
A alma é um poço sem fundo. Eu olho para dentro e não vejo o final. Apenas escuridão e a pele do silêncio cobrindo o meu corpo. Necessito de cada vez mais doses de cartas do Peregrino para ficar à tona.
Mesmo que seja neste nosso estilo “one way” = receber sem enviar. Só ele manda. Ele insiste em me enviar idéias, pensamentos, experiências. Vida. Como seu eu fosse um depósito de suas memórias. E não sou?! Já não sei quais são os meus labirintos mentais e quais os dele.
A diferença é que ele sempre parece encontrar uma saída. Eu, ao contrário, fico meses perdido tateando a procura do fio de uma Ariadne que não existe. O rugido do Minotauro, no entanto, está sempre por perto. Acabo levando umas chifradas dos meus medos e das realidades que eles materializam. Aí, do nada, vem uma outra carta, e é como se uma brisa fresca soprasse, limpando, e refrescando o porão mofado…
?Quem imagina que as qualidades descritas no Código do Samurai são formas exageradas de doação, renúncia, uma fraqueza, ou uma nobreza utópica, forçada, engana-se. Vejo muita similaridade com um Código do Surfista ainda não escrito. A nossa espada é a prancha.
A habilidade no seu manejo determina a nossa arte, o nosso ritmo no mundo. A nossa evolução como homens passa por uma disciplina similar, em práticas aparentemente muito diversas. Quem possui e pratica a Lealdade, a Coragem, a Compaixão, a Honra, a Cortesia, a Sinceridade e a Honestidade, não são servos, submissos ou ingênuos. Estão temperando a própria alma.
No fogo da Boa Disciplina. Como uma luz que se ilumina. Estão colaborando com a contínua ascensão do próprio Espírito, e dos outros. Cada ação ou pensamento ditado pelo Código do Samurai eleva o espírito do seu agente. Cada palavra uma sentença. Forja o caráter no ferro em brasa da retidão. Revela o Homem por trás do bicho. Diferente de ?animal?, pois cada animal também tem a parte ?bicho? dentro de si.
Enfrentar o Leal com deslealdade é uma tarefa tão árdua como tentar humilhar quem é Cortês, quem fala e age com Sinceridade e Honestidade; ou pensar que quem sente e demonstra Compaixão é um fraco, ou quem possui o sentimento da Honra é ingênuo.
De todas essas, talvez somente a Coragem seja reconhecida universalmente como um atributo positivo, mais pelo fato de se prestar a diversas conotações, dependendo do interlocutor. No seu significado autêntico, ?o coração em ação?, é motivo de escárnio pelos que se julgam corajosos unicamente através da força física.
Ou por saberem que está fora do alcance de suas personalidades nesta vida, ou por sentirem que terão que abandonar aprendizados viciosos muito profundamente inseridos em suas existências para alcançá-la e, talvez, possibilidade remota, possuí-la. A própria Coragem, enfim, tem dezenas de nomes.
E é claro que uma agressão física gratuita e inconseqüente não pode ser confundida com coragem. Erro comum e desastroso. Nunca vai poder se irmanar com o mar e suas ondas quem possui a coragem errada. Não pode haver sintonia da Natureza com a violência, pois ela é, em si, a Paz. Mesmo os maremotos e furacões não são violentos, no sentido de que não visam a destruição de ninguém especificamente. Não é pessoal. É simplesmente cósmico.
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Muito diferente da violência de uma homem dirigida à si próprio, ao matar o outro, seu espelho. O outro, involuntário depósito inconsciente de todas as suas mágoas, raivas e medos. Querer aniquilá-lo é querer o impossível: aniquilar fisicamente uma parte de si mesmo. Acolher e transmutar é o caminho.
O Mal é um cão feroz e amedrontado, que quanto mais medo sente mais feroz se torna. E o Bem é a aceitação da raiva e do medo em nós mesmos. É o acolhimento do Mal em estado bruto, antes de passar pelo coador da alma humana e purificar-se.
Quem é o samurai senão aquele que aceita a existência da persistente Escuridão e usa o Código para atravessá-la incólume?
E é por isso que ter sempre em mente a Morte não assusta, pelo contrário, conforta o guerreiro. Acolhe-la no seu pensamento diariamente torna-a sua aliada. E quando houver finalmente o encontro inevitável, será como abraçar um velho amigo que há muito não vemos.
Naquela madrugada fui acordado pelo Mahal e, com um certo pesar me comprimindo o peito, recolhi minhas coisas do bangalô e peguei o ônibus de volta para Colombo.
Durante o trajeto percebi os animais da floresta se aquietarem como que se despedindo de um amigo. Uma voz interna sussurrou: ?Todas as vozes se movem em direção ao silêncio?. O Gregg resolveu ficar, talvez morar por ali. Até que a força do tempo e das circunstâncias eventualmente estragasse a imagem idílica que vivemos em Arugan Bay.
Mas isso seria uma possibilidade futura. Ou seja: não existe. O presente era o Gregg surfando, sempre quieto, como era o seu estilo, na vilazinha de Ulé, até quando Deus a preservasse à sua imagem e semelhança. Fui até o seu quarto me despedir. O adeus foi apenas um aperto de mão e um olhar, em silêncio, como era do seu caráter.
Eu, um pouco mais latino, não resisti e abracei-o, sentindo um pequeno constrangimento do meu amigo habituado à postura do ?homem de ferro?. Aos poucos eu senti que ele foi cedendo. Em reciprocidade, lentamente, me envolveu com seus braços e, meio desajeitado, acabou apertando tão forte que senti algumas vértebras da dorsal estalarem.
Enquanto eu era espremido, pude ver, pela primeira vez, um sinal de ?vida externa?, da relação do Gregg com alguém do passado: uma pequena foto colada na parede do seu quarto, entre as pranchas, com silver-tape. Parecia uma mulher loira tomando um sorvete azul. Ao fundo palmeiras. Um cachorro peludo de cor mostarda pulava tentando lamber seu rosto. Seus cabelos longos voavam como se o vento estivesse tentando levá-los.
Gregg reparou que eu tinha visto a foto e sorriu. As pessoas não param de me surpreender e de se surpreenderem. Desta vez tomei o ônibus, e, mais uma vez, ao olhar pelo vidro da janela manchado pelo tempo e pela falta de manutenção, vi Arugan Bay sumindo no horizonte verde, esgarçando sua paisagem como um sonho que insiste em permanecer na memória mesmo depois que acordamos.
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Seguir o fluxo. Eis um dos segredos do universo. Resisti durante algum tempo. Algumas semanas. Não queria partir. Embora algo me dizia que eu deveria. Acordava no meio da noite sinfônica dos animais do Sri Lanka em atividade, sofrendo. Pensava: ?qual o origem do sofrimento?. Vinha uma resposta: ?a teimosia?.
Querer tudo da maneira que você havia planejado, que o seu ego, por algum motivo obscuro insistia em possuir, como se eu fosse o dono do mundo, controlasse suas variáveis, seus ritmos e sua intensidade. O medo de simplesmente ir. A coragem de desapegar. De assumir que não possuímos nada, e que, portanto, nada podemos perder. Querer quebrar todos os muros imaginados ou não, com o uso da fôrça bruta, só me causava mais e mais dor. A ponto de eu não me suportar.
De ninguém ao meu redor suportar a minha presença. Eu agia como um touro enfurecido. E amedrontado. Um lado meu, longínquo, profundo, quase intocado, almejava, inconscientemente, ser o Deus Tirânico, não o Deus Amoroso que todos somos. Eu me violentava forçando-me a trabalhar na escrita e surfar horas e horas a mais além da zona de conforto.
Como se o meu dever fosse o Martírio, o Sofrimento tão belo na fábula mítica do Homem. Faltava o respeito e o agradecimento por este corpo que me foi doado. O prazer que o pensamento do suplício me dava, por alguns segundos, era seguido por dias de raiva de mim mesmo.
Por que eu sabia que estava me machucando. Ferindo minha própria divindade. Por hábito. E que não conseguia abandonar esta armadura mental. Durante alguns dias caí doente, sem explicação ( ! ). Tinha dores nos tornozelos (rigidez, segundo o meu mestre de Ashtanga, o Mallin), dores na cervical (idem), indisposição geral, náuseas, má digestão.
E não sabia porque! Nesta noite um anjo me acordou. Eu não vi, mas percebi sua presença claramente. Disse-me: ?Siga o fluxo. Vá para lá?, apontando o meu lado direito, exatamente o oposto das minhas ?vontades?racionais. Um medo enorme de abandonar as posturas conhecidas, de me deixar levar pelo Rio da Vida, surgiu.
O meu planejamento anterior só serviu para engessar os meus passos. A partir do momento de que me conscientizei da armadilha em que eu mesmo havia me metido, tudo começou a ficar mais leve, a fluir. As coisas começaram a acontecer naturalmente.
Os planos Divinos são sempre melhores que os nossos. Mesmo que não pareçam ?às primeiras vistas?. O limite entre a persistência e a rigidez é uma linha de fumaça tênue e fugidia no meio de um deserto avassalador de conflitos. O sol, o vento e a poeira dos dias obscurecem a visão.
Parar de brigar com Deus ajudou imensamente a minha saúde. As dores sumiram e eu pude voltar a surfar. O inequívoco sinal da minha partida iminente surgiu dois dias depois na praia, numa noite sem lua, quando histórias sobre a Índia surgiram numa conversa à beira da fogueira. Ouvi a Voz.
A voz que eu sempre havia respeitado anteriormente, em inúmeras oportunidades. Aquela que me fez pôr o pé na estrada a princípio, que cantava em perfeita harmonia com o meu Ser. A voz que alinhava automaticamente os meus chackras e me punha de pé, ereto, tranqüilo e seguro. Naquela mesma noite empacotei a mochila com meus velhos e fiéis utensílios e me preparei para a primeira escala a fim de alcançar o sub-continente indiano: Colombo.
Depois de dois dias de viagem, com minhas economias no fim, cheguei à Colombo e procurei o Charlie, que por sua vez me apresentou a alguns amigos que tinham o melhor preço para safiras e rubis. O Sri Lanka é conhecido no mundo inteiro por possuir a melhor qualidade destas pedras.
Os preços, sabendo onde procurar, com contatos dentro da família dos mineiros, podem chegar a dez vezes menos do que se consegue por elas na Europa ou no Japão. Atrair para mim a Riqueza Interna a fim de continuar na procura pelo meu caminho é uma tarefa relativamente fácil, se o seu coração está aberto e a sua mente preparada.
O segredo é manter os canais ventilados, não obstruídos por pensamentos negativos ou de carência, miséria ou falta. Desta forma, no dia seguinte de manhã fui levado a trinta quilômetros ao norte de Colombo e, na vila dos mineiros mais antigos do país, encontrei uma fortuna de amor, acolhimento, safiras e rubis.
De uma qualidade que eu jamais imaginava possível. Pedras e pessoas com superfícies e interiores sem mácula. De uma perfeição quase inconcebível, tratando-se de matéria. Paguei com as rúpias que me restavam, tomando o cuidado de deixar apenas o suficiente para o jantar daquele dia e a passagem para a Índia.
O pequeno volume no falso bolso interno da minha calça não aparecia. Com isso, calculei, e dentro dos padrões relativamente modestos em que vivo, poderei tocar a vida por pelo menos mais um ano. Restava encontrar o comprador em Calcutá ou Nova Delhi.
Os canais estavam abertos, eu podia sentir. Não haveria sobressalto se eu não desse espaço para sabotadores internos agirem na calada da inconsciência noturna. Naquela mesma noite embarquei no vôo da Garuda Airlines para Nova Delhi e para uma nova realidade espacial e espiritual espalhada à frente dos meus passos…?