Soul surf

O Surfista Peregrino – Sri Lanka – Parte VI

“Não existe complexo de inferioridade na sarjeta. É, ao contrário, uma espécie de onipotência disfarçada. Ela é teoricamente a representação gráfica do abjeto no ser humano. Mas na verdade só os seres com pretensão à divindade dela se aproximam. A atração pelo martírio, pela humilhação, tem raízes na forma equivocada de adorar Cristo, ou Buda, ou Khrisna, já que a figura do mendigo não é um privilégio da cultura ocidental, embora nela se manifeste mais perversamente. O auto flagelamento é uma identificação doentia com o próprio Cristo. É tentar SER Ele. É a perigosa criação de uma megalômana ilusão de que somos Ele, ou como diria um amigo muito próximo e muito perturbado: ‘Eu sou o maior megalômano do mundo!’. Nós somos Divinos sem sermos o Cristo. Cada um de nós possui a sua própria divindade. Somos a Totalidade intrínseca. Tentar mimetizar ou reproduzir o caminho de qualquer outro apenas nos condena a um tipo de infelicidade desnecessária e inócua. Ser feliz é a melhor e mais santa maneira de acreditar e reverenciar aquele que sofreu por todos nós”.

 

Sob a óbvia influência do Peregrino, eu estava meditando neste clima meio pesado quando abri o olho e dei de cara com uma carta do “meu amigo livre” ainda fechada sobre o meu criado-mudo. Estava lá há uns três dias. Criei coragem e abri.

 

“Nuvens negras sobrevoavam o céu naquela tarde. Eu podia sentir o gosto do chocolate quente hindu (a fim de variar um pouco do chá), trazido pelo Mahal, que eu havia bebido duas horas antes. Efeito retardado num paladar adiantado. O chocolate adoçou a minha amargura. E encobriu o motivo da amargura. Não vai ser hoje que eu vou transmutar mais essa. Não me sinto com ânimo para enfrentar mais este fantasma, seja ele qual for. Uma pequena folga para os músculos emocionais. Um forte vento on-shore com ambições de ventania tropical balançava o cenário. Eu caminhava por baixo da árvore milenar que beirava a estrada de terra que dava para o pico. Folhas gigantes caíam a minha volta. A árvore exercitava o seu desapego, confiando na providência e na inevitabilidade da próxima folhagem.

 

Muitas vezes eu não possuo este tipo de fé. Na renovação dos neurônios à renovação celular à renovação espiritual. E cada vez que eu duvido, morro um pouco. Não no sentido de deixar de existir neste planeta, mas no sentido de perder a minha capacidade de existir conscientemente por aqui. Não abro mão, e assim não me renovo. Para a frente! Andar para frente é uma espécie de terapia e a reprodução da índole de tudo o que é vivo. Neste ato reproduzimos a nossa necessidade e o nosso destino. O mar me enxágua as dores mas elas misteriosamente renovam-se, reproduzindo-se como novos vírus que nos instigam para que sempre usemos de todos os nossos recursos para descobrir novas curas. No sentido amplo. A procura da cura e a vivência da cura são boas metáforas para a vida e para a plenitude. A vida e a morte são a cura. A inconsciência é a doença. Eu me sentia uma metáfora ambulante a procura de algo indefinido no corpo da existência. Minha existência e a dos outros.

 

Talvez o melhor sinônimo da vida seja a própria morte. Sua irmã gêmea siamesa. A morte é a liberdade suprema. O que eu sinto, às vezes, é a nostalgia do outro lado. A minha procura é a busca eterna pela morte. Ou melhor, é a constante preparação para ter e sentir e ser o privilégio da passagem. Quando terei aprendido o suficiente/necessário com este corpo e nesta dimensão, e poderei surfar as ondas infinitas da percepção de Deus? Sou ainda uma criança nesta viagem. A imensidão do que eu ainda tenho que aprender às vezes me oprime, às vezes me excita. Algumas vezes me transcende. E os véus vão caindo. Como dizem os Mestres: “os medos são os véus que nos separam da Iluminação”. Vamos olhando para eles. Tirando um a um para podermos ver claramente nossa própria face. E no final, quem sabe, estará a morte, próxima passagem, realização interior. No final dos medos está a liberdade. Aloja-se a luz. Anoto mentalmente: ‘Não ter medo dos medos: são nossos pequenos e eficientes auxiliares na Jornada Espiritual’.

 

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Arrumei um professor de Ashtanga Yôga na vila. Ele tinha acabado de chegar da Índia e passava três meses por ano em Arugan Bay para se isolar e meditar. Seu nome era simplesmente Mallin. Fiquei sabendo da sua capacidade por intermédio da minha amiga Crea, filha do pescador Jeshu Conheri, meu amigo e fornecedor dos três peixes frescos semanais. Sem mercúrio. Às vezes, quando o mar estava baixo, eu seguia com o Jeshu na sua peregrinação noturna ao outro lado da baía à espreita dos cardumes: eles sempre vinham, conduzidos pelas correntes da Fé. Consegui convencer Mallin a me instruir na arte da Ashtanga. Algo dentro de mim exigia que eu entrasse novamente em contato com esta prática. Senti que, neste momento a minha evolução como homem e como surfista passava por esta via. Percebendo o nível sincero da minha paixão, reflexo inequívoco da necessidade da alma transmutar sob esta ação, cedeu. O Ashtanga Yôga é provavelmente a prática de Yôga mais dinâmica existente no que se refere aos movimentos físicos/corporais e ao ritmo.

 

Pelo meu perfil e pela exigência da minha índole, a minha evolução e o alcance superior da minha consciência passam necessariamente pela quebradura das armaduras físicas. Ao exaurir o limite da matéria a alma se revela. É o meu caminho. O que o meu espírito escolheu. Ao entrar em contato com a minha respiração, com o meu contato com o Divino, abrem-se os portais da minha percepção. Eu estava certo. Logo na primeira aula, à luz da lua cheia, eu gritava e grunhia involuntariamente com o esforço, até que percebi que passava por uma barreira emocional fortíssima. Apesar do medo extremo, não parei. Continuei persistindo, sendo comandado por Mallin, que exigia que eu continuasse respirando. Rompi um limite interno espesso e ancestral. O peito parecia que ia explodir e as lágrimas convulsivas brotaram como nunca antes eu havia experimentado na minha vida. Meu coração parecia que ia arrebentar dentro do peito, mas, ao invés disso, senti que me libertava de toneladas de peso inútil. O reflexo no meu surf foi imediato. A fluidez nas manobras e a compenetração quase mágica que adquiri reafirmaram a correção do caminho escolhido.

 

Aprendi:

 

1) Que quando eu me aproximo de uma dificuldade, real ou imaginária, paro de respirar. Isso agrava o medo e me paralisa. Continuando a respirar me permito vencer o medo, incorporando-o; e conseguindo, desta forma, determinar a verdadeira dimensão do desafio específico e seguir em frente, vivendo e resolvendo o que for possível. A vida e o surf também agradecem…

2) Que quando prevejo alguma coisa à frente no tempo, que me dê medo, ou que eu imagine ameaçadora, acelero a respiração e me descontrolo. Aprendendo a manter o ritmo da respiração e o ritmo dos movimentos, percebi que quem comanda a minha respiração, o meu ritmo e o meu destino, sou eu. Não posso e não devo delegar isso a ninguém ou a nenhuma circunstância.

3) Percebi que quando estou terminando uma série de 10 àsanas (posturas da Yôga), por exemplo, ao chegar ao nono, prevendo o final próximo, dou uma relaxada (faço isso, também, ao passar nove ondas de uma série de 10), e acabo terminando meio desconcentrado, “capenga”, ou vulnerável. Ou tomando a última na cabeça… Aprendi a ir com o mesmo ímpeto, com o mesmo ritmo, até o final.

4) Nem é preciso dizer que estas atitudes se estendiam para todas as outras atividades da vida, amor e trabalho, sendo que o meu trabalho é o amor e a vida. E surf. Principalmente o surf. Esmorecia antes de completar a tarefa, antes de completar a batida, antes de “varar” a última onda da série. Aprendi. E que Deus me dê consciência para manter esta percepção! terminar, ir até o final, e depois descansar.

5) Se você entra no ritmo da tua respiração não existe cansaço físico. O corpo vira o maravilhoso instrumento que realmente é. Procurar e encontrar o teu “eixo”, a tua “integridade”, é um dos benefícios do Ashtanga. E do surf. Um coopera com o outro. E os dois são um. Você se torna uma unidade mais íntegra e sólida neste plano físico.
6) Embora importante no contexto global da prática, já que somos também matéria, a última coisa que o Ashtanga é, é exercício físico. E a última coisa que o surf é, é exercício físico, esporte.

7) Aprendi: que o ser humano vem em doses. Dose de consciência, dose de anos de vida, dose de amor para dar, dose de amor para receber, dose de paz, dose de violência. Muitas vezes não agüentamos outro ser humano mais do que a dose que ele representa para nós permite. Outras vezes nunca conseguimos ter uma dose suficiente de uma pessoa. É o que se chama paixão. A falta total do eu, a ser preenchida por outro. Se a dose do que eu sou, do que eu me administro, for equilibrada com a dose do meu karma, do que está escrito, está (rá) tudo bem. E que cada um de nós tem a liberdade de doar a dose que quiser do que quiser para si mesmo.
 
Viver na mente é um vício insidioso. Quando menos esperamos estamos aprisionados nos nossos próprios pensamentos. Quando as palavras se lambuzam com o excesso de significados, perdem todo o significado. É neste momento que eu me escondo no silêncio. Abrindo mão da pretensão de criar energia, aceito a sua existência independente da minha vontade. Agindo assim me integro e me energizo. Nutro-me do intervalo da tempestade. Alimento-me do vazio. Não é necessário pensar para existir. Nunca foi.

 

Hoje, se eu detecto a óbvia conexão do surf com a prática do Ashtanga Yôga, é que estou preparado para perceber que ambas são partes poderosas da Unidade Total. Representam-me com sinceridade e, assim, com elas me identifico. São caminhos aparentemente diversos para o mesmo objetivo: o encontro, ou re-encontro, já que nos separamos do todo por distração, e nos re-encontramos por consciência.

 

O desafio do homem é tomar a sua vida nas próprias mãos, mesmo sabendo que o que rege tudo, desde a sua própria respiração até a respiração do cosmo, é o que muitos chamam de Deus. Outros de Alá. Outras de Yavé. Outros de Buda. Quem comanda as batidas do meu coração e segura o planeta Terra e os astros lá no alto da criação é a Força Universal imperceptível a olho nu e cego e que, no entanto, existe com mais realidade do que tudo o que pensamos que vemos.”

 

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