
Pela primeira vez quase não estou dando conta do volume de correspondência do Peregrino. O homem surtou num ímpeto criativo. Ondulações de idéias e conceitos bombando e varrendo a costa dos meus dias secos.
Várias cartas consecutivas. Em linha, quebrando perfeitas na minha consciência. Tudo bem! Ajuda-me a sintonizar “a real”, longe dos mitos tecnológicos que causam estática na minha percepção e, conseqüentemente, na minha vida.
Mais uma carta na soleira da porta e, desta vez, eu vi o carteiro sair, virar a cabeça para mim e sorrir com cumplicidade. Será que ele imagina o conteúdo das cartas ou abre a cola com vapor na privacidade do seu lar, lê e conhece tudo o que eu conheço do meu amigo viajante?! Não, não pode ser, não deveria ser. Não seria ético, embora seja humano… É melhor parar por aqui, já sinto que estou penetrando nos domínios da Terra da Paranóia!
Desta vez levei o envelope para o parque, sentei na grama embaixo de uma árvore com o tronco fendido e amarelado pela poluição insidiosa e li:
“Os dias passavam como água fresca pela garganta seca. Escorriam prazerosamente, me alimentando. As ondas, naturalmente, faziam parte integrante destes mesmos dias, como o sol e lua. Grupo nutricional importante dessa nossa dieta de vida nos sustentava com a satisfação e com aquela persistente sensação de que estávamos fazendo a coisa certa, no lugar adequado, no momento preciso. Após aquele primeiro dia cheio de surpresas e descobertas, fomos nos familiarizando melhor com os habitantes, seus costumes e suas comidas. O cozinheiro da pousada, o Mahal, era um artista das panelas, ou, como ele gostava de frisar: um “arquiteto alimentar”. Não esperava comer tão bem naquele lugar. Em todos os sentidos.

Fomos adquirindo confiança na sua habilidade e após algum tempo comíamos coisas das quais não suspeitávamos o nome nem o que eram. Ele gostava de construir os alimentos como se fossem pequenos templos coloridos. Quando perguntávamos, ele respondia com murmúrios, poucas palavras indecifráveis que não nos davam a menor pista. Na verdade não importava, e acabamos desistindo de exigir definições. Uma prova de Fé! A comida tinha boa aparência e gosto excelente. Nossa temeridade não nos custou um só dia de dor de estomago ou mal estar, pelo contrário, nos provia perfeitamente da energia necessária para surfar o nosso expediente de oito horas por dia. Apesar de uma das regras mais básicas do viajante não recomendar em hipótese alguma a ingestão de alimentos estranhos, exóticos ou de procedência desconhecida, fomos poupados e não pagamos o preço da pretensa imprudência. Estranhamente, ao entrarem em contato com gostos diferentes, nossas papilas gustativas tornaram-se poderosos instrumentos de expansão da consciência. Cada prato nos remetia a lugares do cérebro nunca visitados e a sentidos nunca tocados, lançando-nos numa viagem de expansão interna fantástica, pilotada pelo paladar. Um dos instrumentos humanos mais conhecidos e populares. A impressão que dava, a cada garfada, é que uma bolha explodia dentro da cabeça, abrindo um novo e delicioso universo até então desconhecido. Este transbordamento dos limites sensoriais, claro, ajudava o surf. Ficávamos mais sensíveis a tudo o que nos rodeava, ampliando assim a nossa participação no mundo. Estabeleceu-se um circulo virtuoso em perfeita sincronia com o Todo.

À noite, antes de dormir, eu ficava pensando, deitado sobre a minha maca de lona de braços cruzados sob a cabeça. Revia todo o meu passado e tomava consciência dos contornos do meu corpo. Imaginava uma luz branca, intensa, descendo do coração de Deus, lá no alto, do centro do Universo, e que descia vertiginosamente até a minha Estrela da Alma, um palmo acima da minha cabeça, para logo em seguida me inundar com sua força. Uma poderosa paz me invadia e permitia que aquela luz limpasse cada célula e cada pensamento. Todas as partículas do meu ser inundam-se com aquela luz. Uma faxina cósmica no meu corpo astral e físico. Eu, então, geralmente abria os olhos, olhava para o teto e para a mata escura que se mostrava pelas frestas de mais ou menos um metro emolduradas por bambus. Por estarem ao redor de todo o cômodo, entre a parede e o telhado, e não possuírem telas, estas passagens permitiam um permissivo acesso de criaturas da floresta ao quarto. De vez em quando um morcego entrava, batia na parede oposta e, após insistir várias vezes dando cabeçadas frenéticas e desesperadas, encontrava a saída (como todos nós fazemos, freqüentemente!). Por vezes, logo após o choque, deixava cair pedaços de fruta que levava nas presas. A tarefa de limpar aquela desagradável sujeira logo pela manhã tornava-se mais um ritual que eu aceitava como um aprendizado: meus demônios internos deixavam alimentos contaminados: devo aceita-los mas não ingeri-los.
Quando este meu processo pessoal intrínseco estiver completo eles não encontrarão mais eco e irão procurar outra freguesia. Algumas vezes eu tinha que arrastar o invasor parede acima com o travesseiro, empurrando-o para a liberdade. Eu sentia o cheiro de jasmim vindo de fora, do mato lavado pela chuva e das saborosas reminiscências do jantar do Mahal. Tentava decifrar a sinfonia de grunhidos, pios, rugidos e chiados que vinham da noite. Imaginava o formato, as feições e o atual humor do animal que emitia cada um daqueles sons. Criava personagens e intuía as relações entre eles. Quando o medo construía monstros sem rosto vestidos de pelos eriçados e munidos de garras mortais prestes a invadir meu espaço e meus sonhos, eu fechava os olhos, meditava e me incorporava àquele universo, não mais como um estranho, mas com uma vibração similar à deles, como um igual, sem medo, sendo acolhido e acolhendo a nossa similar condição de seres vivos irmãos compartilhando o mesmo planeta. Eles percebiam imediatamente a mudança de freqüência, e neste exato momento tudo de acalmava. Os próprios ruídos disparatados diminuíam de intensidade, harmonizando-se numa expressão unificada e límpida.
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Num fim de tarde especialmente luminoso, o Gregg tinha ido para o vilarejo comprar bolachas de sal e leite condensado, e eu fiquei sozinho surfando até quase escurecer. O sol aterrissava sem pressa contaminando as nuvens mais próximas de púrpura e dourado. O mar repassava seu cântico milenar especialmente para mim, ecoando na bancada de coral na maré vazante. A ondulação não tinha pressa de ser perfeita, e assim alcançava naturalmente a perfeição. Eu já não sentia a minha prancha debaixo dos pés, pois ela havia se tornado parte de mim. Obedecia ao meu comando mental e muscular como qualquer outro membro do corpo. Tudo que é feito com alegria, naturalidade e leveza é certo. O que quer que fosse que eu imaginasse, seja uma batida aparentemente acima do limite físico, um cutback com a borda enterrada de uma maneira quase impossível ou um tubo tão profundo quanto aquele lugar desconhecido além do medo, ela realizava com prazer. Não havia limite para a imaginação e assim não havia limite para a realização. Nem para o prazer. Quando eu mal conseguia distinguir a luminosidade da espuma, resolvi sair. Como reza a técnica de saída do mar de Arugan Bay, peguei uma onda e desci reto, sem cortar para a direita em direção à profundidade da baía, e fui direto para a praia, perpendicular à linha de arrebentação. Se tivesse que sair remando do final da onda, a volta seria muito maior, singrando por águas profundas e seus habitantes desconhecidos. Quanto mais perto da praia mais cuidado ao afundar as mãos na remada para não raspa-las nas cabeças de coral. Um corte neste clima úmido, que não contribui em nada para a cicatrização, e a viagem estaria comprometida. Um pouco antes de chegar na areia, é necessário também tomar muito cuidado para colocar o pé no chão. Os corais estão sempre de prontidão e só terminam exatamente onde termina a água. Pus o pé direito no finalzinho da água, meio metro antes de chegar na areia, e senti que estava sobre pedras de coral. Neste momento uma onda minúscula veio com uma força inesperada e eu senti meu pé ser empurrado levemente de encontro a uma das pedras. Percebi a carne sendo levemente dilacerada e uma dor aguda tomar conta. A onda tinha levado a prancha também, o que ajudou o movimento.

Eu ainda estava com a perna esquerda sobre ela, e este empuxo me desequilibrou um pouco mais, apenas o suficiente para fazer com que o pé direito ficasse desprotegido. Um pequeno erro. Um grande aprendizado. Sentei na areia, abri o corte e não notei nada de estranho além do previsível sangramento. Fique um pouco preocupado porque conheço o efeito dos micro-organismos vivos dos quais o coral é formado, e estava consciente da distância que me separava da “civilização” e de um hospital decente. No entanto, imaginei que nada disso seria necessário, já que o ferimento era minúsculo e eu tinha uns anti-sépticos poderosos no meu kit médico. A lua já ia alta quando cheguei na pousada. Jantar e maca. No meio da madrugada acordei com o dedão latejando. Como numa explosão, tinha dobrado de tamanho e um pus amarelo-ouro saía pela ferida. As veias que saíam do pé e subiam pela perna estavam ficando mais escuras, como se um veneno estivesse escalando o meu corpo. A infecção havia se instalado. Há uma profunda lógica na loucura. E o medo é uma forma de loucura. Lembrei de uma história de uma menina, em Bali, que por precipitação e erro médico teve a perna amputada sem necessidade. Lembrei da distância entre Arugan Bay e Colombo. Visualizei os pequenos germes invadindo e tomando posse da minha perna.
Esqueci, por uns momentos, quem eu era. Fantasias de sofrimento, dor e desgraça tomaram conta da consciência. Olhei para fora e só vi o silêncio. Não olhei para dentro. Tomei coragem e abri a ferida com as mãos. Lá no fundo, quase imperceptível, vi um ponto escuro. Uma minúscula partícula de coral, como uma pequena ônix preciosa, tinha quebrado e se incrustado lá dentro. Uma “areiazinha” insignificante. Enfiei a unha e fui espremendo com a outra mão até conseguir retira-la. Joguei-a no chão com nojo e raiva. Naquela hora não consegui aceitar o meu lado destrutivo. Mas o mal já estava feito. De manhã não conseguia andar direito. O Frank, um dos alemães do quarto ao lado, percebendo o meu estado, ofereceu uma carona na sua moto até o hospital da vila. Uma fila de pelo menos trinta pessoas, só mulheres, se postava diante de uma porta coberta apenas por uma cortina suja. Ouvia-se o toque de um pequeno sino. Uma entrava, demorava no máximo três minutos, saía, outro toque, outra paciente, três minutos, saída, toque. Sentia-me sonado. Quando chegou a minha vez e o meu toque de sino, entrei e vi um hindu de barba cerrada sentado atrás de uma mesa de madeira, olhando para mim entediado.

Perguntou o que tinha acontecido num inglês tarzaniano. Levantei a perna e a coloquei em cima da mesa, mostrando o pé inchado. Olhou, rabiscou algumas palavras num pedaço de papel marrom e mandou que eu fosse até a “farmácia” ao lado. Enquanto saía ouvi outro toque do sino e uma mulher passou por mim de cabeça baixa, com sua “burka” empoeirada. Na farmácia um homem pequeno, caolho e maltrapilho, estilo “miséria profunda em lugar remoto”, olhou a receita com monótona familiaridade, foi em direção a dois sacos grandes cheios de pílulas, jogados no chão, apanhou um punhado de um deles, embrulhou no mesmo papel que eu lhe dei e me devolveu. A caminho de casa tive um acesso de indignação e, num impulso irracional, joguei o embrulho no pântano. Subi para o quarto, lavei e esfreguei a ferida com sabão até sangrar, me despi, trespassei o sarong na cintura para ficar mais confortável, coloquei o pé para cima do espaldar de uma cadeira e comecei a tomar 500mg do antibiótico que eu tinha trazido do Brasil e que eu esperava que não estivesse vencido. Depois de dois dias a infecção esmoreceu e eu pude firmar o pé inteiramente no chão e na prancha e voltar a surfar. Este pesadelo havia acabado. Pela mente passou a sensação sutil, mas clara, de que uma das minhas lutas pela vida era exatamente a de poder colocar o pé no chão. Quando eu esqueço disso, a vida me lembra.
À noite comecei a escrever tudo o que eu sentia. Eu amo desenhar meus sentimentos em palavras no papel. É uma maneira de me livrar deles. Não é incômodo, pelo contrário, é um alívio. Instala-se a leveza, branca e pura. Quando trabalhamos em algo que amamos, não há esforço nem tempo. O tempo é subtraído da percepção. O prazer dilui e anula o Tempo. E a isso se dá o nome de Imortalidade: o que não morre. O que está sempre vivo porque conectado com o divino eterno”.