Soul surf

O Surfista Peregrino – Sri Lanka – Parte VII

A alma é um poço sem fundo. Eu olho para dentro e não vejo o final. Apenas escuridão e a pele do silêncio cobrindo o meu corpo. Necessito de cada vez mais doses de cartas do Peregrino para ficar à tona.

 

Mesmo que seja neste nosso estilo “one way” = receber sem enviar. Só ele manda. Ele insiste em me enviar idéias, pensamentos, experiências. Vida. Como seu eu fosse um depósito de suas memórias. E não sou?! Já não sei quais são os meus labirintos mentais e quais os dele.

 

A diferença é que ele sempre parece encontrar uma saída. Eu, ao contrário, fico meses perdido tateando a procura do fio de uma Ariadne que não existe. O rugido do Minotauro, no entanto, está sempre por perto. Acabo levando umas chifradas dos meus medos e das realidades que eles materializam. Aí, do nada, vem uma outra carta, e é como se uma brisa fresca soprasse, limpando, e refrescando o porão mofado…

 

?Quem imagina que as qualidades descritas no Código do Samurai são formas exageradas de doação, renúncia, uma fraqueza, ou uma nobreza utópica, forçada, engana-se. Vejo muita similaridade com um Código do Surfista ainda não escrito. A nossa espada é a prancha.

 

A habilidade no seu manejo determina a nossa arte, o nosso ritmo no mundo. A nossa evolução como homens passa por uma disciplina similar, em práticas aparentemente muito diversas. Quem possui e pratica a Lealdade, a Coragem, a Compaixão, a Honra, a Cortesia, a Sinceridade e a Honestidade, não são servos, submissos ou ingênuos. Estão temperando a própria alma.

 

No fogo da Boa Disciplina. Como uma luz que se ilumina. Estão colaborando com a contínua ascensão do próprio Espírito, e dos outros. Cada ação ou pensamento ditado pelo Código do Samurai eleva o espírito do seu agente. Cada palavra uma sentença. Forja o caráter no ferro em brasa da retidão. Revela o Homem por trás do bicho. Diferente de ?animal?, pois cada animal também tem a parte ?bicho? dentro de si.

 

Enfrentar o Leal com deslealdade é uma tarefa tão árdua como tentar humilhar quem é Cortês, quem fala e age com Sinceridade e Honestidade; ou pensar que quem sente e demonstra Compaixão é um fraco, ou quem possui o sentimento da Honra é ingênuo.

 

De todas essas, talvez somente a Coragem seja reconhecida universalmente como um atributo positivo, mais pelo fato de se prestar a diversas conotações, dependendo do interlocutor. No seu significado autêntico, ?o coração em ação?, é motivo de escárnio pelos que se julgam corajosos unicamente através da força física.

 

Ou por saberem que está fora do alcance de suas personalidades nesta vida, ou por sentirem que terão que abandonar aprendizados viciosos muito profundamente inseridos em suas existências para alcançá-la e, talvez, possibilidade remota, possuí-la. A própria Coragem, enfim, tem dezenas de nomes.

 

E é claro que uma agressão física gratuita e inconseqüente não pode ser confundida com coragem. Erro comum e desastroso. Nunca vai poder se irmanar com o mar e suas ondas quem possui a coragem errada. Não pode haver sintonia da Natureza com a violência, pois ela é, em si, a Paz. Mesmo os maremotos e furacões não são violentos, no sentido de que não visam a destruição de ninguém especificamente. Não é pessoal. É simplesmente cósmico.

 

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Muito diferente da violência de uma homem dirigida à si próprio, ao matar o outro, seu espelho. O outro, involuntário depósito inconsciente de todas as suas mágoas, raivas e medos. Querer aniquilá-lo é querer o impossível: aniquilar fisicamente uma parte de si mesmo. Acolher e transmutar é o caminho.

 

O Mal é um cão feroz e amedrontado, que quanto mais medo sente mais feroz se torna. E o Bem é a aceitação da raiva e do medo em nós mesmos. É o acolhimento do Mal em estado bruto, antes de passar pelo coador da alma humana e purificar-se.

 

Quem é o samurai senão aquele que aceita a existência da persistente Escuridão e usa o Código para atravessá-la incólume?

 

E é por isso que ter sempre em mente a Morte não assusta, pelo contrário, conforta o guerreiro. Acolhe-la no seu pensamento diariamente torna-a sua aliada. E quando houver finalmente o encontro inevitável, será como abraçar um velho amigo que há muito não vemos.

 

Naquela madrugada fui acordado pelo Mahal e, com um certo pesar me comprimindo o peito, recolhi minhas coisas do bangalô e peguei o ônibus de volta para Colombo.

 

Durante o trajeto percebi os animais da floresta se aquietarem como que se despedindo de um amigo. Uma voz interna sussurrou: ?Todas as vozes se movem em direção ao silêncio?. O Gregg resolveu ficar, talvez morar por ali. Até que a força do tempo e das circunstâncias eventualmente estragasse a imagem idílica que vivemos em Arugan Bay.

 

Mas isso seria uma possibilidade futura. Ou seja: não existe. O presente era o Gregg surfando, sempre quieto, como era o seu estilo, na vilazinha de Ulé, até quando Deus a preservasse à sua imagem e semelhança. Fui até o seu quarto me despedir. O adeus foi apenas um aperto de mão e um olhar, em silêncio, como era do seu caráter.

 

Eu, um pouco mais latino, não resisti e abracei-o, sentindo um pequeno constrangimento do meu amigo habituado à postura do ?homem de ferro?. Aos poucos eu senti que ele foi cedendo. Em reciprocidade, lentamente, me envolveu com seus braços e, meio desajeitado, acabou apertando tão forte que senti algumas vértebras da dorsal estalarem.

 

Enquanto eu era espremido, pude ver, pela primeira vez, um sinal de ?vida externa?, da relação do Gregg com alguém do passado: uma pequena foto colada na parede do seu quarto, entre as pranchas, com silver-tape. Parecia uma mulher loira tomando um sorvete azul. Ao fundo palmeiras. Um cachorro peludo de cor mostarda pulava tentando lamber seu rosto. Seus cabelos longos voavam como se o vento estivesse tentando levá-los.

 

Gregg reparou que eu tinha visto a foto e sorriu. As pessoas não param de me surpreender e de se surpreenderem. Desta vez tomei o ônibus, e, mais uma vez, ao olhar pelo vidro da janela manchado pelo tempo e pela falta de manutenção, vi Arugan Bay sumindo no horizonte verde, esgarçando sua paisagem como um sonho que insiste em permanecer na memória mesmo depois que acordamos.

 

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Seguir o fluxo. Eis um dos segredos do universo. Resisti durante algum tempo. Algumas semanas. Não queria partir. Embora algo me dizia que eu deveria. Acordava no meio da noite sinfônica dos animais do Sri Lanka em atividade, sofrendo. Pensava: ?qual o origem do sofrimento?. Vinha uma resposta: ?a teimosia?.

 

Querer tudo da maneira que você havia planejado, que o seu ego, por algum motivo obscuro insistia em possuir, como se eu fosse o dono do mundo, controlasse suas variáveis, seus ritmos e sua intensidade. O medo de simplesmente ir. A coragem de desapegar. De assumir que não possuímos nada, e que, portanto, nada podemos perder. Querer quebrar todos os muros imaginados ou não, com o uso da fôrça bruta, só me causava mais e mais dor. A ponto de eu não me suportar.

 

De ninguém ao meu redor suportar a minha presença. Eu agia como um touro enfurecido. E amedrontado. Um lado meu, longínquo, profundo, quase intocado, almejava, inconscientemente, ser o Deus Tirânico, não o Deus Amoroso que todos somos. Eu me violentava forçando-me a trabalhar na escrita e surfar horas e horas a mais além da zona de conforto.

 

Como se o meu dever fosse o Martírio, o Sofrimento tão belo na fábula mítica do Homem. Faltava o respeito e o agradecimento por este corpo que me foi doado. O prazer que o pensamento do suplício me dava, por alguns segundos, era seguido por dias de raiva de mim mesmo.

 

Por que eu sabia que estava me machucando. Ferindo minha própria divindade. Por hábito. E que não conseguia abandonar esta armadura mental. Durante alguns dias caí doente, sem explicação ( ! ). Tinha dores nos tornozelos (rigidez, segundo o meu mestre de Ashtanga, o Mallin), dores na cervical (idem), indisposição geral, náuseas, má digestão.

 

E não sabia porque! Nesta noite um anjo me acordou. Eu não vi, mas percebi sua presença claramente. Disse-me: ?Siga o fluxo. Vá para lá?, apontando o meu lado direito, exatamente o oposto das minhas ?vontades?racionais. Um medo enorme de abandonar as posturas conhecidas, de me deixar levar pelo Rio da Vida, surgiu.

 

O meu planejamento anterior só serviu para engessar os meus passos. A partir do momento de que me conscientizei da armadilha em que eu mesmo havia me metido, tudo começou a ficar mais leve, a fluir. As coisas começaram a acontecer naturalmente.

 

Os planos Divinos são sempre melhores que os nossos. Mesmo que não pareçam ?às primeiras vistas?. O limite entre a persistência e a rigidez é uma linha de fumaça tênue e fugidia no meio de um deserto avassalador de conflitos. O sol, o vento e a poeira dos dias obscurecem a visão.

 

Parar de brigar com Deus ajudou imensamente a minha saúde. As dores sumiram e eu pude voltar a surfar. O inequívoco sinal da minha partida iminente surgiu dois dias depois na praia, numa noite sem lua, quando histórias sobre a Índia surgiram numa conversa à beira da fogueira. Ouvi a Voz.

 

A voz que eu sempre havia respeitado anteriormente, em inúmeras oportunidades. Aquela que me fez pôr o pé na estrada a princípio, que cantava em perfeita harmonia com o meu Ser. A voz que alinhava automaticamente os meus chackras e me punha de pé, ereto, tranqüilo e seguro. Naquela mesma noite empacotei a mochila com meus velhos e fiéis utensílios e me preparei para a primeira escala a fim de alcançar o sub-continente indiano: Colombo.

          

Depois de dois dias de viagem, com minhas economias no fim, cheguei à Colombo e procurei o Charlie, que por sua vez me apresentou a alguns amigos que tinham o melhor preço para safiras e rubis. O Sri Lanka é conhecido no mundo inteiro por possuir a melhor qualidade destas pedras.

 

Os preços, sabendo onde procurar, com contatos dentro da família dos mineiros, podem chegar a dez vezes menos do que se consegue por elas na Europa ou no Japão. Atrair para mim a Riqueza Interna a fim de continuar na procura pelo meu caminho é uma tarefa relativamente fácil, se o seu coração está aberto e a sua mente preparada.

 

O segredo é manter os canais ventilados, não obstruídos por pensamentos negativos ou de carência, miséria ou falta. Desta forma, no dia seguinte de manhã fui levado a trinta quilômetros ao norte de Colombo e, na vila dos mineiros mais antigos do país, encontrei uma fortuna de amor, acolhimento, safiras e rubis.

 

De uma qualidade que eu jamais imaginava possível. Pedras e pessoas com superfícies e interiores sem mácula. De uma perfeição quase inconcebível, tratando-se de matéria. Paguei com as rúpias que me restavam, tomando o cuidado de deixar apenas o suficiente para o jantar daquele dia e a passagem para a Índia.

 

O pequeno volume no falso bolso interno da minha calça não aparecia. Com isso, calculei, e dentro dos padrões relativamente modestos em que vivo, poderei tocar a vida por pelo menos mais um ano. Restava encontrar o comprador em Calcutá ou Nova Delhi.

 

Os canais estavam abertos, eu podia sentir. Não haveria sobressalto se eu não desse espaço para sabotadores internos agirem na calada da inconsciência noturna. Naquela mesma noite embarquei no vôo da Garuda Airlines para Nova Delhi e para uma nova realidade espacial e espiritual espalhada à frente dos meus passos…?

 

Enquanto alguns fotógrafos documentam a história, Fedoca Lima fez diferente: viveu dentro dela enquanto fotografava. Carioca do Posto 5, começou a surfar com 11 anos e a fotografar quase ao mesmo tempo, com uma máquina fotográfica alemã do pai. Aos 14, registrou a Rainha Elizabeth passando de Rolls-Royce aberto pela orla de Copacabana, em frente à casa do Assis Chateaubriand. No mesmo período, fotografou o Mick Jagger dando o dedo do meio no Copacabana Palace. Não era fotógrafo profissional. Era um moleque com olho bom e câmera na mão, sem perceber ainda o tamanho do que estava construindo. O que veio depois é história do surfe brasileiro. O Píer de Ipanema nos anos 70, quando o Rio era o centro do surfe nacional, com Daniel Friedmann, Pepê Lopes, Rico de Souza e Ricardo Bocão dominando o circuito. A Brasil Surf, primeira revista especializada do país, na qual Fedoca jogou em todas as posições: fotógrafo, redator e capa. O Havaí entre 1978 e 1981, surfando e fotografando ao lado de Gerry Lopez, Shaun Tomson e Michael Ho em Pipeline e Waimea. Os shows históricos, de Bob Marley ao ar livre no Havaí até Rolling Stones e Paul McCartney no Maracanã. “A foto que eu não tirei, essa me persegue.” Fedoca Lima Mais de cinquenta anos depois, esse arquivo vira livro. “Surf, Clicks e Rock’n Roll” tem 220 páginas, cerca de 180 fotografias e percorre a transformação do surfe brasileiro desde a era analógica até o digital, passando por Arpoador, Saquarema, Havaí, Califórnia e Macumba. Com captação aprovada de R$ 203 mil via incentivo cultural e apio da Fu Wax, o lançamento está previsto para o segundo semestre de 2026. Conversamos com Fedoca sobre tudo isso. Antes de se consolidar como fotógrafo, você também virou personagem da própria história do surfe brasileiro ao sair na capa da Brasil Surf em 1975. Como foi viver aquele momento por dentro? Saí na capa da Brasil Surf. Na época eu trabalhei na revista de março de 75 até janeiro de 79, só não peguei o primeiro número. Jogava todas as posições: saí na capa, escrevia, tirava foto, ajudava na redação, dava palpite, fazia matéria. Por muito tempo achei que era o único fotógrafo de surfe que tinha saído numa capa. Depois o Bruno Alves me falou que o irmão dele, o Alberto, saiu na capa da Fluir número 1. A história dele bate um pouco com a minha: ele pegava onda, saiu na capa, era fotógrafo. Mas durante anos eu achei que era caso único. Até hoje tem um restaurante aqui que o cara pediu, eu tirei uma foto com a revista na mão, ele botou na parede, eu assinei. A influência continua. A Brasil Surf ajudou a mudar a imagem do surfista no Brasil. Como era ser surfista naquela época, antes dessa mudança de percepção acontecer? O surfe saía no caderno B do Jornal do Brasil, do Globo. Não saía no esporte. E o surfista era tido como vagabundo de praia. Maconheiro. Isso, aliás, até hoje tem um pouco, mas na época tinha muito mais. A Brasil Surf não vou dizer que limpou essa imagem completamente, mas ajudou a transformar o surfe em esporte e também a fomentar o mercado de surfwear. Os irmãos Wady e Fuad Mansur, da loja Mansur, em Ipanema, foram dos primeiros anunciantes. Acreditaram na revista, fizeram anúncios de contracapa e página inteira, e as camisetas personalizadas vendidas pelo correio viraram um sucesso. A Brasil Surf acabou impulsionando fabricantes de pranchas, calções, parafinas e diversos outros anunciantes ligados ao surfe. Os fabricantes de prancha tinham um veículo para anunciar. Os fotógrafos ganhavam uma graninha, viajavam. Fui para a América Central, Porto Rico, Barbados, El Salvador, Fernando de Noronha, Peru, várias viagens bancadas pela Brasil Surf de uma forma ou de outra. O Nilton Barbosa foi ao Havaí duas vezes bancado pela revista. No caso dele, eles bancavam os filmes, ele vendia as fotos e a viagem se pagava. Tinha uma diferença entre mim e o Nilton nessa época: ele chegava na praia e ficava na areia fotografando, fotografando, fotografando. Eu chegava e ia para dentro da água. Se não estava o Daniel, não estava o Pepê, não estava o Cauli, não estava o Bocão, não estavam os caras top, eu entrava e surfava. Então tem foto minha na Brasil Surf publicada pelo Nilton Barbosa, pelo Rogério Ehrlich. Eu estava mais dentro da água do que fora. Eu estudava. Primeiro vestibular, depois faculdade. Boa parte dos meus amigos só queria saber de surfar. Eu dividia meu tempo. Chegava na praia, já tinha estudado de manhã, aí ficava naquele dilema: vou pegar onda ou vou fotografar? Por isso tem poucas fotos do Píer. Em três anos não tirei nem metade do que tiro hoje num dia bom na Macumba com o digital. Você viveu o Píer, a Brasil Surf, o Havaí dos anos 70, o nascimento do surfe brasileiro moderno. Em que momento percebeu que estava no meio de uma transformação cultural que iria muito além do esporte? O Píer foi o que fomentou o surfe no Rio de Janeiro. Por dez anos, foi domínio completo do Rio no cenário brasileiro. O Daniel Friedmann, em 77, foi o último carioca a vencer uma etapa do circuito internacional, ganhou no Quebra-Mar, em cima do Pepê Lopes, que tinha ganho em 76. Os dois de Ipanema, meus vizinhos de rua. E esse pessoal do Píer que dominou, o Daniel, o Pepê Lopes, o Cauli Rodrigues, e também o Otávio Pacheco, o Rico de Souza, o Ricardo Bocão. E tinha o Betão, que era o melhor surfista do Brasil na época mas não era competitivo, não corria atrás de patrocinador, acabou saindo cedo. Em 75 ele ganhou o Campeonato de Saquarema e foi saindo, saindo. O Píer influenciou a revista, influenciou os fabricantes de prancha, influenciou o modo de viver. Começaram a ter fábricas em Guaratiba, Vargem Grande, no Recreio, depois em Saquarema. As pessoas foram morar lá. O Penho foi, o Otávio comprou

O que define uma boa onda? Tamanho, força, parede, qualidade da linha, formação e surfabilidade, dentre outros elementos. No oceano, todos esses fatores mudam a cada swell, a cada vento, a cada maré. Em Búzios, a proposta é diferente: construir essas variáveis de forma controlada, repetível e ajustável. A piscina do Brasil Surfe Clube Aretê Búzios opera com a tecnologia Endless Surf, do grupo canadense WhiteWater, com 48 câmaras de ar de alta precisão. O sistema permite criar configurações distintas dentro da mesma estrutura. Dentro de um universo de grandes possibilidades, as cinco primeiras ondas já foram nomeadas e reveladas, cada uma com perfil próprio, e muito mais ainda está por vir. Onda #01: Pointbreak + Junção Linha longa, seções conectadas, tempo de onda que pode ultrapassar 25 segundos. A junção encadeia diferentes partes da onda sem perder velocidade, criando uma das experiências mais difíceis de encontrar no oceano com consistência. Para quem quer mais de 10 manobras na mesma onda ou simplesmente mais tempo de linha para ler e decidir. Onda #02: Manobras + Bowl A parede fica mais íngreme. O bowl abre seções críticas para manobras verticais e aéreos. É o ambiente para quem quer empurrar os limites do que consegue fazer sobre a prancha, com repetição suficiente para transformar cada tentativa em aprendizado real. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Onda #03: Rampa + Tubo Uma onda que combina duas experiências na mesma seção. A rampa prepara o surfista para a manobra e o tubo roda na sequência. Para quem quer encaixar um aéreo e ainda sair do tubo na mesma onda, essa configuração entrega os dois elementos sem precisar escolher. Onda #04: Rampa Nível Intermediário Parede consistente, menor intensidade, mais previsível. A configuração certa para quem está desenvolvendo manobras progressivas e precisa de repetição para consolidar o que está aprendendo. A seção cria a rampa no ângulo certo, com velocidade suficiente para executar sem exigir o nível avançado. Onda #05: Rampa Nível Avançado Mais potência, mais velocidade, mais projeção. A rampa avançada é para quem já chegou em Búzios com manobras no repertório e quer testá-las com pressão real. Com capacidade para gerar até 700 ondas por hora, o intervalo entre uma tentativa e outra é curto o suficiente para transformar cada sessão em treino de alto rendimento. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por BSC (@brasilsurfeclube) Para todos os níveis As cinco configurações cobrem desde quem está aprendendo até quem treina em alto rendimento. A piscina ainda opera em dois modos: single peak, com ondas quebrando para um lado e maior extensão de linha, e split peak, com direitas e esquerdas simultâneas, permitindo que surfistas compartilhem a mesma série em direções opostas. Yago Dora, campeão mundial de surfe em 2025, Victor Bernardo, um dos maiores freesurfers da atualidade, e Michelle des Bouillons, referência mundial em ondas gigantes, integram o time do BSC e já testaram a tecnologia na piscina Adrena Red Sea, na Arábia Saudita. “Muito animal esse lance de ter essa variedade de onda também. Um leque de ondas absurdo. Mal posso esperar para Búzios”, disse Victor Bernardo após a sessão. A versão de Búzios será maior: 48 câmaras contra 36 da estrutura do Mar Vermelho, com 13 mil metros quadrados de lâmina d’água. Variedade de ondas para testar, arriscar, aprender e evoluir todos os dias. Com inauguração prevista para o segundo semestre de 2026, é o que o Brasil Surfe Clube Aretê Búzios chega para entregar.

Pedro Bettencourt Müller nasceu no Rio de Janeiro, no dia 21 de julho de 1966, num ambiente familiar que respirava praia. Seu pai, Guilherme Xavier de Brito Müller, economista e morador do Leblon, cresceu frequentando a Zona Sul. Sua mãe, Maria Isabel Bettencourt Müller, criada em Santa Teresa, compartilhava da mesma paixão pelas praias. Para o casal, fim de semana e férias tinham destino certo: areia, sol e mar. Foi assim que Pedro e o irmão, Guilherme, passaram a infância seguindo os pais para o meio da Barra ou para São Conrado, ainda de estradas de terra, sem prédios, calçadões ou qualquer urbanização. Nesse cenário quase intocado, Pedro foi se encantando pelas ondas. Lembra-se de observar alguns surfistas solitários no meio da Barra e sentir-se hipnotizado pela habilidade deles. O mar, desde cedo, era o lugar onde queria estar. Ele recorda também a rotina da infância: ia para as aulas de natação no Clube de Regatas Flamengo e, depois, caminhava até o judô, no Leblon, um trajeto longo para uma criança de 12 anos. Antes de entrar no tatame, sentava-se no calçadão para olhar o mar quebrando, entregue à mesma fascinação que o acompanharia por toda a vida. O mar lhe transmitia paz, calma e propósito. Ali, ainda menino, já entendia que queria se tornar surfista. A mudança para São Conrado, por volta dos 14 ou 15 anos, foi decisiva. Morando ao lado do Pepino, Müller muitas vezes cabulava a aula pra ir surfar. As ondas triangulares, rápidas e pesadas da região se transformaram no seu campo de treinamento permanente. Ali, guiado pela referência de Rony Lima e pela evolução proporcionada pelas pranchas dos shapers Rico e Pedro Battaglin, deu um salto técnico marcante. A “biquilha mágica” 5’4″ de Battaglin é lembrada até hoje como uma das grandes viradas em seu surfe, época em que adotou o apelido de “o Águia”, pela tatuagem no braço. Uma nova mudança, motivada pelo desemprego do pai, levou a família para a Barra. Para Müller, foi a oportunidade perfeita: entre o Postinho, o meio da Barra e o Quebra-Mar, encontrou três ondas consistentes e acessíveis a pé, permitindo treinos diários que aceleraram ainda mais sua evolução. Nessa fase, destacou-se nos campeonatos da ASBT – Associação de Surf da Barra da Tijuca – e entrou para a promissora equipe da Cristal Graffiti. Antes disso, havia vencido seu primeiro campeonato no Leblon, organizado por Marcelo Peninha, vitória que marcou sua confiança rumo ao profissionalismo. Os resultados na categoria Júnior renderam um prêmio decisivo: uma passagem para o Havaí. Aos 18 anos, Müller viveu sua primeira temporada no North Shore (1984/85), dividindo casa com surfistas brasileiros experientes. Pipeline, logo no primeiro dia, foi seu batismo de fogo: mar pesado, adrenalina no limite e a certeza de que o treino no Pepino o havia preparado para aquele cenário. De volta ao Brasil, enfrentou dificuldades para manter regularidade como profissional. A grande virada veio com o curso de meditação transcendental feito ao lado de Rodolfo Lima. O impacto competitivo foi imediato: venceu a etapa profissional do Quebra-Mar no circuito carioca, em 1986, e passou a frequentar pódios de forma consistente. A regularidade, marca registrada de sua carreira, nasceu ali. Em 1987, tornou-se vice-campeão do primeiro Circuito Brasileiro de Surf Profissional. Liderou boa parte da temporada, foi vice-campeão na etapa da Lightning Bolt e, depois, campeão no Fico Festival. Só perdeu o título na penúltima bateria do Circuito, por apenas 20 pontos, uma diferença mínima para quem tinha 850 pontos de vantagem sobre o terceiro colocado. Na época, era visto como o surfista mais consciente e estratégico do país. Nos anos seguintes, acumulou resultados expressivos: vitórias importantes na Abrasp e uma vitória significativa no QS de Florianópolis, superando Barton Lynch, Jojó e Julio Adler. Em 1995, viria um dos grandes destaques internacionais de sua carreira: o nono lugar em Pipeline, substituindo de última hora o australiano Damien Hardman. Ondas entre 10 e 15 pés confirmaram sua capacidade técnica em um dos palcos mais desafiadores do mundo. Pedro Müller seguiria competindo por mais de duas décadas. Em Ubatuba, já aos 38 anos, conquistou sua última vitória no Circuito Super Surf 2004, num dos triunfos mais marcantes de sua trajetória. Hoje, vive do surfe como treinador, comentarista da Sportv e um dos proprietários da @escola_pedromuller, na Barra da Tijuca, administrada pelo sócio Adelmo Noite. Acompanhe ns publicações nas redes sociais @museudosurfesantos. Coordenador de pesquisas históricas do surfe @diniziozzi, o Pardhal.

Como uma prancha largamente usada por surfistas fora do circuito mundial profissional pode ganhar atenção? Coloque a dita cuja nos pés de um bicampeão mundial. Quer um destaque ainda maior? Filipe Toledo vence o tricampeão Gabriel Medina. Pronto. Vamos por partes. Na etapa do Championship Tour, na Nova Zelândia (Maio 2023), Filipe acabou não vencendo a disputa da quarta de final contra Griffin Colapinto, mesmo obtendo a melhor nota da bateria. Faltou uma onda. Mas o assunto aqui é outro, ou quase. Em um universo dominado por triquilhas, desde 1981, a diversidade de pranchas, no século 21, começou a ganhar espaço fora das competições. No meio de antigas novidades, biquilhas com trailer fin (estabilizador central) se mostraram mais controláveis e amistosas, levando muita gente a adotá-las no quiver. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Filipe Toledo (@filipetoledo) O modelo de biquilha com estabilizador central já havia sido testado mas ganhou vida nova em 2003, com as Super Twins do shaper, tetracampeão mundial (79, 80, 81 e 82), Mark Richards. Ele trouxe de volta suas Twin Fins do início dos anos 80, adicionando uma “quilhinha” central. Daí, de repente, Filipe Toledo coloca no jogo do circuito mundial o modelo Modern 2, da Sharp Eye Surfboards. Vence Gabriel Medina nas esquerdas de Raglan e deixa muito mais gente antenada sobre as possibilidades de uma twin com trailer fin. Filipe não foi o primeiro a fazer algo que eu esperava há tempos. Kelly Slater inovou, diminuindo o tamanho das pranchas e competindo, em algumas situações, com o que eram mais bi do que triquilhas, na primeira década do século 21. Dane Reynolds também fez isso, mas vamos combinar que esses dois não são parâmetros de surf normal. Deivid Silva também ousou. Abiquilhou-se numa etapa. Mandou bem, mas não chamou tanta atenção. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por Sharp Eye Surfboards (@sharpeyesurfboards_au) Quando se trata de altíssima performance pesa sempre o fato dos atletas da elite não terem muito tempo para experiências fora da casinha das triquilhas. Mas, pela primeira vez, Filipe, além de seu ano sabático, em 2024, teve, como todos os Tops, os mesmos raros sete meses de folga antes da temporada 2026. Isso parece ter criado espaço para lidar com pranchas diferentes, memória física e jogo mental para se arriscar com um equipamento não muito convencional na Nova Zelândia. Sim, pranchas realmente diferentes pedem ajustes na maneira de usá-las e isso requer tempo e, claro, talento. Duas coisas chamaram a minha atenção. Impressionante como podemos e devemos comparar os melhores do surf competitivo profissional com pilotos da Fórmula 1. É com eles que a indústria das pranchas evolui mais e melhor. Detalhes sutis, milimétricos, que essa turma sente no funcionamento de uma prancha podem ser incorporados aos modelos que a maioria dos surfistas não conseguiria detectar ou explicar. Eles dão o caminho do que será usado pelos consumidores “normais”. Shapers são mais teoria, estudo. Tops são prática. As mudanças surgem daí. Segunda, e mais curiosa. Um esporte que durante tanto tempo teve uma aura de vanguarda e ousadia leva muito tempo para propor ou acertar mudanças mais drásticas, seja na construção ou desenvolvimento de design. Não creio que seja culpa dos fabricantes, já que essa indústria nunca gerou dinheiro suficiente para que se desenvolvesse como deveria. Ainda por cima a competição tem um formato onde há pouco espaço para o diferente quanto à performance. Mas isso é conversa para outro texto. Por agora fica a dica. Mesmo ideias estranhas à normalidade podem resultar em bons resultados. Teste tudo que é prancha que você puder. Não tenha medo, você não depende de notas dos juízes para ser feliz.