, Sunny força bruta, Fábio Gouveia e Curren estilo, Taj velocidade, Kalani inovador. E cada um é especialista em um tipo de onda, marola, onda grande, tubular ou manobrável, mas Slater consegue ser melhor que todos em qualquer situação.

E não me venham dizer que os irmãos Irons são melhores em tubos de backside, pois esta é uma grande mentira!!!
Robert Kelly Slater escreveu seu nome na história do esporte juntamente com gênios como Michael Jordan, Muhamed Ali, Tyson, Jesse Owens, Guga Kuerten e Airton Senna. Um verdadeiro campeão que elevou o surf à níveis jamais sonhados e que com uma imagem limpa e jeito humilde fez o mundo respeitar o esporte dos reis.
Agora em 2003, com 31 anos, ele está de volta às competições, pois seu instinto predador falou mais alto. Continua dando seu show com notas 10, tubos profundos, manobras power e inventando coisas como a rodeo clown, que manobra louca!
Pena que ele não esteja focado realmente nas competições e os resultados não demonstrem a realidade do seu surf. Mas, não duvidem, cedo ou tarde o sétimo título mundial virá, só espero que ele não se inspire no ano em que algum brasileiro tenha chances reais de chegar ao título.